sexta-feira, 3 de abril de 2015

A Beleza Que Toca

Eu tentava compreender por que não aprecio os textos crus, com vocabulário limitado, faltos de metáforas, com poucas descrições de cenários, pobres de adjetivos... Mas não conseguia atinar com a razão.
Ontem estava vendo umas fotos da Catedral de Milão, Il Duomo, em Milão, na Itália e me dei conta da razão. A realidade é muito feia. Se observarmos a Natureza, sem o véu romântico que cobre os olhos dos ecologistas, percebemos que a vida é de uma violência extremada, de uma brutalidade inaudita. Os seres vivos devoram-se mutuamente com requintes inacreditáveis de crueldade. Não existe o bom selvagem preconizado por Rousseau.
Este final de semana tirei vários bernes do corpo da minha cadelinha, que fica no sítio. São larvas de varejeiras que usam a gordura e o sangue dos animais para se desenvolverem.  As larvas tinham cerca de dois centímetros de comprimento e mais de meio de diâmetro. Comiam minha cadelinha viva. Assim é a vida.
Basta observar a vida no campo para ter-se ideia do imenso banquete que constiui a Natureza, no qual somos comensais e alimento. Na Natureza, não há beleza desprovida, desacompanhada de dor. A paisagem mais bonita vela um universo de luta intensa, encarniçada, mortal. A Naureza é feia, a beleza, a emoção e a poesia estão em nós. Por esta razão, os pintores destorcem, fantasiam e reinterpretam a realidade. Os quadros mais belos e emocionantes não retratam a realidade tal qual ela é, mas a idealizam, a poetizam, a romantizam, lhe dão cores e texturas que ela não tem.
Daí eu acreditar que o escritor é um pintor que usa as palavras no lugar das tintas. Daí eu acreditar que não cabe ao escritor simplesmente “fotografar” a realidade em um texto. A realidade é dura, rasa, estéril demais. O Homem precisa de fantasia, precisa de poesia, precisa idealizar a realidade, tornando-a mais palatável, mais amena, mais suportável. O Homem precisa organizar o caos que é o Universo e inventar sua própria beleza.
Agora, voltemos à Catedral de Milão, Il Duomo. Acho que ela – essa maravilha gótica – é um exemplo da teimosia e da engenhosidade humanas em busca da beleza que emociona e que engrandece cada um de nós. Ela começou a ser construída em 1321 e foi terminada apenas em 1809.
Creio que apenas isso nos difere dos demais animais. O resto? O resto é vã filosofia.

Veja o linque: