/script> Gabriel Fernandes: Bombom Foi para o Céu

segunda-feira, 30 de março de 2015

Bombom Foi para o Céu


ELE já estava velhinho, às vésperas de completar dezoito anos. Impossível esquecer a primeira vez que o vi, trazido pelas mãos cuidadosas e excitadas de minha filha.
Os cães têm alguma coisa de especial: não consigo imaginar que acordo fizeram com Deus, se há um – um Deus, um acordo ou ambos –, pois constituem um espécie peculiar, sem semelhança no mundo animal. Algumas pessoas, talvez mais evoluídas, conseguem admitir que cachorro também é gente; ainda não cheguei lá, mas não ouso discordar veementemente.
 O Bombom chegou para mudar nossas vidas. Aquela coisinha macia, de pelos marrons e brancos, de feições de maroto, me conquistou instantaneamente. Eu não queria um cachorro; não queria as preocupações e o trabalho inerentes à adoção de um cãozinho; não queria me afeiçoar àquela criaturinha de olhar esperto, de espírito alegre, de atitudes gratuitas de carinho; mas ele acabou ficando e eu me apegando ternamente a ele.
Como um autêntico cão, ele possuía todas as espertezas possíveis: fingido, pidão, ladino, canastrão, dissimulado, carinhoso, brincalhão, comilão, insistente, temperamental, teimoso, alegre, sensível, perceptivo... Conseguia nos manipular a seu bel prazer. Era capaz de se comunicar sem o menor problema e tinha seus desejos atendidos quase instantânea e totalmente.
Bombom elegeu minha mulher como sua mascote preferida. Sabia que dela vinham os maiores cuidados, a atenção cotidiana, os passeios regulamentares. Dela recebia escasso carinho, mas os bons tratos pareciam compensar plenamente outra forma de demonstração explícita de afeto. Ele sabia que ela também o amava.
Certa vez, gripada, ela convalesceu dois dias na cama. Bombom parecia doente também. Permaneceu todo o tempo ao seu lado, quieto, triste, abatido, solidário. Não procurou comida, como de hábito fazia, nem me provocou para uma das brincadeiras costumeiras qualquer. Parecia de fato doente.
A casa também ficou triste. Era como se a vida tivesse se tornado lenta, desbotada, monótona, desenxabida. Ele não me procurou nenhuma vez sequer; não trouxe um de seus brinquedos para que eu o arremessasse, nem surrupiou nenhuma meia para me provocar. A casa parecia um deserto.
Sua cura veio repentinamente, assim que minha mulher superou a gripe e deixou a cama. A alegria estava de volta na forma de um monte de pelos que se movia festivamente pela casa.
Infelizmente para nós, os cães vivem muito pouco. Os menores são mais longevos, como um Cocker Spaniel como o Bombom. Convivendo com os humanos, além de adquirirem muito de nossos hábitos e esquisitices, parece que ficam também predispostos às mesmas doenças.
Bombom estava velhinho. Foi duro assistir, impotente, à sua decadência física. Doía vê-lo definhar tão rapidamente. Incomodava-o a artrite degenerativa, os tumores que enfeavam sua pele, a crônica deficiência renal, a catarata que velava seus olhos. Apesar de cego, ele se movimentava pela casa com inacreditável destreza, embora esporadicamente cabeceasse móveis, portas e paredes. Às vezes procurava carinho, mas parecia desprezar as dores que certamente o atormentavam. Bombom era valente, um estoico. Ele parecia encarar seu fim com naturalidade. Para ele parecia fácil despedir-se da vida sem remorsos, sem frustrações, sem arrependimentos. Ele tinha vivido plenamente. A vida para ele tinha sido um alegre e divertido passeio. No acordo que selou com Deus, certamente uma cláusula rezava que sua única obrigação era fazer felizes os humanos à sua volta. Outra, dizia que ele tinha o direito irrevogável de ser amado.
O veterinário não compreendia como ele ainda podia andar, pois suas articulações deveriam provocar dores lancinantes a cada movimento. Difícil compreender a profundidade e a extensão da filosofia de um cão. Silenciosamente, ele ensinava a gente como se posicionar com dignidade diante da inexorabilidade da morte.
Em seus últimos dias, Bombom se movia com muita dificuldade. Limitava-se a ficar em sua cama e pouco comia. Para nós que o amávamos, aquela lenta agonia era um martírio. Às vezes eu me escondia no banheiro para chorar, antecipando aquele inevitável e doloroso adeus.
Ontem ele acordou mais tarde do que o normal. Estranhei que ele não fosse ao meu quarto me acordar. Levantei e fui à sala onde ficava a sua caminha. Ele respirava pesadamente.
Enquanto eu preparava sua comida, ele foi ao quarto onde estava minha mulher. Ela lhe fez um carinho na cabeça. Seus olhos cegos pareceram perscrutar profundamente os olhos de minha mulher. Depois virou-se e foi em direção à cozinha. Enquanto eu vinha com a ração, pude vê-lo cambalear no corredor como um bêbado, bater algumas vezes nas paredes, parar à minha frente por alguns instantes, tempo suficiente para que eu o abraçasse e dissesse:
– Que há com você, meu velho?
Ele apenas me mostrou seus olhos sem vida num último e mudo adeus. Bombom já não podia mais alegrar nossas vidas: Bombom foi para o céu.