quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Cidade Sem Deus


Esta cidade descomunal tem certo quê de magia.
Estando aqui, sinto-me como se vivesse alhures,
Como se habitasse outra megalópole qualquer.
Aqui, tudo é improvável:
A multidão que envolve como um deserto,
O céu plúmbeo e opaco, as noites de estrelas baças.
Divido meus pensamentos entre os ruídos ásperos da rua
E a fragilidade do meu sono.

Esta cidade mágica tem certo quê de atonia.
Estando aqui, sinto-me como se parasse de viver,
Como se desistisse inelutavelmente de sonhar.
Aqui, compreendi que Deus já não vive,
Sufocado sob o rumor incessante dos automóveis,
Asfixiado no acre da atmosfera doente,
Morto sob apressados passos trôpegos de seres inconscientes.

Esta cidade inânime tem certo quê de agonia.
Estando aqui, sinto como se a sentisse ofegar,
Como se a percebesse medrar lenta e inexoravelmente.
Aqui, a vejo exsolver suas pústulas sobre a natureza que a cinge.
Desde que Deus sucumbiu, abdiquei das respostas fáceis e falsas;
Vi esvaziarem-se meus embornais de verdades absolutas
No qual, tolo, enfurnava minhas crenças incontestáveis.

Esta cidade agonizante tem certo quê de sombria.
Estando aqui, sinto a beleza martirizada nos grotescos espigões de concreto,
A sensibilidade pisoteada pela cupidez insana do homo economicus.
Aqui, por onde se passa, vê-se a esperança derruída,
A consciência imolada no Índex de publicações místicas, escatológicas,
A razão abatida pela insolência do mercantilismo descabido...
Possido, ergo sum.

Esta cidade triste tem, ainda, certo quê de poesia.
Estando aqui, sinto a Natureza resistir nas improbabilidades absolutas
Do concreto abrasivo, das sarjetas imundas, das paredes rotas.
Aqui, a beleza anosa afronta as modernidades funcionais de aço e vidro.
Os sabiás ainda cantam, nas tipuanas centenárias, a saudade da mata intocada;
E, ludibriados pelos faróis intermitentes dos automóveis,
Os galos anunciam sonoros amanheceres extemporâneos.

Esta cidade poética tem certo quê de infinitude.
Estando aqui, sinto sua azáfama e luzes igualarem noites e dias.
Aqui, suas possibilidades infindas, seus habitantes dessemelhantes,
Colorem minha mente com sonhos de visões da eternidade.
As folhas do meu outono caem sobre as calçadas desgastadas,
Mas minhas pegadas não estão nas ruelas estreitas do passado,
Calcam, meus passos curiosos, a ladeira íngreme que leva ao Amanhã.

Esta cidade infinita tem certo quê de epifania.
Estando aqui, sinto os olhos devassadores de sua ubiquidade opressiva,
Sua onisciência inibitória, nas câmeras que povoam edifícios e ruas.
Aqui, é melhor não questionar; melhor não pensar;
Melhor não abandonar a alheação conveniente das seitas.
Entre as brumas do inverno que antevejo,
Meus olhos enxergam escarpas ensolaradas, céus azuis,
Talvez respostas às minhas indagações.

Não há lugar confortável fora da estrada larga e enganosa das religiões.
Entre a loucura consentida da fé que idiotiza
E o mergulho na escuridão das incertezas seculares,
Escolhi os riscos da indagação curiosa,
Da série interminável de “por quês?”
Que há milênios desafiam a arrogância intelectual do Homem.
Não há respostas na ciência; a Filosofia, inerme, sucumbe...
Tudo flui, tudo é incerto e escorregadio.

Minha cidade aglomera a solidão de seres díspares em multidões incontáveis.
Debalde. Milhões de seres solitários não fazem uma insolidão.
Não há lenitivo para nossa solitude cósmica.
Aqui, um sorriso brinca na minha face à percepção de nossa contingência.
Somos apenas o lampejo de um átimo da eternidade.
Somos apenas um viajante eventual numa noite escura,
Noite de perguntas irrespondíveis, de incertezas perpétuas.

Minha cidade divina tem certo quê de anomia;
É um salmo que louva a convergência das realizações humanas,
O humano desejo incontrolável de domínio sobre a desordem natural.
Aqui, o Homem arremeda o Criador, criando o seu próprio caos.
Melhor ignorar o salmo que ressoa nos ares ácidos da minha cidade.
A ciência me oprime como uma âncora inútil sobre o convés.
Preciso lançá-la ao mar...

Preciso lançar-me ao mar...