segunda-feira, 29 de setembro de 2014

O Planetário

O sol parecia derreter na transparência azul do céu como que a convidar para um passeio na lentidão morna daquele fim de tarde. Distraidamente, recolhi da aridez da calçada rota uma folha descolorida, desprezada por uma pitangueira que enfeitava o exíguo jardim confinado entre o luxo deslocado de um prédio de classe média e a fria grade de ferro carcomida pela voracidade atroz do tempo. Olhava a palidez mortiça da pequena folha, de bordas irregulares, de nervuras rompidas...
 Tentei me recordar do tempo em que os animais, plantas e objetos falavam como nas fábulas e contos de fadas. Queria conhecer sua história, saber da avidez dos pássaros a consumirem os frutos tenros da árvore, da chuva benigna, do sol tão desejado, do vento que a retirou do galho, flexível e frágil, e a lançou na aspereza rude do concreto. Entretanto, meus ouvidos não podiam mais ouvir suas histórias, como eram capazes de fazer nos dias de todas as alegrias, de todas as possibilidades da minha primeira infância.
Parece que o tempo nos tira a capacidade de nos admirarmos com as coisas mais simples, nos priva da imaginação, nos afasta da fantasia, nos embrutece. Invejo meus netinhos, sua crença pueril em fadas, bruxas e dragões, sua capacidade de conversar com os bichos, com um objeto inanimado qualquer ou com uma folhinha caída de uma fértil pitangueira.
Caminhei até o parque, o mesmo parque onde fazia piqueniques memoráveis com minha família nos primeiros anos após sua inauguração. Lembrei-me das mesas amplas espalhadas sobre o verde dos gramados, dos longos bancos de pranchas de madeira colocados longitudinalmente às mesas, a grande toalha xadrez, a intrincada cesta de vime, a diafaneidade da jarra de vidro repleta de suco colorido. Lembrei-me da lassidão daquelas tardes infindas, o mundo se abrindo aos meus olhos como um caleidoscópio gigantesco, um cenário multicolorido de teatro a me oferecer um infinito de dias, uma amplíssima latitude de tempo.
Meus passos preguiçosos percorriam as amplas alamedas. Detive-me a admirar a altivez anosa dos eucaliptos, hastes colossais como que espetadas no anil profundo do céu. Demorei-me a contemplar os gansos, marrecos e mergulhões que se despediam da última claridade do dia numa algazarra infantil. 
Segui até o planetário. Desci a rampa que me levou ao interior de sua cúpula prateada que ainda refletia os derradeiros raios de sol. Sentei-me em uma poltrona, recostei-me e aguardei o início da sessão. O astrônomo fez as apresentações iniciais e informou que viajaríamos através do tempo, voltando para o dia da inauguração do parque.
As luzes se apagaram repentinamente e a escuridão invadiu todo o recinto. Senti, nos poucos segundos de breu total, que a poltrona crescia sob mim ou que eu diminuía na maciez confortável do assento de couro. Pareceu-me sentir o toque carinhoso da mão de minha mãe, depois o aperto delicado de seus dedos entrelaçados nos meus. Podia pressenti-la ao meu lado. Da outra poltrona, parecia escapar o perfume inconfundível da lavanda de meu pai. Torci, em vão, para as luzes não se acenderem: não queria interromper a magia daquele momento.
Então, o céu se iluminou e as estrelas e astros começaram a mover-se rapidamente no negror da cúpula celeste. O astrônomo informou que viajávamos para 1954 e que o planetário reproduziria o céu em 21 de agosto daquele ano. A velocidade dos astros diminuiu gradualmente até pararmos na data desejada. A silhueta da cidade recortava o tecido negro do firmamento, com suas luzes, ainda poucas, e com a raridade de seus arranha-céus. Ainda assim, o clarão da nascente metrópole tornava invisível a luz das estrelas próximas ao horizonte. O astrônomo prometeu que nos surpreenderia com um blackout e o fez.
Quando as luzes se apagaram, a cidade desapareceu e as estrelas se multiplicaram e adquiriram nova dimensão no cosmo artificial. Um suspiro geral de admiração percorreu todo o auditório como um frisson coletivo. Era o céu de meus piqueniques. Olhei à minha direita e à minha esquerda. Eu estava só, mas ainda pude sentir o calor da mão de minha mãe na minha, como numa despedida e o perfume discreto de meu pai, como uma recendente saudade. A imagem da meia lua projetada no céu de concreto entrava turva em minhas retinas, filtrada por duas lágrimas póstumas.
Deixei o planetário. A noite me envolveu como uma escura mortalha.  Meu coração ainda batia descompassado, meus olhos continuavam úmidos. Mesmo ciente da impossibilidade inexcedível, involuntariamente meus olhos procuravam as mesas e os bancos ora inexistentes, a toalha xadrez, a cesta de vime e os vultos inencontráveis de meus pais.
Eu caminhava vagarosamente. Sem razão aparente, apalpei meus bolsos. A pequena folha da pitangueira ofereceu-se aos meus dedos. Coloquei-a na palma de minha mão e contemplei sua lividez mortiça. Dessa vez, como uma criança, pareceu-me poder ouvir suas queixas. Falou-me com nostalgia do vento que agitava o ramo em que brotou, contou-me das visitas dos pássaros coloridos e vorazes, das gotas de sol que penetrava a copa da árvore, do frescor das chuvas...
Calquei sem pressa as calçadas irregulares que me levariam para casa e... Deixei a folha saudosa cair sobre a maciez do lençol de folhas que jaziam próximas ao tronco da pitangueira.