/script> Gabriel Fernandes: O Que É Eternidade

sábado, 6 de setembro de 2014

O Que É Eternidade


Na maioria das vezes a gente se engana no que se refere ao nosso conhecimento sobre o espaço exterior. Nunca se tem tempo para o céu. De dia, o sol nos cega: e o céu é apenas uma cúpula azul que nos oprime. À noite, acendemos as cidades: suas luzes também nos cegam como o sol, porém, nos sentimos pusilanimemente confortáveis com nossa cegueira. Melhor voltar nossos olhos para o abismo, para a escuridão indevassável de nossos umbigos. É mais seguro, menos inquietante.
Quantas estrelas podem ser vistas numa noite transparente de outono? Cem milhões? Dez bilhões? 
Se você respondeu cerca de duas mil, acertou. Da superfície de nosso pequeno planeta, pouco se vê do espaço exterior, pouco sabemos, quase nada nos interessa. Telescópios estacionários, orbitais, peregrinos, apontam seus olhos tecnológicos para as profundezas do cosmos perscrutando seus mistérios, enquanto mergulhamos cada vez mais fundo nos labirintos de nossos umbigos, cavoucando consolo, conforto ou respostas piedosas para nossas angústias.
Não convivemos bem com nossa temporalidade, nossa eventualidade, nossa finitude, então tentamos simplificar nossa existência. Apelamos para fantasias, crendices, milagres, certezas irrefletidas, nos afastando voluntariamente da penosa realidade. Acreditamos encontrar a eternidade nas religiões, nas seitas, nos cultos e rituais que oferecem a esperança pueril de uma vida futura, em outra dimensão, de plena beatitude: como se felicidade fosse um bem absoluto. Perdemos contato com a realidade, deixamos de olhar para o céu e com isso passamos a ignorar a dimensão de nossa insignificância cósmica.
Afinal, o que é a eternidade? Afinal, para que a eternidade?
Noite dessas, fui visitar um amigo que teve o privilégio de comemorar o nascimento do primeiro neto. No hospital, encontrei a mãe do bebê ainda atordoada, em órbita (para não me afastar do tema), sentindo dores, mas com a alegria da maternidade estampada no rosto. O pai, transido, orbitando o bebê, parecia levitar. Seu rosto estava congelado num sorriso abobado de bonomia sem fim. Meu amigo parecia possuído. A avonice, avonitude, avonidade (sei lá!) faz isso com a gente, assim como a paternidade muda completamente o homem, pelo menos o de caráter, o são, o não psicopata.
Então me dei conta do que é a eternidade. Os olhos do menino que acabou de nascer contemplarão este mundo muito depois de a luz dos olhos de seu pai e de seu avô terem se apagado. Esta é a realidade, assim determina a nossa natureza. Os olhos de nossos filhos e netos são nossos olhos no futuro. Nisso consiste a eternidade. E isso me basta.
Quando me despedi de meus amigos, me emocionei profundamente, partilhando sua felicidade. Percebi que o pai tinha os olhos marejados de esperança e o avô, os olhos brilhantes de futuro.