/script> Gabriel Fernandes: Balaio de Minas

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Balaio de Minas


IV Festival de Inverno da Cidade de Gonçalves, julho 2013, embora, diante da monstruosidade dos aglomerados humanos atuais, Gonçalves não possa ser considerada sequer vila ou bairro: é tão-somente um pequeno ajuntamento de pequenas construções incrustadas no colo verde da Mantiqueira.
A festa decorria como planejada. No palco, um grupo de violeiros guardava seus instrumentos após tocar o repertório programado de clássicos do cancioneiro sertanejo. O silêncio voltava a acariciar as cadeiras brancas de plástico alinhadas sob a tenda igualmente branca; a plateia cochichava qualquer coisa enquanto aguardava a próxima atração.
Eu deixava a tenda quando ouvi as batidas distantes de uma zabumba e de um surdo. O ar estava gelado; uma neblina fina envolvia a noite. O som do batuque soava cada vez mais perto, mas ainda não me era possível identificar de onde provinha. Então, na opacidade úmida do ar, como num truque de mágica, alguns vultos começaram a se materializar como que saídos de um alçapão repentinamente aberto na aspereza hexagonal do calçamento da rua. Lentamente, uma imagem tomava forma como uma tessitura intrincada urdida por um velho tear.
Minha curiosidade me fez parar e aguardar o desfecho daquela cena. Logo o ar se encheu de uma cantoria alegre e doce. Fadas, com suas saias longas e coloridas, tomaram corpo diante de mim para deleite de meus olhos. Eram doze moças lindas que, cantando, pediam licença pra sinhá e pro sinhô a fim de poder mostrar sua arte e sua graça e nos contagiar com sua alegria.
Voltei para o interior da tenda seguindo aquela ciranda cativante de belas bailarinas que rodopiavam graciosamente no meio do povo deslumbrado. Reviveram antigas canções folclóricas, de melodias simples, de letras ingênuas ou de pequenas malícias: “O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou...”.
Eu queria que o tempo parasse para que a música e a dança continuassem para sempre. Os versos matreiros, as rimas simples, o palavreado matuto, as meninas lindas...  Sua arte me fez retroceder no tempo; voltar à infância já muito distante, para a companhia de meus irmãos e amigos, para as brincadeiras na rua, para as grandes rodas que formávamos para brincar de ciranda mesmo sob a garoa das noites frias do inverno paulistano. Pareceu-me ouvir a voz de minha mãe a me chamar para que colocasse um agasalho porque fazia frio. Confesso que me emocionei.
Paulistano que sou, comecei a me sentir um pouco das Minas Gerais, possuído pela cultura mineira, pelo modo de falar, pelo jeito de ser, pela maneira que o povo das Gerais tem de encarar a vida.
O som da ciranda ainda repercute em meus ouvidos, as batidas do bumbo, as respostas do surdo, os acordes da viola que se juntou ao grupo, as vozes das meninas-fadas que se materializaram na névoa fria que cobria Gonçalves. Sinto que posso dizer que agora um pouquinho de mim é mineiro, ocupa um pedacinho desse mágico balaio cultural que é Minas.