/script> Gabriel Fernandes: Galinhas, Mães e Filhas

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Galinhas, Mães e Filhas


A galinha fez seu ninho sob a copa de um dos podocarpos que ladeiam a porta da minha oficina: pôs oito ovos. Durante três semanas os chocou: foram vinte e um dias virando-os de tempos em tempos para garantir que recebessem calor por igual. Não se alimentou ou tomou água durante praticamente todo esse tempo. Choveu muito nesse período, mas ela se manteve irredutivelmente fiel à sua futura ninhada. O galo? O galo passou todo esse tempo correndo atrás de outras galinhas.
Do nosso lado, a coisa é um pouco mais complexa. Quando uma mulher tem um filho, o pai fica contente porque sabe que por alguns anos terá um companheiro de passeios, jogos e brincadeiras. A mãe também se alegra porque terá um homenzinho para domesticar, moldar e tentar transformá-lo na imagem daquilo que gostaria que o marido fosse.
Porém, se nasce uma menina, a coisa se complica. Quando a mãe olha nos olhos da filha pela primeira vez, alguma reação química inexplicável acontece. Elas não sabem ainda, mas ocorre uma ligação mágica, instantânea e indissolúvel. Mãe e filha se tornam prisioneiras uma da outra para sempre. É como se a divindade concedesse à mãe o beneplácito de uma segunda vida. E a coisa só tende a se agravar com o tempo. O pai é quase excluído do processo de criação; fica com uns restinhos de tempo para mimar a menina; não pode fazer brincadeiras um pouquinho mais fortes sem ser repreendido; não pode dar umas bronquinhas, quando acredita que a criança mereça, sem que a mãe interfira como uma fera. O pai é reduzido a alguma coisa como menos da metade de coisa nenhuma. Tem de amar a filha à distância. E não pode, como o galo, simplesmente ignorar tudo.
A mãe mima a filha como a uma bonequinha, uma princesa, uma pequena deusa. Educa, paparica, instrui, molda... Parece querer transformá-la naquilo que gostaria de ter sido. A menina cresce, assim como crescem a interação, a cumplicidade e o amor entre mãe e filha. Ao pai cabe apenas assistir de longe. Excluído, ainda vê mãe e filha se unirem para aborrecê-lo com sarcasmos e ironias. Elas conversam por meias palavras; se expressam por gestos sutis; se comunicam com os olhos. Nos dias de hoje, as conversas são mais tecnológicas. Então, passam o dia todo no celular ou na droga do What’sApp. Amam bater pernas; adoram a Vinte e Cinco de Março, a Ceasa, a Liberdade e o Cobasi.
Quando a filha atinge a idade adulta, a coisa está feita. É um retrato vivo da própria mãe na juventude. As mesmas atitudes, o mesmo comportamento diante das adversidades, os mesmos gostos, os mesmos chiliques, a mesma voz, a mesma implicância com o pai... É comum se ouvir pessoas estranhas dizerem para a mãe: É sua filha, né? É a sua cara! Embora, de fato, fisicamente ela se pareça com o pai.Chega a emocionar ver a união entre mãe e filha. O carinho mútuo, a preocupação recíproca, o amor incondicional. É muito fácil reconhecer traços da ligação estabelecida naquele primeiro olhar entre elas durante o parto recíproco: quando a mãe deu à luz a filha e a filha deu a luz à mãe.
Dos oito ovos chocados, apenas um vingou. A galinha saiu do ninho exibindo sua cria com o mesmo orgulho que teria se tivesse chocado uma numerosa ninhada. Tentei pegar o pintinho para colocá-lo em um viveiro onde ficaria protegido. A galinha investiu contra mim como uma fera. Desisti... Certamente sua cria é uma menina.