/script> Gabriel Fernandes: A Prática da Teoria

terça-feira, 3 de junho de 2014

A Prática da Teoria


- Desisti! – ele despejou teatralmente, fixando seu olhar nos olhos da atentos da médica.
- Como? O que significa esse “Desisti!”?
- Estou cansado. Fiz tudo o que pude, mas parece que nada funciona. A razão nunca prevalece. – recostado no sofá, preparou-se para ouvir os argumentos sempre bem embasados da psiquiatra.
- Eu não lhe disse que seria fácil. Nunca é. Você deve ter mais um pouco de paciência, as coisas acabam se resolvendo. Não adianta apelar para a razão. Nesses casos, a razão é sempre a primeira vítima.
- Chego a duvidar de que exista uma saída. Parece que os problemas só pioram.
- Os problemas são assim mesmo. Quando estamos envolvidos por eles, parecem muito maiores do que realmente são. Na maioria das vezes, uma pessoa de fora pode ter uma visão mais clara, isenta de emoções e preconceitos.
- No meu caso, parecem intransponíveis, embora a senhora me garanta que estou carregando demais nas cores.
- Eles sofrem de distúrbios graves de personalidade, você precisa compreender isso. No caso deles, não sei se há tratamentos eficazes. Talvez psicotrópicos, antidepressivos, alguma droga alopata apropriada... Eles carregam em suas mentes marcas profundas provocadas pelos anos que viveram sob os horrores da guerra. Você me disse que ambos viram os pais serem mortos e foram acolhidos por parentes ou vizinhos, mas terminaram recolhidos em campos de concentração até o final da guerra. Na idade que tinham na época, os impactos psicológicos produzidos pelas imagens presenciadas e pelos sofrimentos suportados provocam marcas, feridas profundas que são, na maioria das vezes, incuráveis.
- Então, o que eu posso fazer? A senhora acha que é caso pra internação? – ele se mostrava interessado no assunto,
- No caso de seu pai, tenho absoluta certeza. Já a sua mãe... Gostaria que ela viesse me ver. Acho o caso dela mais complicado.
- Não há referência de casos semelhantes na literatura de psiquiatria?
- Sim. Claro que há. O quadro dela não é inédito, nem raro.
- Então, o que deve ser feito?
- Seu pai deve reconhecer que é alcoólatra e aceitar ser internado em uma clínica para desintoxicação. Ameaçar se embriagar quando se sente contrariado é uma chantagem inaceitável. Ir a um bar e beber até cair, cumprindo a ameaça, é intolerável. Ele deve ser tratado urgentemente antes que faça alguma bobagem.
 - A senhora poderia me indicar uma clínica onde eu pudesse levá-lo?
- Certamente. Tenho um colega muito competente que dirige uma bem aparelhada e com pessoal especializado.
- Mas, como vou fazer para convencê-lo a se internar?
- Bem, quando você trouxer sua mãe, traga seu pai também. Quero ter uma boa conversa reservada com ele.
- O que pode se feito pela minha mãe?
- Deixe-me esclarecer alguns pontos sobre psicologia e psiquiatria. Os dois maiores expoentes da psicologia foram Freud e Jung. Freud desenvolveu a teoria da libido, na qual afirmava que as causas das desordens psíquicas envolvem, sempre, algum trauma de natureza sexual. Em suas pesquisas, ele buscava as causas desses distúrbios. A visão de Jung era mais abrangente. Para ele... Se eu complicar demais, me pare que eu tento encontrar uma forma mais simples de explicar.
- Tudo bem. A senhora pode continuar. Se começar a não entender, eu a interrompo.
- Certo. Para Jung, o conceito de libido era muito mais amplo. Ele dizia que libido é toda a energia psíquica. É instinto permanente de sobrevivência que se manifesta pela fome, pela sede, pela sexualidade, pela agressividade. É o apetite pela vida. Esse conceito de libido aproxima-se da ideia schopenhaueriana de vontade, mas não vou entrar nesse campo filosófico.
- Espere um pouquinho, doutora. Em termos práticos, o que isso significa?
- Eu já chego lá. Deixe-me avançar só mais um pouquinho. Ao contrário do que acreditava Freud, para Jung o inconsciente não é estático, rígido, formado pelos conteúdos que são reprimidos pelo ego. Ao contrário, ele acreditava que o inconsciente é dinâmico, produz conteúdos, reagrupa os já existentes e trabalha numa relação compensatória e complementar com o consciente.  No inconsciente, se encontram em movimento conteúdos pessoais adquiridos durante a vida e mais os criados pelo próprio inconsciente.
- Então, a senhora quer dizer que os problemas enfrentados pelos meus pais moldaram o inconsciente deles e agora afloram de uma forma mais clara em suas consciências produzindo esses comportamentos fora dos padrões?
- Jung afirmava que sim, e eu estou inclinada a concordar com ele. No inconsciente pessoal, encontram-se também percepções subliminares, ou seja, aquelas que foram captadas pelos nossos sentidos sem que nos déssemos conta de termos tido contato com o fato em si.  Conteúdos da memória, que não precisam estar presentes constantemente na consciência, residem no inconsciente pessoal: aqui se incluem também os complexos. O conjunto desses conteúdos forma no Inconsciente Pessoal, um grande banco de dados que podem emergir na consciência a qualquer momento.
- Voltando ao caso de minha mãe, onde se encaixa toda essa teoria?
