/script> Gabriel Fernandes: Santa Ingenuidade, Batman!

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Santa Ingenuidade, Batman!





Um amigo me diz que sou o cara mais reacionário que ele conhece. Então, fui consultar o dicionário para ver se ele tinha razão.


Segundo o Caldas Aulete, não sou um reaça, pois não sou contra quaisquer mudanças, só reajo àquelas que atentem contra as liberdades individuais. Também não sou antidemocrático, embora democracia não signifique o que pensa a maioria das pessoas, coisa que explico ao longo deste texto. Contudo, se mesmo assim ele continuar a me classificar no escaninho dos reacionários, vou passar a tomar isso como elogio.
A propaganda governamental nos quer fazer crer que o ato de votar é a coisa mais importante de nossas vidas, que é a maior manifestação possível de cidadania, como se eleição tivesse toda essa importância - como se votar tivesse alguma importância -, como se fosse fator determinante na caracterização de uma sociedade como um Rechtsstaat, um Estado baseado no direito, na Justiça e na integridade moral.
Os políticos, astutamente, tentam nos convencer - e infelizmente a maior parte das pessoas acredita nisso – de que a democracia é um bem a ser conquistado, meta a ser atingida ou um fim em si mesmo, e que as eleições constituem o único meio para realização desse intento.
Na verdade, a democracia é apenas um meio para se alcançar algum objetivo, que pode ser a constituição de uma sociedade livre ou a instituição de um regime autoritário. A escolha pelo voto universal significa muito pouco ou quase nada. Adolf Hitler chegou ao poder, como chanceler, pelas mãos de Paul von Hindenburg, este democraticamente eleito pelo voto popular para o cargo de Presidente da Alemanha. Há anos são realizadas eleições na Síria e em Cuba,  e nem por isso esses países podem ser considerados democracias. Durante o Regime Militar, no Brasil, também havia eleições regulares, mas, apesar disso, se fazem tantas restrições e críticas aos homens de farda.
O conceito de democracia é muito difuso e acaba sendo relacionado apenas ao fato de haver manifestação da população através do voto, para o bem ou para o mal.
Nossa preocupação primeira, cardinal, deveria ser com a construção de uma sociedade liberal que tenha como alicerce as liberdades política e econômica, o respeito aos direitos  individuais, o direito pleno à propriedade, o estado de direito, e a mínima participação do Estado nos assuntos econômicos da nação; todo o resto, todo desvio dessas metas conduz à subordinação do cidadão ao Estado, à tirania, ao totalitarismo.
A falta de perspectiva histórica leva as pessoas a abraçarem crenças políticas totalmente descoladas de aspectos racionais, lógicos, práticos; atribuem ao Capitalismo a responsabilidade por todos os males que assolam a humanidade, sem se darem conta da situação de miséria extrema que passou a prevalecer na Europa, por mais de mil anos, com o advento da filosofia cristã após a dissolução do Império Romano. A miséria, em última análise, é provocada pela falta de Capitalismo ou pela distorção de suas características.
O mundo começou a mudar para melhor com o Renascimento, avançou com o Mercantilismo e atingiu seu ápice de crescimento com o advento da Revolução Industrial, que ocorreu em um ambiente de liberdade, a que se chamou de Liberalismo Econômico: vigia o estado de direito; predominava a livre iniciativa; as leis de mercado operavam livremente; havia liberdade de escolha e pouca ingerência governamental.
O Liberalismo, regime iniciado a partir do século XVII na Europa, deu partida a um período de crescimento econômico jamais observado; levou a avanços inimagináveis no padrão de conforto da população; produziu aumento impensável da expectativa de vida; permitiu ganhos sem precedentes nas condições de saneamento e saúde.  e reduziu drasticamente o analfabetismo, entre outras mudanças. Em pouco tempo, milhões de pessoas saíram do inferno da Idade Média.
Os dados referentes à evolução da população europeia nos últimos vinte séculos corroboram o que foi dito acima. No primeiro século de nossa era, o número de habitantes da Europa era de cerca de 30 milhões; em 1700 atingiu 120 milhões, o que equivale a uma taxa de crescimento de 0,08% ao ano. Nos trezentos anos seguintes, a população chegou a 780 milhões, o que representa uma taxa de crescimento média anual de 0,63%, ou seja, 800% maior do que a registrada no período anterior.
As novas gerações, que desconheciam o sofrimento suportado pelos seus ascendentes, passaram a considerar que as melhorias no padrão de vida avançavam em ritmo muito lento e a acreditar que alguma coisa deveria ser feita para acelerar esse processo. Começaram a exigir maior rapidez nas mudanças, pressa no resgaste das populações que ainda viviam em padrões medievais; situação da qual teriam sido retiradas naturalmente com o amadurecimento do Capitalismo. Dispuseram-se a abrir mão da liberdade, entregando-a ao Estado, acreditando que este, pela força, poderia impor avanços mais rápidos e profundos do que os proporcionados pelas leis de mercado. Como consequência, outorgou-se mais poder aos governantes, em detrimento da liberdade individual, da liberdade de escolha. O Estado passou a interferir no mecanismo de mercado, impondo restrições de toda ordem, limitando o campo de atuação dos indivíduos.
O poder do Estado cresceu gradativamente, provocando a redução do ritmo de crescimento da economia já no início do Século XX. O processo de fortalecimento dos Estados constituiu um dos fatores que possibilitaram a deflagração das duas guerras mundiais e a instalação de regimes totalitários na Europa e Eurásia.
Em vez de liberdade de escolha, oportunidades iguais, direitos iguais, garantias individuais, respeito às diferenças, respeito à propriedade, estado de direito, as populações escolheram a igualdade material, o paternalismo, o Estado provedor, o Estado assistencialista, o Estado previdenciário. O fortalecimento do Estado fez encolher os direitos individuais, reduziu as vantagens de um funcionamento pleno do mercado e introduziu incertezas no sistema econômico, reduzindo sua eficiência.
A miséria que se vê hoje não se compara com a existente nos mais de mil anos da Idade Média. O Capitalismo resgatou bilhões de pessoas desse inferno, até ser contido pelos regimes autoritários: fascismo na Itália, Portugal, Espanha, Grécia.. Nazismo na Áustria, Alemanha, Prússia... Comunismo na Rússia e seus satélites. E por sistemas híbridos, dos quais o nosso é um exemplo.
As pessoas foram convencidas de que Democracia significa assistência social, de que é um regime onde uma parte da sociedade só tem Direitos, e a outra só tem obrigações; em que uma parte da população deve trabalhar para manter a outra que não trabalha, ou que não produz o suficiente para se manter com dignidade. Desvalorizou-se a educação, depreciou-se o valor do trabalho e do esforço, aboliu-se a meritocracia, inverteu-se a seleção natural; criou-se, como se diz, uma sociedade vira-lata, uma nação de esmoleres dominada pela ideologia do miserismo, o culto à miséria.
Hoje lamentamos e nos indignamos com os defeitos da sociedade em que vivemos, resultante das escolhas equivocadas feitas por nossos antepassados, as quais repetimos e ampliamos na tentativa ilógica de reforçar suas piores características. Cada vez mais, e desgraçadamente, nos afastamos do mundo possível, de um mundo muito melhor, do mundo que poderíamos ter tido  se nossas escolhas tivessem sido outras.
Está tudo errado, e o tempo vai provar. Seremos cada vez mais pobres à medida que esse espírito socialista penetra o âmago da sociedade.
Santa ingenuidade, Batman!