segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A Espécie Dominante


Era um sábado ou um domingo chuvoso desses em que a gente alterna entre a leitura de um bom livro e o desperdício de algum tempo em frente a um televisor. Enquanto eu zapeava, martelando maniacamente o controle remoto, me veio a ideia de que se algum ET aterrissasse por estas bandas e, por acaso, sintonizasse os canais de televisão brasileiros ficaria convencido de que a espécie que mais abunda, a que domina o planeta, é a bunda. Impressionante! Era bunda por todo quanto era lado. Bunda de todo quanto era jeito, tipo, modelo, ano de fabricação, textura, cor, procedência, compleição,... Sei lá! Uma loucura!
Também não sei por que me ocorreu a lembrança de um incidente que presenciei há muitos anos numa padaria que ficava em uma das esquinas da Rua Loefgreen com a Domingos de Morais. Era a padaria Sagres, recém-inaugurada (talvez já nem exista mais), uma padaria metida a besta, um comerciozinho de bairro de classe média com aspiração a boulangerie, a grã-butique de pães e doces, mas que não fugia muito do prosaísmo das velhas e acolhedoras padarias.
Meu cunhado aguardava junto ao balcão para pagar a compra que havia feito. Meu sobrinho, de cerca de três anos, estava em seu colo. Ao lado do caixa, exibia-se um provolone gigantesco - diria que de quase dois metros de altura e com uns oitenta centímetros de perímetro - que se estendia de um gancho preso a uma barra horizontal próxima ao teto até quase o chão. Meu cunhado estava distraído. Eu namorava um pão doce de creme ou de ricota, sei lá, e não me dei conta do que acontecia até que ouvi o Nardo, meu cunhado, mandar o dono da padaria à puta que o pariu, enfiar o provolone não sei onde (o que seria quase impossível, eu acho), e outras delicadezas.
– Quanto é essa merda? Pode cobrar que eu pago! – o Nardo gritava.
Foi um escândalo. Todos na padaria olhavam para nós. Eu até esqueci o pão doce.
– Pode cobrar, cazzo, eu tenho dinheiro pra pagar essa merda!  – e quase esfregava um enorme maço de dinheiro na cara do português.
Se o dono da padaria concordasse em cobrar o provolone, o Nardo ia ter de alugar uma caminhonete para levar o queijo para casa e arrumar mais dois ou três marmanjos para ajudá-lo a carregar o danado.
O português queria sumir atrás do balcão, mas o italiano do meu cunhado não parava de esbravejar:
– Mi cago se não enfiar esse provolone no seu rabo, porco cane! – ele estava realmente bravo.
– O Nardinho... O Nardinho deu uma mordida nessa merda de provolone e esse bosta ´tá me enchendo o saco por isso! - ele tentava me explicar aos gritos.
Era realmente um baita provolone, um daqueles amarrados com uma rede bem espaçada, de cordões grossos e oleosos. No chão, logo abaixo do enorme queijo, a gordura que escorria do provolone havia formado uma bela poça brilhante. As extremidades arredondadas do provolone, contidas pela rede, assemelhava-se a uma bunda engordurada dentro de um fio dental. Daí a lembrança, claro!
Voltando ao ET, eu também quase me sinto um alienígena. Acho que os homens da minha geração não conseguem se adaptar à rapidez das mudanças.
Nos países muçulmanos, o islã aboliu as mulheres. Para os islamitas ortodoxos as mulheres simplesmente não existem. Eles as camuflam sob trajes ultrajantes, cobrem seus cabelos com panos e ocultam seus rostos sob burcas e véus numa atitude misógina inaceitável. Se elas demonstram alguma resistência (ou mesmo se não demonstram) são apedrejadas até a morte.
Por aqui, aos poucos, também estão eliminando as mulheres. O método brasileiro é muito menos drástico, embora o efeito seja tão devastador quanto nos países muçulmanos. As mulheres estão sendo transformadas em bundas.
Se perguntar para qualquer gaiato o que ele olha primeiro numa mulher certamente o cretino dirá que é a bunda. E elas se esforçam para ser bunda. Bundas de academia construídas com o martírio de horas e horas de treino para pernas e glúteo. Bundas de silicone, obtidas em clínicas tocadas por médicos inescrupulosos. Bundas geneticamente avantajadas, o que não é raridade por estas plagas. Quanto maior a bunda, melhor, é o que parece. Coitado do ET! Agora sou eu quem corre o risco de ser apedrejado.
O que olho primeiro numa mulher? Depende. Se ela está indo, os cabelos. Gosto de imaginar como seria o rosto, embora hoje a coisa tenha ficado muito mais difícil. Certo? Se ela esta vindo, a boca. Acho que a boca diz quase tudo sobre uma mulher. Mas o que mais prezo na mulher, antes da beleza, é a inteligência. Mulher burra dói.
Uma boca de lábios finos, corte horizontal, em geral caracteriza uma mulher determinada, fria, egoísta, auto-suficiente. O tipo de mulher que olha o homem de cima, com certo menoscabo, um mero coadjuvante, um mal necessário.
As mulheres nipônicas. Ah, as mulheres nipônicas! Seus lábios são indefiníveis. A boca tem traços sutis, fugidios, etéreos como os olhos. Sabemos que nos convida para viagens oníricas, imprevisíveis, imponderáveis. São quase lábios virtuais como rotas aéreas ou marítimas que nos atraem para aventuras inimagináveis.
E o que dizer da boca das mulheres negras? Seus lábios são como metades de um pêssego carnudo, sensuais, lascivos, quase obscenos. Os dentes são como fieiras de pérolas que mastigam nossos devaneios, devoram nossas fantasias. Ufa!
E as bocas de densos lábios rubros? Existem as em arco descendente que transmitem a impressão de rigor, de zanga, de mau-humor, de intransigência, de intolerância. E as belas bocas em arco ascendente, como num eterno sorriso, que emprestam às mulheres um ar jovial, maroto, sapeca, sensual,... Sardônico. Júlia Roberts, Angelina Jolie e muitas outras mulheres deformaram seus rostos na vã esperança de conseguirem lábios como esses. Inútil.
Vi no Google Mapas que a padaria ainda existe. O provolone com duas bundas certamente desapareceu há décadas. O que também parece ter desaparecido são o bom gosto, o senso, o pejo, a discrição, a sensibilidade, a feminilidade, o amor próprio de muitas mulheres. Lamentável.

Se nosso ET aterrissasse seu disco voador em um país muçulmano, logicamente pensaria que os homens constituem famílias com camelas e dromedárias. Por aqui, ficaria espantado por acreditar que a evolução natural levou à existência de seres de aparência tão estranha: dois lóbulos gêmeos, convexos, constituídos de músculos e gordura, bipartidos em dois hemisférios, com um dispositivo camuflado de excreção por onde sai aquilo que a maioria dos homens têm na cabeça.