/script> Gabriel Fernandes: O Ratinho e a Fada

segunda-feira, 5 de junho de 2017

O Ratinho e a Fada




A Fada do Dente acabou vencendo o Ratinho Pérez. No meu tempo de criança, nos faziam acreditar que quando a gente perdia o primeiro dentinho de leite devia deixá-lo sob o travesseiro, com uma cartinha ao Ratinho do Dente que, durante a noite, viria buscá-lo, trocando-o por uma moedinha ou uma nota de baixo valor. Os demais dentinhos deveriam ser jogados sobre o telhado para que a segunda dentição viesse forte e saudável.
Hoje não se fala mais no Ratinho do Dente criado pelo escritor espanhol Luis Coloma , no século XIX, e que influenciou várias gerações de crianças nos países de língua latina, como o nosso. O Ratinho Pérez foi derrotado pela Fada do Dente, de origem bárbara, introduzida no imaginário brasileiro pela máquina hollywoodiana de produzir americanófilos.
Ainda me recordo da ansiedade e do frisson quando da perda de meu primeiro dente. Toda a família participava: o pai, a mãe, a avó, as tias, os irmãos mais velhos... Cúmplices carinhosos naquele ritual de passagem, naquela fantasia bondosa. Na minha cabeça, quase virgem de ideias, aquele fato significava que eu estava me aproximando da maturidade, que estava me tornando adulto: mais um pouco poderia abandonar as calças curtas e as meias três-quartos. Era demais! Além disso, eu ganharia pelo menos uma moedinha dourada de dois cruzeiros, suficientes para comprar alguns gibis usados, tomar soverte ou saborear um teco de quebra-queixo, machadinha ou raspadinha. Não me importava ouvir me chamarem de banguela; não me importava aquela cara-de-goiaba que eu veria refletida no espelho por algum tempo, com a janelinha escancarada ou a porta do açougue aberta, como se dizia à época.
O tempo escoou como água em minhas mãos, embora eu tenha feito de tudo para tentar detê-lo ou pelo menos retardar os seus passos. Em vão, como eu sabia que seria. Mas, não me queixo, não tenho esse direito, reconheço que sou, em muitos sentidos e frente ao cenário universal que se descortina diariamente à minha vista, um privilegiado.
Prova disso é que acabo de receber uma foto de meu netinho André. Ele acaba de perder os dois dentinhos da frente. A janelinha está escancarada ou a porta do açougue está aberta. Certamente ninguém vai se lembrar de lhe dizer isso, talvez apenas a avó e eu. Com certeza a Fada do Dente veio trocar por uma moedinha os dentes que ele deixou sob o travesseiro, já que o Ratinho foi há muito esquecido, vencido, que foi, pela Fada importada que destruiu mais uma de nossas tradições sem que houvesse enfrentado qualquer oposição. Não importa. É assim mesmo. É inevitável. Tudo muda.
Não, nem tudo muda! Ao examinar com mais profundidade a foto de meu netinho, que me traz à lembrança a imagem que guardo de mim mesmo na minha infância, percebo que na sua carinha-de-goiaba, que me faz lembrar a minha, no fundo de seus olhos ainda subsiste, embora ele não o saiba, a imagem fascinante do Ratinho do Dente.