/script> Gabriel Fernandes: Ave, Eva!

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Ave, Eva!


Domingo, 23 de maio. O elevador desliza silenciosamente no fosso. O menino que me pediu para apertar o 4 me olha com discreta curiosidade. Por um instante, fico tentado a lhe dizer alguma coisa, mas é ele quem quebra o silêncio:
– Eu sou o Homem Aranha, tio!
"Eu não sou seu tio." – penso em lhe dizer, mas ele é uma graça de garoto. Sorri com candura. Seus olhos redondos e claros me olham interrogativamente.
– Tudo bem com você, Homem Aranha? – é tudo o que sou capaz de articular.
– A mamãe me deu esta roupa do Homem Aranha. Hoje é meu aniversário! – ele ainda não é capaz de pronunciar os erres. Alguns são substituídos por eles, outros, simplesmente omitidos. Sua voz aguda é toda inflexionada por uma alegria infantil que há muito eu não encontrava. Fico mudo por alguns segundos, procuro alguma coisa inteligente ou carinhosa para lhe dizer.
O elevador para no quarto andar. O pequeno super-herói sai em disparada, risonho, colorido, braços levantados:
– Olha, tio, eu posso voar! – e eu me vejo correndo pelo corredor numa roupa do Capitão Marvel, que nunca tive.
A porta se fecha vagarosamente. Só então consigo balbuciar:
– Feliz... feliz aniversário, Homem Aranha! – mas já é tarde. O pequeno herói já não pode me ouvir.
Observo os números que se alternam sem pressa no painel luminoso: 5,6,7,... Como será que vou encontrá-la? São mais de onze horas. O apartamento com certeza estará cheirando a comida. Ela nunca foi boa cozinheira, mas vou ter de engolir sua gororoba assim mesmo. Ainda bem que é só uma vez por ano.
Eu não devia ter vindo, mas sempre acabo aparecendo. Não sei se é por curiosidade ou por rancor. Ela sempre foi a queridinha da mãe. A mãe nunca se cansava de dizer que queria ter tido só uma filha. Quando tiraram a Eva e a mostraram pra mãe, ela ficou na maior alegria, mas a alegria durou pouco. Logo a parteira estranhou:
– Tem mais alguma coisa drento! – e tinha: era eu. E acabei herdando o apelido: Coisa.
Em casa nunca me chamaram de Horácio, era sempre Coisa. E o tratamento, o carinho, se assim posso dizer, que eu recebia da mãe era menos do que ela dispensava às coisas dela.
Eu sempre sugava os seios já quase esgotados da mãe. Depois foram os restos das mamadeiras, das sopinhas, dos pratos da Eva. Durante muito tempo usávamos as mesmas roupas, até o dia em que o pai reclamou:
- Esse menino vai acabar virando um veadinho... E a culpa vai ser sua, Dita!
Então vieram as roupas de menino, poucas, baratas, mas não o direito de falar com a mãe. Ela parecia sempre impaciente, nunca me dirigia palavra. Quando eu tentava lhe dizer alguma coisa, ela me interrompia, completava minhas frases ou simplesmente me ignorava, virando o rosto e saindo de perto de mim.
Eu vivia grudado à minha irmã; a seguia por toda parte. Queria aprender com ela como falar, como fazer as coisas, como me comportar... Mas com a Eva era também impossível conversar. Ela me interrompia e completava minhas frases como a mãe.
O pai reclamava pra mãe que eu não conseguia formar uma frase completa, que eu já ia fazer quatro anos, possivelmente a mesma idade do Homem Aranha que saiu voando do elevador, e mal conseguia tartamudear algumas palavras simples. Eu o ouvia dizer pra mãe que achava que eu era retardado, porque eu gaguejava como uma porca, eu não fazia ideia do que era gaguejar, menos ainda de como uma porca gaguejava.
Embora a mãe dissesse que só queria uma filha, ela pariu muitos outros filhos. Uns morreram no parto, outros foram abortados, outros morreram depois de alguns anos, mas seis deles vivem até hoje, até onde eu sei.
Quando alguém dizia: “Prenha de novo, Dita?”, a mãe respondia: “Fazer o quê? É a vontade de Deus!” – como se Deus tivesse trepado com ela.

O elevador para no décimo-terceiro andar. Desço. Apartamento 131. Minha boca está amarga, a saliva parece me queimar por dentro. Rumino pensamentos de desprezo e ódio, eu acho. Não tem cheiro de comida no vestíbulo. Talvez ela não esteja em casa. Melhor assim. Deixo um bilhete e desapareço por mais um ano.

