domingo, 28 de setembro de 2014

Una Dolce Vita

Meu bebé de baunilha
Não sei se é a idade que brinca com a capacidade de raciocínio, de discernimento, da gente, que encurta nossa paciência, que estreita nosso limite de tolerância.
Minha mulher diz que só vejo o lado ruim das coisas, minha filha que sou muito ranzinza (assim mesmo, com dois zês de zangado), meu filho anda muito ocupado para perder tempo dizendo alguma coisa. Se meus amigos dizem alguma coisa é pelas minhas costas, pois se dissessem na minha cara eu iria ficar muito bravo e fazer alguma coisa.
Acontece que ocorrem algumas mudanças de hábitos, de comportamentos e de valores que na minha concepção são realmente desnecessárias e intoleráveis. Eu poderia listar uma infinidade delas, mas vou ficar apenas numa: estrangeirizaram nossos doces. Vou explicar.
Quando garoto, eu ficava quase o dia inteiro jogando bola na rua, uma Pelé de plástico, do tamanho de uma bola de capotão número 5, que furava no primeiro chute e ficava menor do que uma bola de futebol de salão, das antigas.
Naquela época, de tempos em tempos alguém cruzava a rua vendendo alguma tentação doce; era como uma brisa fresca de verão que tem a virtude de aliviar um pouco a canícula, embora as frescas brisas de verão sejam sempre prenúncio de chuva forte.
Era o homem da machadinha com seu tabuleiro de madeira, sua cabeça parcialmente escondida por um bibico branco com debrum azul e sua flauta de Pan de plástico azul, da qual escapava uma melodia rápida e aguda característica, muito parecida com a do amolador de facas. Este empurrava uma espécie de cavalete com uma grande roda de madeira, como a de uma carroça, e um grande pedal que compunham um mecanismo capaz de fazer girar uma roldana excêntrica e um mancal com um rebolo de esmeril. Às vezes a gente confundia os dois ambulantes. Era uma decepção. Nos dias de acerto, a pelada parava instantaneamente. Todos corriam para casa:
– Mãe! O homem da machadinha... A senhora me dá um cruzeiro?
Com algumas hábeis machadadas ele produzia generosas fatias rosas-brancas e as servia à molecada. Era quase como um Natal extemporâneo, um regalo para nós, imediato, e a posteriori, para os dentistas, que enchiam nossas cáries de amálgama e esvaziam os bolsos de nossos pais. Mas a gente comia sem culpa.
Depois voltávamos ao jogo. O campo na rua de terra, as traves de pedaços de tijolos ou latas de óleo, os adversários descalços como nós todos, sem camisa, sem pressa, sem preocupações. O jogo corria solto até a próxima interrupção.
Acho que os doceiros celebravam uma espécie de pacto. Não havia sobreposição de vendedores nem concorrência direta. E olhe que havia muito deles.
As brincadeiras eram interrompidas uma, duas, três vezes por dia. No calor da disputa, quando o Silas jurava quebrar a perna do Jiba, lá vinha o homem do biju, batendo sua matraca:
– Olha o biju! – plá, plá, plá.
Era o armistício. A correria se repetia. Incomodavam-se as mães, as tias ou as avós; comia-se biju e cobria-se a rua de migalhas. Uma alegria!
Então vinha o homem do pirulito de açúcar queimado em forma de guarda-chuva, seu tabuleiro todo furado. O guarda-chuva amolecia na boca e se encompridava todo, ficava longo como nossos dias de então. Uma delícia!
O homem do quebra-queixo raramente acompanhava o da machadinha. Quando isso acontecia, assomava-se uma dúvida atroz: e agora, machadinha ou quebra-queixo? Este feito de coco e açúcar, muito açúcar, cortado com uma espátula pelo quebra-queixeiro. Uma maravilha!
– Moço, eu quero um pedaço de quebra-queixo! – e pedia-se para o machadeiro um teco de machadinha para experimentar. O dinheiro só dava para um doce e não dava, é claro, para ficar só num deles.
