sexta-feira, 20 de junho de 2014

Metrossexual

- O telefone soa na sala vazia. Minha esposa corre para atender.
- Alô!
- Posso fazer uma entrega pra Gabriel Fernandes?
- Como assim, fazer uma entrega?
- Uma balança de cozinha pra Gabriel Fernandes.
- Quem está falando?
- É da Fast Shop.
Realmente os tempos são outros. Nada de “Bom dia”, “Por favor”, “Desculpe”, “Com licença”. As novas gerações aboliram a gentileza, a boa educação e a cordialidade. Modernidade virou sinônimo de rudeza, de desrespeito, de malcriação, de incivilidade... Culminando com a encoxadinha e a mão boba no metrô e outros comportamentos abomináveis observados nos transportes públicos. E parece que muitos jovens se orgulham disso.
Um amigo (querido) acha que chamar alguém de senhor ou senhora é humilhante, denota um comportamento subserviente, é resquício do período da escravidão, não guarda relação com apreço, consideração ou deferência. Fazer o quê? Estão desconstruindo nossa civilização. Vivemos a Era da Truculência.
Muitas coisas mudaram principalmente no que se refere à linguagem. Os jornalistas dão o mau exemplo. Mal alfabetizados, optam por excluir palavras e expressões idiomáticas que não conseguem empregar corretamente. A palavra “nível” foi banida, substituída pelo palavrão “patamar”. E a doença se espalhou como praga. “Risco de vida” virou “risco de morte”, já que a acuidade mental das novas gerações de profissionais da imprensa parece não os permitir compreender que a expressão “risco de vida” é uma forma consagrada pelo uso, resultado do emprego de uma figura de linguagem denominada elipse, isto é, supressão de um termo de uma oração sem incorrer em perda de significado. No início dizia-se: “risco de perder a vida”. Outros exemplos são: “medo de avião” e “medo d’água”. Ninguém tem medo de avião ou de água, tem medo de viajar de avião ou de entrar na água onde não dá pé.
Com o advento da informática e da telefonia móvel, centenas de novos verbetes foram introduzidas em nossa linguagem cotidiana. Para os mais velhos, como eu, fica muito difícil acompanhar a evolução vertiginosa da linguagem - sendo que evolução, neste contexto, não significa, necessariamente, enriquecimento.
Outro fenômeno é o da divisão da população em tribos, um claro retrocesso à época dos homens das cavernas. São tantas as tribos, com nomes estranhíssimos, que chego a duvidar de que alguém consiga diferenciar um troglodita do outro e classificá-los acertadamente na tribo apropriada.
Realmente, me vejo perdido em meio a centenas de termos, classificações, denominações e o escambau a ponto de proferir disparates como o que vou contar.
Conversava com um primo sobre a aparência de muitos jovens atualmente. Ele discorria sobre as modalidades de tribos classificadas segundo sua aparência. Eu lhe confessava minha ignorância e meu desinteresse sobre o assunto. Então, ele me deu uma informação que me deixou perplexo, arrasado, mesmo: minha ignorância é muito maior do que eu imaginava. Quando me perguntou se eu sabia o que era metrossexual, não tive dúvida, lhe respondi de imediato.
Ele gargalhou na minha cara por um bom tempo e depois, ainda rindo, me disse que realmente eu estava velho: metrossexual não é, como eu imaginava, o cara que bolina mulheres no metrô.