sábado, 4 de abril de 2015

O Mustang e a Moça


      DIA desses, um evento aparentemente trivial, que há alguns anos passaria despercebido, me deixou encafifado, arrasado, mesmo, pela escolha inesperada que fiz entre duas opções. Mais tarde, refletindo sobre a minha escolha, me dei conta de que alguma coisa muito grave estava acontecendo.
Muito já se disse sobre a velhice, mas o que eu sabia sobre ela era de ouvir dizer, de informações esparsas colhidas involuntariamente, aqui e ali, com amigos, colegas e conhecidos.
Um desses amigos me disse que não é fácil envelhecer, que envelhecer é caco e que ele só aceitou que estava ficando velho quando o barbeiro lhe perguntou, pela primeira vez, se podia lhe cortar os pelos do nariz, depois de haver extirpado, sem lhe pedir, uns pelos longos e ridículos que tinham crescido em suas orelhas. O fato seguinte, o que confirmou suas suspeitas, foi o mesmo barbeiro, já devidamente autorizado, aparar suas sobrancelhas cujos pelos se espalhavam pela testa como os de uma velha e esgarçada escova de dente.
Depois disso, ele ficou mais atento aos indicadores de sua decadência física e descobriu vários outros sinais irrefutáveis de declínio que o perseguiam já havia um bom tempo: os cabelos estavam mais finos, esbranquiçados, rareavam de modo geral e particularmente no alto do cocuruto; a barriga crescia inexoravelmente, apesar de todo esforço para controlá-la; o fôlego diminuía; os pelos da canela haviam desertado e as próprias pernas tornaram-se humilhantes cambitos. Finalmente, compreendeu o porquê de os velhinhos – de camisa de tergal com riscas de giz, bermuda de gabardine bege, cinto de couro e sapatos sociais – esticarem as meias de seda sintética até quase a altura dos joelhos: as canelas de um homem em fase terminal são um desagradável atentado à Estética. A memória também já não era a mesma: entre outros esquecimentos, ele perguntava à mulher toda manhã se ela o havia visto tomar seus remédios para a pressão.
Apesar do grande número e da gravidade dos sintomas alinhados por esse meu amigo, eu me apegava à experiência que tive naquele dia e que, ainda agora, tenho escrúpulos em revelar, achando que, esse sim, foi um indicativo de plena, total e definitiva decadência.
Está bem, vamos aos fatos.
Naquele fatídico dia, como de hábito, o Platão – meu amigo canino – me levara para passear. Enquanto ele aspirava todos os odores das calçadas, eu, despreocupadamente, apreciava o movimento da rua. Foi então que notei a beldade que vinha como que flutuando em minha direção: cabelos castanho-claro, longos, lisos e falsos; topezinho rosa bebê, pelo menos dois números aquém do indicado; um par de seios generosos e igualmente falsos, cujos mamilos apontavam para lados opostos como se marcassem dez para as dez; um falso brilhante do tamanho de um caroço de azeitona encrustado no umbigo; um colante rosa shocking que, magnanimamente, revelava suas curvas e descia até pouco abaixo dos joelhos. Ao contrário das do velhinho de sapatos sociais e meias de seda sintética – aliás, marrons, enquanto os sapatos eram pretos – suas canelas estavam deliciosamente à mostra. Para comprovar a inadequação do traje da moça – quase um ultraje – ela calçava scarpins pretos e brilhantes. “Se ela é assim bonita, vindo, como será indo?” – pensei.
No sentido contrário, subia um novíssimo Mustang vermelho com capota preta de couro; suas rodas possuíam grossos aros cromados com detalhes em preto; na grade frontal, também preta, um cavalo prateado se destacava: jovem, forte, viril. As curvas do carro, sensuais, irrepreensíveis, perfeitas, atraíam os olhares de todos, principalmente dos homens – eu acho. Seus vidros verdes lembravam os olhos da moça ultrajada a rigor: com sua roupa de pirata e sua cara de pau.
Então se criou o impasse. Eu tinha poucos segundos para decidir. Minha curiosidade era imensa. Nesse instante, os dois – a moça e o carro – passaram por mim. Inexplicavelmente, fui levado, por alguma razão desconhecida, a tomar a decisão que denunciaria minha senilidade e me levaria à aceitação de meu estado de irreversível decadência. Pois é, entre a traseira do carro e o traseiro da moça... Escolhi me deleitar com a traseira do Mustang.
A velhice é um porre!