/script> Gabriel Fernandes: Chuva de Verão

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Chuva de Verão


Sobrevéns sem aviso, no meio da tarde
Como chuva repentina de verão,
Um forte aguaceiro a esvaziar as ruas,
A refrescar o dia, assentando o pó,
Emprestando ao ar um cheiro suave de terra molhada.
Tu me surpreendes inerme e sem abrigo.

Imensas gotas frescas amainam o calor,
Molham-me o rosto suado, encharcam-me os ossos.
Corro sem rumo alegre como um menino.
Canto, rio, salto, choro, grito.
Grata, a terra responde com vapor.
Meu corpo enternecido responde com um tremor: tu me possuis.

Sei que não demoras.
Acima do céu plangente, enegrecido,
O sol ainda brilha.
Repartirá as nuvens um vento forte e cálido,
Revelando a luz, renascendo o dia.
Não podes ficar.

Como vieste, hás de partir ruidosa, intensa e desejada.
Há de restar de ti somente alguns detalhes dispersos
Lembrando-me que passastes.
Talvez, uma pegada mais funda calcada na lama ressequida,
Ou uma gota solitária esquecida numa pétala rubra de orquídea,
Quiçá, o tronco calcinado de uma velha árvore fendida por um raio.

Quem sabe deixarás como uma lembrança remota
O teu cheiro discreto de mulher em minhas mãos
Ou a ternura de tua voz, como uma melodia inefável.
Certamente ferirá o meu peito uma cicatriz mais profunda
E se perpetuará em meus lábios, mudos,
Um pedido, impronunciado, para que fiques.