Penso, Logo Escrevo

Nasci no mesmo ano em que as imagens de televisão começaram a ser transmitidas no Brasil, mas antes de os televisores invadirem massivamente todos os lares. 
Naquela época, a programação televisiva ocupava apenas umas poucas horas do dia, deixando espaço bastante para as histórias contadas pela vovó ou lidas pela mamãe ou pelo papai ao pé da cama.
Tive a felicidade de nascer numa família de leitores. Desde muito cedo, aprendi a valorizar os livros: ler, para mim, transformou-se em algo mais do que um hábito, tornou-se uma necessidade quase física, como a alimentação, as brincadeiras, o sono.
Meu pai debatia-se entre suas leituras filosóficas e teológicas. Minha mãe mergulhava nos mundos fantásticos criados pelos grandes escritores da língua portuguesa, perdia-se no encantamento dos enredos cativantes e nas paisagens exóticas descritas por autores estrangeiros.
Cedo aprendi a abastecer meu pequeno lago no conhecimento oferecido por todas essas correntes de literatura. Com o tempo, passei a procurar nos livros respostas para minhas inquietações.
Meu primeiro contato com a Filosofia foi através de Voltaire, que despertou meu espírito crítico e minha curiosidade por questões existências – passando por indagações éticas, políticas, metafísicas – e me direcionou à leitura de outros grandes filósofos.
Apaixonei-me pelo nosso idioma. Passei a ler, também, poemas e a colecionar frases bem construídas, metáforas criativas, vocabulário bem empregado.
Ao longo dos anos, incontáveis autores, nacionais e estrangeiros, tornaram-se tributários do meu lago, adensando e aprofundando suas águas. Na maturidade, vi esse lago atingir seus limites. Senti, então, necessidade de deixá-lo extravasar.
Comecei a enviar, para meus amigos, mensagens eletrônicas nas quais tentava compartilhar um pouco do que havia aprendido nos livros e na vida: posições políticas, ensinamentos filosóficos, alguma coisa dos resultados das minhas reflexões. Eram textos simples nos quais emitia minhas opiniões e convidava os amigos para uma discussão crítica sobre determinado assunto. Depois, vieram as crônicas nas quais tentei deixar que fluíssem, de maneira mais literária, meus sentimentos de homem maduro, minhas concepções sobre a vida, minhas críticas sociais, minhas conclusões filosóficas.
Essa prática tomou vulto e acabei por acumular um bom número de textos. Incentivado, instado, mesmo, pelos amigos durante os últimos anos, resolvi aceder e compartilhar algumas dessas crônicas com, talvez, um número maior de amigos. Várias delas falam de meus netos e da sensação inefável de “avonidade”.
Então, a publicação do meu livro constitui, também, uma homenagem a eles.
Não tenho pretensões literárias ou comerciais, apenas compartilho graciosamente o que penosamente acumulei por mais de meio século.