/script> Gabriel Fernandes: Só é Pobre Quem Quer

domingo, 22 de junho de 2014

Só é Pobre Quem Quer

Acho que o raciocínio, a lógica e o bom-senso estão caindo em desuso. As pessoas parecem não pensar mais, não avaliar, não ponderar os diferentes aspectos de um problema antes de emitir uma opinião. Não refletem, apenas reproduzem opiniões alheias repletas de lugares-comuns, de chavões, de frases de efeito que ouviram em algum lugar, eivadas de falhas e preconceitos.
Até um escritor amigo meu, um cara inteligente, bem articulado, com boa bagagem cultural, acabou se deixando tragar por essa onda de bom-mocismo, de politicamente-correto: transformou-se num defensor implacável dos pobres, um guardião dos desvalidos, um paladino dos miseráveis, um Dom Quixote extemporâneo.
Eu, por meu lado, vou enfiar o dedo na ferida, meter o pé na porta, mesmo correndo o risco de ser mal interpretado, de ser condenado e apedrejado (está na moda) pelos meus amigos.
Minha tese é a seguinte: só é pobre quem quer. Depois do advento do capitalismo e da democracia, pobreza é uma questão de escolha. Claro que existem sempre as inevitáveis exceções, mas vou ater-me às regras.
Para a criança recém-chegada a este manicômio a que chamamos Terra, as possibilidades que a vida oferece são quase infinitas. (Minha análise limita-se ao universo dos países capitalistas, os ricos, e dos proto-capitalistas, onde incluo o Brasil. Os países governados por representantes de deuses e outras divindades ou entidades ditas espirituais estão fora do escopo desta análise).
Em um país como o nosso, apesar dos entraves burocráticos e legais, da parcialidade da justiça, da corrupção etc., um indivíduo ainda pode ser o que quiser, é tudo uma questão de escolha: ainda existem oportunidades e liberdade para se escolher. Pode-se ser rico, remediado ou pobre. Ninguém nasce destinado a ser o que quer que seja. Não existem imposições legais ou sociais, não existem castas, simplesmente escolhe-se. O cara só é pobre porque quer.
– Mas, nasci na favela, numa família desestruturada, meu pai é alcoólatra, minha mãe dá pra todo mundo pra sustentar o vício do crack...
E daí? Mesmo nessas circunstâncias, pode-se escolher entre aceitar as coisas como estão, isto é, ser objeto dos acontecimentos, ou mudar as coisas para que se adequem à sua vontade, se aproximem de seus sonhos, ou seja, ser sujeito de sua vida.
– Mas, não estudei, não sei fazer nada, queria ser jogador de futebol...
E daí? O que você fez para se transformar num jogador profissional de futebol? Ficou jogando bola na várzea à espera de ser descoberto por um olheiro?
Para ser um atleta profissional, como para ser qualquer coisa que valha a pena, não basta fazer uma escolha e ficar sentado esperando a coisa se realizar. É necessário ter disposição, disciplina, vontade férrea, determinação, abnegação,...
“Querer é poder.” Nada mais verdadeiro, nada mais difícil do que realmente querer. Você quer jogar bola? Ótimo! Mal sabe ler e escrever? Adora funk e pagode? Perfeito. Já é um bom começo.
O jogador de futebol, retirado todo o glamour que a mídia procura dar à profissão, possui todas as qualidades que citei mais acima: correu atrás de seu sonho; humilhou-se nas filas das infinitas peneiras dos clubes; bateu de porta em porta; foi rejeitado inúmeras vezes; voltou para casa a pé, chorando, se sentindo derrotado, mas não desistiu. Durante anos treinou sozinho no campinho de terra do bairro: embaixadinhas, cabeceios, chutes de três dedos, dribles, cobranças de faltas, chutes com ambos os pés - um de cada vez, é claro. Sabia que podia e queria chegar lá. Sofreu como um cachorro sem dono; resistiu a pressões de colegas de clube que queriam que ele desistisse, queriam machucá-lo; sofreu assédio sexual de treinadores pedófilos. Não desistiu. Conseguiu um contrato. Ganhou um bom dinheiro. Comprou um carrão importado. Fez filho numa prostituta, branca. Cobriu-se de tatuagens, colocou em cada orelha um brinco de brilhante do tamanho de uma azeitona grega e foi jogar num time do Azerbaijão. Nada vem sem esforço.
– Mas eu sou aleijado: um dos meus braços sai do meio das minhas costas...
E daí? Ainda resta um braço normal e duas pernas que cumprem sua funcionalidade. Isso não constitui desculpa. Veja o exemplo dos atletas paraolímpicos. É tudo uma questão de escolha. Você pode ficar chorando na porta do barraco ou de mãos estendidas à espera de esmola (ou bolsa família), com a vantagem de, com um braço nas costas, poder pedir a quem vai e a quem vem, ou pode ir à luta.
– Mas sou preguiçoso, analfabeto funcional, mau-caráter, com desvios graves de conduta...
E daí? Desenvolva suas habilidades, seus talentos ao máximo. Seja também amoral, bêbado, arrogante, pretensioso, imoral, dissimulado, desonesto, hipócrita e mitômano que em poucos anos você poderá se tornar um político de sucesso, respeitabilíssimo, aceito nas altas rodas. Talvez alcance a presidência da câmara ou do senado, ou mesmo a presidência da república.
Há muitos anos, tivemos como inquilino um casal de alcoólatras. Esse casal teve um menino que após um par de anos ficou órfão. No espaço de poucos meses, em um mesmo ano, o menino perdeu os pais, mortos por cirrose hepática. Então ele entrou para o mundo dos POP: pobre, órfão e preto. Tinha tudo para dar errado, mas não deu. Foi adotado por minha irmã, criado como filho junto com meus outros sobrinhos, estudou, aprendeu uma profissão, arrumou um bom emprego, ganhou dinheiro e, como sói acontecer, casou-se com uma branca e vive muito bem.

“Uma das piores lembranças da minha infância foi o ano em que fiquei longe da escola porque a diretora baixou uma norma cobrando mensalidade. No ano seguinte, a exigência caiu e voltei à sala de aula. Estudar era a minha vida e conhecer o mundo o meu sonho. Adorava aprender outras línguas".

A frase acima é do Ministro do Supremo Tribunal, Joaquim Barbosa, negro nascido na pobreza de Paracatu, interior de Minas Gerais, numa família com sete filhos, a mãe dona de casa e o pai pedreiro.
Quer outro exemplo de determinação, coragem, obstinação, empenho, esforço e sucesso? Vou dá-lo de qualquer jeito?
O Paraíba - ou Poucatelha, como o chamávamos - era um cearense baixinho, cabeça chata, magricela, feio que só uma apendicite supurada; quase calvo, embora acabasse de sair da adolescência. Vivia de colocar pisos Paviflex. Trabalhava como um alucinado. Costumava anunciar a todos os ventos: “Vou ser médico!”.
Durante um bom tempo, minha mãe lhe deu o que comer no almoço e no jantar, pois o Paraíba ganhava pouco e vivia numa penúria de dar dó. Um dia desapareceu sem aviso. As notícias de seu paradeiro chegariam anos depois na forma de um convite de formatura. O velho Paraíba havia se transformado no Doutor Paraíba, formado em uma faculdade de medicina de Maringá, no Paraná.
Não acredito em determinismo. Não há obstáculo intransponível. Basta querer, basta colocarmos nossos sonhos ao alcance de nossa vontade.