/script> Gabriel Fernandes: La Chute e uuu...

terça-feira, 8 de agosto de 2017

La Chute e uuu...



Lá fora faz um frio invernal. Aqui na cozinha, corre uma conversa aquecida em torno de pratos brancos e fundos em que fumega delicioso caldo verde, especialidade da Gorda. A taça cristalina toma emprestado o matiz rubro do vinho, assumindo seu lugar no palco modesto da mesa.
Fanáticas por cinema, minha mulher e a prima, a Gorda, conversam animadamente sobre filmes e atores.  Entre um bom livro e um bom filme, sempre prefiro o primeiro, mas às vezes aceito assistir a um que me pareça interessante. O Zé, o Gordo, marido da Gorda, tem preocupações mais elevadas: enfrenta, com voraz determinação, seu prato de caldo verde e aprecia sem moderação uma generosa taça de vinho português.
Desta vez, entre terminar de ler La Chute, de Albert Camus, ou entrar no papo das primas − e para não ficar só ouvindo o blábláblá e me sentindo excluído − me arrogo o direito de meter o bedelho no bate-papo. Após alguns minutos de conversa, não posso deixar de começar a associar a forma como nossa conversa evolui e o assunto de que trata o livro de Camus: a decadência física e profissional de um arrogante advogado parisiense que se considerava filho de rei, uma sarça ardente, o melhor dos seres humanos. Como ele foi, somos igualmente vítimas da passagem implacável do tempo. Nosso corpo há muito dá sinais de decadência: a pele flácida, os cabelos ralos e brancos, a presbiopia, a lenta e quase imperceptível perda de vigor físico... Agora é o cérebro que começa a dar sinais de fadiga de material, começa a ratear, a andar mais devagar, a parecer pegar só no tranco. Lentamente, caminhamos em direção à ponte, em direção às águas frias e escuras do Rio Amstel.
As primas lembram detalhes de muitos sucessos de bilheteria, mas, muitas vezes, os nomes dos atores fogem da memória como cachorros fogem da carrocinha.
− Você se lembra do nome do ator que se protegeu do frio dentro do corpo de um cavalo? Aquele loiro bonitão...
− Aquele que se casou com aquela atriz morena que operou os lábios e ficou com um beição esquisito?
− É, o mesmo cara que fez o filme do cavalo gigante de madeira, né?
− Não, ele fez aquele filme do navio que afundou. Uuu...
E o nome não vem. Ninguém se lembra sequer dos nomes dos filmes. Então, o sabidão aqui dá um palpite:
– É o Di Capri... O Peppino di Capri – me intrometo.
As primas explodem numa debochada gargalhada e eu, fico ali congelado, com cara de otário, sem saber o porquê daquela gozação. Nunca me arrependi tanto de não ter ficado com a matraca fechada. O que eu tinha dito de tão gozado? O Gordo? Ora o Gordo! Continua a digladiar-se ferozmente com sua refeição e a esvaziar diligentemente sua taça. Mas, apesar do fora, minha dica foi importante: todos se lembraram de DiCaprio, o Leonardo.
E a coisa continua, assim como continuam os vexatórios uuu...
− Adorei o filme daquele negão que cuida dum cara paralítico. O ator que fez o cara paralítico é uuu...
E o nome não vem, foge como um trombadinha após o furto.
É o cara que fez Antes de Partir. Uuu...
− Quem fez Antes de Partir foi uuu... Demora um pouquinho, mas consigo me lembrar do Jack Nicholson.
− Então foi uuu... O cara que fez Taxi Driver.
− Não, foi uuu... Mais uma longa pausa. O De Niro?
− Não, o que fez papel de cego nuuu... Nova pausa longuíssima.
E os três tentam se lembrar dos nomes do filme e do ator.
Eu apelo para o alfabeto. Passo por todas as letras tentando associar rostos de pessoas a nomes e filmes. Inutilmente. Ficamos rodando em círculos como um peru bêbado, sem resultado.
Só à noite, enquanto as primas assistem à televisão e o Gordo dissipa ledamente mais uma taça de um bom vinho do Douro, conseguimos nos lembrar de Perfume de Mulher e de Al Pacino, que não tinham nada a ver com o nome do filme e do ator que passamos a tarde toda tentando lembrar.
O filme a que as primas se referiam é Intocáveis, de Eric Toledano e Olivier Nakache. O ator que faz o paralítico é François Cluzet, que apenas vagamente lembra Robert de Niro. Descobri tudo isso no Google.
Envelhecer é mesmo um caco. A gente vive assustada tentando associar qualquer fato que parece fugir do normal a algum sintoma daquela doença degenerativa descrita por aquele médico alemão uuu... Por sorte, ainda restam as pontes sobre os canais de Amsterdã como último recurso para uma partida com alguma dignidade, isso se não me esquecer de pegar o voo para uuu...
Brr...! A água está tão fria! Mas tranquilizemo-nos! É tarde demais, agora, será sempre tarde demais. Felizmente!"