/script> Gabriel Fernandes: O Brasileiro e a Senzala

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

O Brasileiro e a Senzala



As eleições constituem períodos propícios para que se avalie o carácter do povo brasileiro, sua compreensão da realidade, o alcance de sua percepção da vida e sua capacidade de racionalização.
Infelizmente, parece que a História se repete indefinidamente sem que nos traga nenhum ensinamento, sem que seja de alguma valia para nossa aprendizagem, para nosso desenvolvimento pessoal, para nosso ingresso no mundo moderno povoado por seres desenvolvidos dos quais, desgraçadamente, nos afastamos ano após ano.
A classe política tenta nos convencer de que somos inferiores, de que nossa origem lusitana nos condena à condição de párias do mundo, a coitadinhos, a vira-latas, a destituídos de inteligência, de vontade, de talento, de competência. Colocam o período de escravidão como uma das causas de nosso atraso, como um marco determinante e insuperável de nossa condição de subdesenvolvimento, como se a escravidão tivesse sido inventada pelos portugueses, como se apenas os negros que vieram para o Brasil tivessem sido escravizados.
Escravidão existe desde sempre e nas mais variadas formas. Houve escravidão na Mesopotâmia, na Grécia, no Egito, em Roma, na Ásia, em toda parte. A Bíblia menciona candidamente inúmeros casos de escravidão, e não se refere a negros. A própria palavra Escravo deriva do Latim, schiavo, ou de Eslavo (em inglês: slave e Slav, respectivamente), povo que era aprisionado em grande número pelos germanos e bizantinos ou se entregava voluntariamente como trabalhador em troca de alimentação e abrigo. E não me consta que eram negros naquela época, como não o são hoje.
Embora a escravidão tenha acabado, parece que a consciência do brasileiro continua acorrentada ao pelourinho, presa a preconceitos que nos querem fazer acreditar que temos. Tudo é justificativa para não nos livrarmos das correntes, para não assumirmos responsabilidades, para não aceitarmos a maturidade, para delegarmos a terceiros a condução de nossa vida. Espertamente, os políticos eufemizaram a palavra Escravidão e a substituíram por formas mais palatáveis como: cotas raciais, bolsas, programas de renda, auxílios de toda ordem. Com isso, a consciência subsiste escravizada.
Continuamos na segurança da senzala, não queremos deixá-la por nenhum preço. Não prezamos nossa liberdade. Queremos um senhor que nos conduza; queremos um capataz que nos açoite, que nos puna, que corrija nossos pequenos ou grandes deslizes; queremos receber ordens; queremos que nos digam o que fazer; queremos que as decisões sejam tomadas por outros, desde que a cobertura de nossa tapera seja garantida, desde que nossa ração de lavagem chegue à nossa mesa.
Não queremos crescer; não queremos as responsabilidades que nossa condição de seres humanos adultos exige de nós. Não importa que nossos senhores vivam à larga, à custa do suor de nossos corpos; não queremos preocupações. Nossos senhores têm suas posições garantidas enquanto nos apaziguar com as migalhas que caem de suas mesas.
Assim é nosso povo (pelo menos é essa a imagem que se depreende do resultado das escolhas feitas pela maioria), e as eleições mostram bem isso. Vota-se emocionalmente; vota-se em caudilhos seculares; vota-se em senhores feudais extemporâneos; em messias tresloucados, vota-se, por protesto ininteligível, em oportunistas de toda ordem, em palhaços desengraçados; vota-se em canalhas explícitos; vota-se em criminosos contumazes. Vota-se contra o futuro de nossos descendentes.
Nada mudou e nada vai mudar. O povo brasileiro continuará a seguir seu destino macunaímico. Sempre vai escolher um salvador da Pátria, um caudilho boçal, um senhor feudal que jurará lhe garantir o exercício de sua preguiça, de sua irresponsabilidade, de sua infantilidade, de sua irracionalidade. Vai entregar, indefinidamente, sua liberdade a um tirano qualquer que lhe prometa garantir o fornecimento de uma ração diária de xepa fria servida no cocho, como se fazia na época da escravidão.