Vendia-se de tudo na rua: as gelatinas vinham num carrinho empurrado pelo gelatineiro: vermelhas, laranjas, pálidas, tenras, macias, geladas. Tinha o carrinho de pipoca doce e salgada, ambas cheirosas, saltitantes. Tinha o de algodão doce, feito na hora. O algodão-doceiro parava seu carrinho, despejava álcool na sua espiriteira (digamos assim) e ponhava fogo, como ele mesmo dizia. A fila crescia à proporção que o cheiro delicioso de açúcar queimado se espalhava pela rua. As meninas surgiam do nada, com suas bonecas de cabeça de louça e corpo de pano, seus vestidos franzidos, seus rabos de cavalo e sua beleza infantil. O homem pedalava sem pressa e a espiriteira girava apressadamente. Ele parecia sentir um delicado prazer, e certo orgulho, de sua modesta profissão. Mágica e lentamente, uma nuvem alva e perfumada se formava no interior do carrinho. A ansiedade crescia na criançada e as bocas salivavam, choviam copiosamente, antecipando o prazer do doce algodão. Viva as cáries!
Nos dias mais quentes do verão, la vinha o homem da raspadinha com seu veículo. Uma pedra de gelo industrial (depois proibido por conter produtos nocivos à saúde) e uma espécie de plaina manual que servia para raspar o gelo. Penduradas no teto, de cabeça para baixo, garrafas coloridas de xarope artificial de groselha, de morango e de abacaxi perigavam desabar a qualquer momento. Très chique!
Surgia na esquina o vendedor de amendoins torrados salgados, doces e caramelizados. Materializava-se o vulto cambaleante do mulato meio manco, sem idade, que vendia goiabada, marmelada, e bananada em cones e copinhos comestíveis de sorvete. Um caiçara passava vendendo bananinhas artificiais amarelas como bagas de sol. Ele jurava que as trazia de São Vicente, mas a mentira parecia desenhar em seu rosto um largo sorriso falso de banana nanica.
Por outro lado, havia também o comércio regular. A vendinha do seu Afonso, por coincidência na rua quase homônima, Afonso Celso, na Vila Mariana, expunha as paçoquinhas Amor, os Dadinho, os Dan-Top, os pés-de-moleque, os doces de leite, as marias-moles, os conezinhos de doce de leite, as paçocas duras, os doces de batata, brancos e roxos (ruins à beça, por sinal), as cocadas brancas e as pretas (ou devo dizer afro-descendentes?), bananinhas secas (uma delícia), as balas Juquinha, o Drops Dulcora, os pirulitos em forma de chupeta vermelha... Meus Deus, quanta caloria!
Minha cidade mudou muito. Outro dia fui fazer uma boquinha no SESC Vila Mariana, antes do ensaio da minha banda, como faço toda quarta-feira (informação inútil, esta, não?). Antes de fazer o pedido, dei uma olhadinha na vitrine do balcão para fazer um inventário dos doces. Encontrei um que não via havia muito tempo: bebezinhos ou bebés. Tinha de baunilha e de chocolate, como antigamente.
– Eu queria um café e um bebé, por favor! – pedi à moça do caixa.
A moça me olhou com cara de interrogação. Pareceu que eu tinha descido dum disco voador e babava sobre a caixa registradora.
– O senhor quer o quê?
– Um bebé! – insisti.
– Nós não temos isso aqui! – ela me olhou como olharia para um homenzinho verde de pernas tortas, cabeça enorme, olhos redondos como pires e orelhas longas e pontiagudas como espadas-de-são-jorge.
– Como não? E aqueles bolinhos na vitrine dentro de uma forminha enrugada de papel?
– O senhor quer um “mâfim”?
– “Mâfim”? Que cazzo! Agora estão chamando meu bebé de “mâfim”!
Comi um maledeto. Juro por Deus que tinha gosto de bebé.
A partir daquela noite comecei a observar melhor o processo de transformações linguo-docísticas por que passaram nossos doces.
A conduta subserviente, a autodepreciação, o desprezo pela própria cultura da maioria de meus compatriotas passou por todos os setores da nossa vida e atingiu, finalmente, os limites sagrados de nossas cozinhas. Acho que atualmente os gringos cozinham lentamente (mijotent, como dizem os franceses) os cérebros de meus compatriotas em panelas de pressão Barazzoni, lindas, inoxidáveis... italianas.
