/script> Gabriel Fernandes: O Cheiro das Laranjeiras

terça-feira, 20 de junho de 2017

O Cheiro das Laranjeiras






Como bom paulistano, acho que sempre acalentei certo preconceito em relação à cidade do Rio de Janeiro. Não sei se é puro despeito, talvez apenas inveja descabida (descabida?) do relevo e dos contornos deslumbrantes da cidade dos cariocas, dos morros famosos, das pedras enigmáticas, da calmaria dos lagos, do perfil gracioso das baías, do burburinho festivo das praias, dos belos fortes maciços, do exuberante Jardim Botânico, da fabulosa herança arquitetônica colonial, do prosaico bondinho de Santa Tereza, da harmonia dos Arcos da Lapa...
Acho que esse meu sentimento vai além das diferenças físicas entre as duas cidades. São Paulo tem sua própria beleza, eu a reconheço no quase nada que sobrou de construções coloniais, do pouco que restou da genialidade criativa de Ramos de Azevedo. Na distância, meus olhos procuram, às vezes, o verde remanescente da Mata Atlântica no isolamento do Pico do Jaraguá, nas ondulações da Serra da Cantareira ferida de morte ou na mancha minúscula do Parque do Estado. O resto é tudo gigantismo e funcionalidade: concreto, aço, vidro, asfalto, pressa.
São Paulo é uma cidade sisuda, uma velha senhora, vestida de nuvens de chumbo, que se alastra incontrolavelmente sobre os Campos de Piratininga. Minha cidade tem pressa, se sorrisse certamente nos mostraria um sorriso desenxabido, como a nos pedir desculpas pela sua desproporcionalidade.
Hoje me sinto um pouquinho carioca também e experimento certo orgulho ao dizer que meus netos são cariocas. O Rio me surpreende a cada nova visita. As opções de passeios parecem infinitas, assim como as amenidades do clima. Palácios, museus, teatros, igrejas, fortes, parques, praças, morros, praias, ilhas... Feiras.
Aliás, feira no Rio é algo muito distinto do evento hebdomadário (esta é para cutucar um amigo meu) que recebe o mesmo nome em São Paulo. A coisa se passa no Bairro das Laranjeiras. A feira começa na Rua Ortiz Monteiro, esquina com a General Glicério, nos limites da Praça Jardim Laranjeiras, mas o tumulto se inicia bem antes. Primeiro a dificuldade para se encontrar um lugar para deixar o carro; depois o caminhar no meio da rua, espremidos entre os carros mal estacionados e os imensos ônibus que ameaçam nos amassar a cada instante; além disso, a preocupação com as crianças levadas ao colo ou bem junto ao corpo.
A fila segue como uma enorme, vagarosa e colorida lagarta de inúmeras pernas. Pessoas sem pressa puxam seus carrinhos de arame, conduzem suas sacolas de fibra, conversam animadamente com quem vai a sua frente ou logo atrás. Não há pressa. Faz calor. A praça é ocupada por gente de todas as cores, classes e idades que conversam animada e descontraidamente. As crianças divertem-se assistindo a um ingênuo espetáculo de teatro de fantoches.  A seu modo, o barraqueiro diverte-se vendendo bolinhos de bacalhau regados a azeite de oliva e pimenta Tabasco. Da barraca de pastéis e cana de açúcar parece crescer uma estranha cauda que se alonga pela Belisário Távora: é a fila dos comedores de pastéis.
No andar térreo de um prédio, em uma das esquinas, um bar escancara suas portas para a feira. As mesas na área externa do bar estão todas ocupadas. No chão, entre as mesas, muitas crianças distraem-se com os brinquedos oferecidos graciosamente pelos donos do bar: bolas, quebra-cabeças, carrinhos, bonecas, chapéus, fantasias, máscaras... Minha netinha encontra vários coleguinhas da escola que brincam entre as mesas. Minha nora consegue um lugar em uma das mesas ocupadas por outras mulheres. Parece que todas as pessoas se conhecem e a área do bar assemelha-se a um alegre quintal. Eu me sento no meio-fio, entre duas barracas de peixes. Meu netinho André está comigo. Ele brinca com pedrinhas, folhas secas e alguns galinhos caídos de uma velha tipuana: passeia em um mundo de fantasias que já não posso visitar. Eu, por meu lado, divago entre peixes, moluscos e crustáceos...
Os olhos vidrados de uma infeliz tainha parecem nos observar de cima do balcão forrado de cascalho de gelo. É um olhar triste, vazio. De repente uma gota d’água escorre pelo plástico transparente e cai silenciosamente no chão como uma solitária lágrima. Talvez ainda chore a saudade das águas frescas do mar de onde foi bruscamente arrancada. Nada posso fazer.
