/script> Gabriel Fernandes: A Filosofia da Caca

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

A Filosofia da Caca

Há pouco saí com meu amigo Platão para que ele realizasse suas excreções (palavra atualmente na moda) matinais regulamentares.
Apesar da monótona repetição, algumas coisas ainda me surpreendem nessas ocasiões de passeios antropocaninos. Nas segundas-feiras, chama minha atenção a quantidade de dejetos nas calçadas e de saquinhos de supermercado recheados de cocô depositados educadamente entre os galhos das sebes e aos pés das árvores.
Durante a semana, a maioria dos cães é passeada pelas empregadas domésticas ou pelos motoristas particulares, a quem os patrões recomendam recolher a caca. Nos finais de semana, quem passeia a cachorrada são os patrões (que saco!) e os empregados não estão presentes nesses dias para recomendarem aos patrões que recolham a sujeira. Então, é uma meleca só.
Porém, nesta segundona, duas coisas me chamaram mesmo a atenção. Primeiro, a moça que vinha andando desatenta, falando no celular em voz alta — o que me obrigou, involuntariamente, a ouvir parte da conversa, mesmo estando a cerca de quarenta metros dela, do outro lado da rua — pedir para a Isabel, do outro lado da linha, confirmar se estava realmente fazendo no banheiro o que a bicharada faz na rua.
Não tive tempo de assimilar meu espanto, quando, também sem querer, captei  a segunda coisa: Parte do diálogo entre duas moças — de boa aparência, bem vestidas, com a chapinha obrigatória em dia, que certamente trabalham em algum dos escritórios da redondeza — que passaram por mim conversando descontraidamente e em alto e bom som.
— Estou preocupada. Preciso conseguir licença do meu chefe para refazer meu cadastro no Bolsa Família, senão vou perder o benefício  nem quis ouvir o resto, isto já me bastou.
Fiquei perplexo. Olhei para o Platão para ver se ele compartilhava minha indignação. Indiferente, num ato que seria ecologicamente aprovado, ele regava um pé de malvavisco castigado pela seca inclemente.
— Platão, meu querido ­­— eu lhe disse em voz baixa para não ser tomado por um desses caras mal-educados que vociferam no celular em plena rua, incomodando os transeuntes, compartilhando assuntos que deveriam ser tratados apenas na intimidade:
— Algumas pessoas o recriminam por sujar de caca as calçadas, mas não se dão conta de que o governo, com essas políticas assistencialistas, suja o brio das pessoas, emporcalha seu amor-próprio, caga (desculpe-me) em suas almas.
Platão, o filósofo cínico
Sabiamente, o Platão levantou a cabeça, olhou fixamente em meus olhos por alguns segundos... E voltou urinar. (você não esperava que ele dissesse alguma coisa, certo? Ele ainda não chegou a esse ponto).
Mas, pude perceber em seu olhar que ele nos considera um caso perdido.