Nossas cidades foram descaracterizadas, tornaram-se imitações grotescas de construções megalomaníacas norte-americanos, insípidas, antiestéticas, monótonas, de mau gosto. Nossa música desapareceu da mídia (neologismo ridiculamente criado sobre a pronúncia dos gringos para a palavra “media” – plural de “medium”). Sabiamente eles surrupiaram, ambas, diretamente do Latim, mas não foram capazes de pronunciá-las corretamente.
Hoje só se ouve répi, sou, blus, róqui, técnu, fânqui, díscou, pópi etc. Eu me penitencio por gostar de jazz, mas aí é outra história. Adoro bossa nova, choro e música clássica, exceto a dita contemporânea (isto também é informação desnecessária).
Voltemos aos doces. Minha mulher garante que sou rabugento, porque diz que fez um “xisqueique” e eu digo que está uma delícia sua torta de queijo. Sua quiche eu chamo de tortinha e ela se desespera.
Não consigo mais comer na minha própria língua. Se peço uma torta de maçã, o cretino do doceiro me corrige:
­­– O senhor quer dizer uma “époupai”?
Pode ser. Mas que tem gosto de torta de maçã, tem.
Depois minha família não quer que eu seja assim. Parece que só eu percebo essas barbaridades. Estão tentando apagar minhas memórias, “deletar” (outro empréstimo absurdo) nossa cultura herdada, nossas tradições euro-afro-brasileiras. E os pacóvios do Houaiss e do Aurélio (mesmo depois de mortos) apressam-se a incorporar essas obscenidades aos dicionários da Língua Portuguesa (assim mesmo, com maiúsculas, como deveríamos tratá-la).
Gelatina virou “jell-o” e os imbecis rebatizaram geléia de “jéli”. Cobertura virou “tópim”; pudim agora se escreve “pudding”, bolo se diz “quêiqui”, torta é “pai” (e pai o que é?), biscoito folhado se diz “ueifer”, bolo de aniversário pronuncia-se “leiar quêique”, pedaço de bolo fino de chocolate quadrado devo chamar de “brâuni”. Bolacha metamorfoseou-se em “cúqui”. Não tenho razão de ser ranzinza (com dois zês), radical e chato?
Tudo bem. Parece que a maioria dos brasileiros coloca alegremente a coleira de vira-lata (como diria o Nelson Rodrigues) e ingere inconscientemente todo essa gororoba estrangeira.
Imagine se resolvessem rebatizar os doces da minha infância: machadinha seria little hatchet; quebra-queixo, break-chin; algodão doce, sweet cotton. Bom, pipoca já virou pop-corn; maria mole seria soft-mary; pés de moleque, black-boy-feet. Uma Babel!
Minha mulher, minha filha, meu filho e meus amigos, como sempre, têm razão, acho que estou ficando gagá. Até o vendedor de ternos do “xópim” Paulista tem razão:
– O senhor é muito jovem para ser tão impermeável a mudanças. – ele me disse, coberto de razão também, quando me neguei a provar um terno de microfibra com três botões. Eu queria um de dois e de casimira.
– Este é um terno moderno, leve, macio, adequado para o verão.
“Sei, – pensei – com a vantagem de já vir irreversível e irremediavelmente amarrotado e ter um caimento horrível”. Aliás, não tinha caimento, tinha queda, e daquelas inapeláveis em que se esborracha de fuça no chão sem se conseguir apoiar nas mãos ou nos cotovelos. Uma droga! Além do mais, ele errou de estação, eu já vivo meu outono. “Agora, impermeável é a puta que o pariu!” – eu deveria ter dito a ele. Além do mais eu queria um terno, não uma capa de chuva.
Não sei se o que fazem agradáveis as lembranças daqueles dias são de fato os sabores dos doces ou se é a saudade da infância distante, sem preocupações dietéticas, odontológicas, linguísticas, estéticas ou culinárias. Nada fazia mal; nada aumentava o peso, as medidas ou colesterol; nada provocava diabetes. Comia-se sem culpa, com gula, com volúpia. Lambuzava-se a cara na meleca (no bom sentido) dum algodão doce. O quebra-queixo e a machadinha grudavam nos dentes, mas o prazer grudava ainda mais firme e indelevelmente na alma. Aquela era de fato una dolce vita.