Para refletir




A Descoberta do Mundo

(Texto extraído do livro “Aprendiz de Homero” de Nélida Piñon)

      No Brasil, indaga-se, à exaustão, como agir perante o aluno que, recém-chegado à escola, traz consigo, como única bagagem, uma cultura primária, o conhecimento escasso, quase inexistente, da realidade circundante; um aluno, que marginalizado das benesses culturais e ofuscado pelo brilho do mundo, apenas dispõe das migalhas que a grei familiar, desfalcada de tudo, assegurou-lhe como única herança de amor e atributo moral.
      Este quadro social, a condenar os brasileiros ao degredo, impõe, em contrapartida, a indagação: acaso cabe à escola consolidar esses valores, conservar o aluno em um estado indigente, a pretexto de não desmoronar suas convicções familiares, de não ofender suas raízes, seu orgulho cultural? Acaso em nome de uma ideologia hipócrita, de uma valorização cultural localista, é válido privá-lo dos benefícios de uma revolução mental, mantê-lo afastado de um sistema linguístico sofisticado, isolá-lo do protagonismo social e negar-lhe, como consequência, o privilégio de usufruir uma realidade progressista só por haver nascido em um berço socialmente condenado?
      Não devemos perder de vista aqueles conceitos que cobram da escola e da sociedade um poética da realidade, uma poética capaz de valorizar, ao mesmo tempo, a aventura de viver e o convívio com o saber, empenhada em acreditar que o pensar, mesmo de alta elaboração, não sendo em si excludente, arrasta em seu interior, em sua disciplina expansionista, todas nas categorias sociais, todos os sentimentos engendrados pelo ser humano
      Como consequência desta crença, há que humanizar o humano, recuperar o logos na sua dimensão dupla de razão e de conteúdo de linguagem. Há que reconhecer a escola e a sociedade como responsáveis por uma pedagogia que, havendo falhado na formação de princípios que alargam o espírito humano, terminou por vertebrar o sujeito social e que, ao oferecer ao cidadão o arremedo de uma democracia plena, concede-lhe, isto sim, falsas prerrogativas, em especial quando se descuida de seus direitos e imprime à cidadania ilusões irrealizáveis.
      Com frequência, desconfio de sermos vítimas de uma impostura social por parte de quem, a pretexto de adiar soluções de problemas asfixiantes, cria nomenclaturas vácuas, alia-se ao politicamente correto, com tal artifício dissimulando questões reais.
Dificilmente o Brasil será uma nação soberana se não proclamar a cartilha como uma alavanca simbólica. Sem ela, uma legião de desesperados, desfalcados de fé no sistema social, há de refugiar-se na violência, na morte precoce. Para esses revoltados, a cela, substituindo a educação que redime o homem, torna-se uma impiedosa carta de alforria.
      A despeito, contudo, do fracasso dos sucessivos governos de enfrentarem a falência educacional, subsiste a figura heroica do professor que, levando a mochila nas costas, com os pés cansados, rastreia o Brasil e oferta aos alunos, assombrados ante as primeiras manifestações da educação formal, as palavras que são o alento da presença civilizadora. Ao atraí-los para o centro da gravidade cultural, o professor demonstra-lhes que são um a mais na extensa cadeia de pequenos heróis, enquanto assegura-lhes de que o prazer originário do conhecimento, da sabedoria, corresponde ao gozo da carne, à alegria do amor, ao misterioso sentimento que invade a todos quando a inteligência, uma vez manifesta, invade a floresta.
      Contudo, enquanto o professor padece de contínua transformação, é da liturgia apresentar-se diante do aluno como uma figura transcendente que, mediando o saber e a ignorância, exerce seu ofício com inconteste autoridade, uma autoridade que dispensa a intimidade licenciosa, o uso do tratamento desrespeitoso, a pretexto de distorcidos direitos democráticos.
      Assim, mestre é mestre, aluno é aluno, ambos guardando entre si a distância propícia ao afeto e ao respeito que consolida a autonomia de cada qual, os direitos de todos, mesmo porque a palavra autoridade procede de quem ajuda a crescer, de quem impulsiona o próximo a transformar-se, a sofrer a metamorfose que a educação impõe.
      Educar, porém, não é empobrecer quem é pobre, quem padece da penúria social, para oferecer uma educação de segunda classe a pretexto de fazê-lo entender o que, de outro modo, não estaria á altura da sua compreensão.
      Educar não é humilhar o aluno, privando-o de um saber que o pode elevar a um patamar superior, nem lhe ofertar o ensino idêntico ao que tem em casa, no seu cotidiano espezinhado.
      Educar não é lhe dar a metade de uma língua que consagra os erros trazidos de casa, a caricatura do que ele representa, e fazer dele um experimento pedagógico que ignora a redenção civilizadora; não é privá-lo de um conhecimento que o leve um dia a igualar-se ao saber de quem pode mais que ele, teve mais chances que ele, ouviu melhor que ele, leu melhor que ele.
      Educar é também desconsiderar os obstáculos da miséria e do obscurantismo e fazer a criança sonhar, o adolescente derrubar os entraves culturais, para que pleiteiem um mundo à altura da sua imaginação. Educar é, também, convencer alunos e cidadãos que o professor é a única entidade social capaz de modificar a sociedade e torná-la melhor.
      Educar é combater a realidade reducionista do aluno, é introjetar em sua caixa de memória o desejo irrenunciável de apropriar-se do conhecimento, é fomentar-lhe o gosto pela leitura que, por si mesmo, combate a resignação, a passividade, e concede-lhe, em troca, infindáveis oportunidades, dando-lhe o acesso ao infinito mundo.
      Educar é combater o trivial, o frívolo, o que permanece na área dos equívocos acumulados; é ajudar a formar um indivíduo para que ele possa decidir, com rara propriedade, de que modo conduzir a vida.
      Sendo todos partícipes desta epopeia cultural, já não podemos aceitar, passivamente, que a população brasileira, mantida à margem do processo educacional, seja vítima de uma prática que corresponde a um genocídio, pois há várias maneiras de matar sem o uso de arma. Mata-se, também, mantendo o brasileiro afásico, cancelando-lhe o arbítrio, o livro, confinando-o à ignorância, não lhe cedendo ocasião para refletir sobre o universo.
      A verdadeira separação de classes reside, de fato, em quem tem cultura e em quem não a tem.