Pode ser que eu tenha deixado uma falsa ideia de que a mãe era ignorante, mas não. Ela era professora. Dava aulas de História Universal num colégio de gente rica que ficava no Morumbi. Ela conhecia profundamente toda a matéria: dos Clássicos gregos à História Contemporânea. A mãe era fanática pelos gregos. Vivia contando histórias dos mitos gregos para a Eva: Édipo, Sísifo, Ulisses, Enéas, Hércules, Prometeu, Narciso, Pégaso, o Minotauro, as Ninfas, os Titãs, Dédalo, Ícaro...
Ela dizia pra Eva que ela poderia ser o que quisesse. Que ela tinha nascido pra brilhar, nascido pra voar bem alto, como uma ave, como Ícaro. Ela cresceu ouvindo isso. Acreditou que tudo seria fácil pra ela, que o sucesso cairia em seu colo naturalmente. Era seu destino.
A Eva queria de fato voar como Ícaro. Tentou ser tripulante de avião. Achava que era talhada para comissária de bordo ou até piloto. Seria fácil pra ela. Bastaria sua presença e as portas todas se abririam como que por magia.
Porém, ela mal sabia ler. Terminou o primário com extrema dificuldade e depois ficou esperando as coisas acontecerem. E elas não aconteceram.

Toco a campainha. Não funciona. Bato à porta. Aguardo. Experimento a maçaneta... A porta não está trancada.
Eva ainda está na cama. O apartamento cheira mal. Há louça suja por toda parte: sobre a mesa, sobre a pia, sobre o criado-mudo, no chão... O minúsculo apartamento é uma bagunça indescritível.
Abro a janela. Eva revira-se na cama. Está irreconhecível. Emagreceu muito desde que eu a vi exatamente há um ano, no dia de nosso aniversário. Deixou de tingir os cabelos. A pele de seu rosto está cinza, flácida, enrugada demais para uma mulher que está completando cinquenta anos. Ela parece mais baixa. Seus olhos quase desaparecem em duas covas escuras, profundas. Sua boca inexpressiva é apenas um traço em arco descendente.
 Pergunto-lhe o que aconteceu e ela me responde que quer voar. Repito a pergunta e ela repete a resposta. Insisto:
– Como, voar?
Ela diz que a mãe jurava que ela podia voar, se quisesse, mas já estava com cinquenta anos e nunca tinha voado. Não pôde ser comissária. Nunca conseguiu dinheiro sequer para uma passagem na Ponte Aérea. Tento explicar que a mãe lhe falava de outro tipo de voo, que falava no sentido figurado. “Eu posso voar!” era tudo o que ela dizia.
Digo-lhe pra se levantar e colocar uma roupa decente; que vou lhe preparar um café. Ela permanece enredada em seus pensamentos, olhar fixo num ponto qualquer da sala, frio, vazio, assustador.
Vou à cozinha. Tento abrir espaço na pia pra lavar duas xícaras. Procuro o bule e o coador. Ponho água pra ferver. Enquanto espero, abro a porta do terraço e olho a paisagem que se alonga á minha frente. Um campo de futebol, vários prédios descarnados que formam o imenso conjunto habitacional. Mais ao longe, recortes da represa que se espalha em direção à serra. Faz sol. O dia está claro. Não há nuvens. O céu é de um azul intenso, quase marinho. O pequeno Homem Aranha brinca no terraço do quarto andar.
Pressinto um vulto passar ao meu lado como um vento inesperado. As mãos levantadas acima da cabeça estendem um lençol.  Resvala meu corpo. Atira-se por sobre a grade. Flutua no espaço por alguns segundos num voo espetacular:
– E-Eva! – gaguejo – você está voando!
Silêncio... Então o som surdo do baque do corpo contra o chão atinge meus ouvidos. O prédio parece sofrer um leve tremor. Observo o corpo de Eva estatelado no chão. Um monturo de sangue e carne. Uma coisa, uma coisa nojenta.
Meus olhos se voltam para o terraço do quarto andar. O Homem Aranha tinha presenciado o voo da Eva, que acreditava ser uma ave... Ou Ícaro.
“A bruxa do 13 pode voar!” – deve ter pensado o pequeno super-herói.
Eu o vejo arrastar uma cadeira para perto da grade. Subir no assento. Apoiar um dos pés na grade... Tento gritar alguma coisa, mas a voz não sai...

- Eu também posso voar!...