Um grande polvo parece sonhar com a possibilidade de escapar da bandeja que o aprisiona; desbordar como uma gelatina parda; escorregar pelo balcão; cair no asfalto quente; enfurnar-se na escuridão dos esgotos e alcançar o mar numa fuga espetacular. Pobre polvo!
 Um belo dourado me emite um olhar constrangido, parece ser inaceitável para ele expor publicamente sua nobreza ao lado da indigência de pobres sardinhas e prosaicas manjubas anãs. Morto, mas orgulhoso.
De repente, uma aparição milagrosa. Um ser de estatura elevada, de cabelos e barba grisalhos e longos, um par de olhos azuis como o céu límpido daquela manhã. Pensei que sonhava ou que estava tendo visões. Era o próprio Cristo redivivo. Levantei-me e olhei ao meu redor para avaliar as reações das pessoas. Todos pareciam ignorá-lo. Olhei para o horizonte procurando localizar o Corcovado. Se eu o pudesse ver dali, certamente não encontraria mais o Redentor em seu topo, pois ele havia se materializado bem à minha frente, à frente de um cara que não tem fé.
Passado o susto, fiquei observando o Cristo mover-se entre as bancas da feira. Ele andava leve e vagarosamente, parecia levitar com suas sandálias brancas e rotas. Meu netinho olhava o Cristo com indiferença. Para ele, suas folhinhas e pedras constituíam um universo muito mais importante. Com certeza ele ainda não estava preparado para aquela inesperada epifania. Aquele Cristo improvável, alto demais, branco demais, envelhecido demais realizava sua liturgia impudentemente. De banca em banca, ele surrupiava uma maçã aqui, uma banana ali, um caqui acolá, um pedaço de melancia alhures, uma azeitona algures. Experimentava de tudo, sem nunca se dispor a comprar nada. Pensei que ele fosse repetir o milagre da multiplicação dos peixes nas bancas que nos rodeavam. Não. O Cristo era especialista em multiplicar o volume dos bolsos de sua túnica. Os feirantes o ignoravam como a um fantasma. Ele era apenas mais um maluco-beleza ou um vulgar espertalhão. Também me desinteressei dele. O Cristo verdadeiro, seguramente, ainda encimava o Corcovado.
O odor forte de fritura misturava-se aos perfumes das frutas, ao cheiro dos pescados, ao aroma dos temperos e ervas, à fumaça intermitente dos ônibus. Numa pequena banca, o vendedor montara, com arte, um colorido mosaico formado por inúmeras espécies de pimentas que também incensavam o ar. Ao lado de uma barraca de peixes, um camelô oferecia sardinhas, que acabara de limpar, empilhadas na forma de um grande peixe. A feira se revelava uma rica e criativa exposição de arte moderna.
Voltei à praça com meus netos e meu filho. Contribuímos alegremente para o crescimento da cauda da barraca de pastéis. Devoramos pastéis gigantes e quibes exagerados regados por dulcíssima garapa.
Ninguém tinha pressa. Da praça fugia a melodia sincopada de um pequeno grupo musical. O som agudo da flauta costurava as notas quentes e roucas da clarineta. O pandeiro, o tamborim e o cavaquinho confabulavam íntima e ritmadamente. A plateia acomodava-se da melhor maneira possível para poder assistir à apresentação de choro, bossa nova e jazz. Os connaisseurs traziam suas próprias sombrinhas, cadeiras e bancos.
Não sei quanto tempo me demorei na feira. Pareceu-me uma doce eternidade, mas eu também não tinha pressa.
De volta a São Paulo, vi mais uma vez ser montada, próxima ao prédio onde moro, no Bairro do Paraíso, a minúscula feira de sábado. Ela ocupa apenas um quarteirão, oferece pequena variedade de produtos, pouca gente se vale dela, mas a insistência dos feirantes a faz renascer a cada sábado. As pessoas apenas passam por ela. Algumas comem rapidamente um pastel ou tapioca e tomam uma garapa num copo mole de plástico. Ao contrário da feira carioca, aqui os feirantes gritam como loucos, tentando atrair os clientes apressados e, talvez inconscientemente, quebrar a monotonia de uma feira sem vida.
Voltei do Rio ainda mais invejoso... Agora, nostálgico, guardo a lentidão contagiante, as cores profusas e o som farto da feira da Rua Professor Ortiz Monteiro que começa e termina na General Glicério desenhando um longo e colorido arco. Agora, tenho a sensação de que, vez ou outra, meus pulmões melancólicos suspiram com saudade do cheiro das Laranjeiras.