/script> Gabriel Fernandes: A Vidraça

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A Vidraça


Que me dirás esta noite?
A escuridão funesta que chega
Já bordeja minha janela.
Ruas despovoadas, praças desertas...
Apenas o improvável parece mover-se
Na negra mortalha do céu.

Hálitos fétidos
De anjos sinistros, de demônios terríveis,
Turvam minha vidraça
Que os contornos da minha cidade
Distorce, desfigura, corrompe...
Vórtice de formas e sombras
Que não sei decifrar.

Que me dirás esta noite de solidão plena,
De absoluta desolação,
Em que correm em minhas veias
Os mais mortais venenos?
Os sons se emaranham e os ecos
Vêm morrer no frio dos meus lençóis.

Minha mente se embaraça
Num caos de indefiníveis sensações
Que embaçam os meus olhos.
Meu rosto a vidraça distorce, deforma, corrompe...
Mosaico de incertezas e medos
Que não sei deslindar.

Que me dirás esta noite?
O tempo escorre em minha vidraça.
Teimo em auscultar a vida que escoa como lenta ameaça
E insisto em descobrir quem é esse fantasma que grita em minha cabeça
E me pergunta por que vivo,
Por que temo as trevas que se avolumam lá fora,
Por que carrego um coração impregnado de fel,
Por que não deixo o sono extinguir meus sentidos,
Que espero ainda, por que não permito que o pranto lave meus olhos
E que indaga quem sou.
Respostas que não tenho.

Que me dirás esta noite?
Dirás que já fui antes,
Que já experimentei outros medos?
O tempo corre em minhas veias como um terrível veneno.
Lentamente morrem os sons em meus ouvidos
E as luzes que traspassam minha vidraça
Aos poucos se apagam para os meus olhos.

Não me pergunta quem sou!
Sou quando?
Sou - quem sabe? - um frágil átimo da perenidade.

Que me dirás esta noite?
Que conheces os segredos do Tempo,
Que existe antídoto para meu mal,
Que ainda serei depois?
Dirás que o sol rasgará o manto negro da noite
E haverá uma nova manhã
E não mais beberei as sombras que filtra minha vidraça?

Não me pergunta quem sou!
Resposta que não tenho.
Não posso explicar minha temporalidade.
Quem sabe seja simplesmente enquanto,
Quiçá um breve despertar no sono da eternidade.

Que me dirás esta noite?
Talvez apenas venhas me dizer adeus.