- Apenas para complementar, antes de entrar no caso específico de sua mãe, eu queria dizer que com o desenvolvimento da consciência, o ser humano, que é um ser gregário por natureza, precisou desenvolver algumas características básicas que o permitissem se adaptar socialmente, reprimindo instintos animalescos ancestrais. Essas características formam o que em psicologia é chamado de Persona, que é o arquétipo dessa adaptação. Persona é o nome de uma antiga máscara usada no teatro grego na representação teatral. Persona constitui a máscara, ou fachada aparente, do indivíduo exibida de maneira a facilitar a comunicação com o mundo externo, com a sociedade onde vive e de acordo com os papéis dele exigidos. O objetivo principal do indivíduo é o de ser aceito pelo grupo social a que pertence. Sua mãe deixou cair sua máscara.
- Se eu entendi, então, quando minha mãe diz que vai se matar se eu me casar e sair de casa ela apenas revela seu verdadeiro eu, sem disfarces, sem máscara? A senhora acha que esse apego que ela manifesta em relação a mim tem a ver com a insegurança gerada pela guerra, a perda precoce dos pais, a falta de um lar definitivo, a vida provisória que levou, à mutabilidade, à inconstância de sua situação?
- Mais ou menos isso. A persona é muito importante na medida em que dependemos dela em nossos relacionamentos diários: no trabalho, na roda de amigos ou na convivência com o nosso grupo. Como qualquer outro componente psíquico, a persona possui um lado bom e outro ruim.  Em seus aspectos benéficos, a persona auxilia a convivência em sociedade, o que é extremamente importante. Transmite, também, certa sensação de segurança, na medida em que cada um desempenha da melhor forma possível exatamente o papel que dele se espera. No sentido negativo, há o perigo de o indivíduo se identificar com o papel por ele desempenhado, fazendo com que se distancie de sua própria natureza. O indivíduo possuído por sua persona se torna uma pessoa de convivência difícil, é intransigente em sua persona e exige que os demais se comportem como ele.
- Quer dizer que minha mãe colocou a máscara de mãe possessiva e intransigente e uma segunda máscara de suicida?
- Acho que essa segunda máscara não existe, é apenas um apelo extremado que sua mãe adicionou aos traços que compõem sua persona atual.
- Então não existe o risco de ela se matar se eu sair de casa?
­- Acredito que não. A persona serve também como proteção contra nossas características internas, que achamos que nos desabonam e, portanto, queremos escondê-las. No caso de sua mãe, ela parece ter abdicado desse pudor. Não sou capaz de avaliar, assim à distância o grau de complexidade e de morbidez do quadro psiquiátrico de sua mãe, mas posso afirmar, categoricamente, que ela não se suicidará.
- A senhora saberia me explicar por que ela desenvolveu esse comportamento?
- Bem, vou ter de recorrer a Jung novamente. Ele criou um conceito a que chamou de projeção. Para ele, projeção é um processo inconsciente, automático, através do qual um conteúdo, inconsciente para o sujeito, é transferido para um objeto, fazendo com que esse conteúdo pareça pertencer ao objeto.  A projeção cessa no momento em que se torna consciente, isto é, ao ser constatado que o conteúdo pertence ao sujeito. Sua mãe fez de você um objeto, um ponto de apoio, um porto seguro, um refúgio. Não saberia avaliar a profundidade de seus problemas emocionais, de seu complexo. Explicando melhor: complexo é a imagem de uma determinada situação psíquica que carrega uma carga emocional intensa e que se mostra incompatível com a habitual disposição ou atitude da consciência. Essa imagem é dotada de certa coesão interna, possui sua própria totalidade e dispõe, ainda, de um grau relativamente alto de autonomia. Isto é, está muito pouco sujeita às disposições da consciência e, por isso, se comporta na esfera da consciência como um corpo alheio cheio de vida. Os complexos não são em si negativos, seus efeitos, no entanto, podem ser. Não existe um número dado de complexos sobre os quais eu poderia discorrer, porém existem aqueles que, por serem observados e catalogados com mais frequência, são mais fáceis de ser analisado, como os complexos de Édipo, de Electra, de castração, de poder, de inferioridade, de superioridade etc.
- Bem, doutora, a senhora complicou demais e acho que meu tempo acabou. Vou tentar trazer meus pais.
- Muito bom. Pode ficar tranquilo com relação à sua mãe. Garanto que ela não será capaz de atentar contra a própria vida. Eu os aguardo na próxima quarta-feira.
- Até quarta, então.
- Tenha um bom dia.

Mãos nos bolsos, cabeça baixa, ele caminha lentamente, como que contando seus passos. Sente-se mais leve, aliviado mesmo. A consulta valeu a pena. Seus ouvidos parecem lhe repetir a frase encorajadora da psicanalista: “Posso afirmar, categoricamente, que ela não se suicidará”.
 Ao se aproximar do prédio onde mora com os pais, espanta-se com a intensa aglomeração de pedestres e a movimentação de ambulâncias e viaturas de polícia. Uma vizinha tenta impedi-lo de se aproximar de um grupo de pessoas que bloqueia a entrada de seu prédio.
- O que houve?
- É melhor o senhor não ver...