terça-feira, 27 de maio de 2014

Igor


 A mamãe me deixou à porta da escola, me disse tchau e correu em direção ao ponto de ônibus, porque o dela tinha acabado de chegar. Fiquei parado em frente ao pesado portão de ferro. Ele não estava aberto, o que não era normal. Na pressa, a mamãe não percebeu que não tinha ninguém da escola à espera dos alunos.
Estou à cerca de três metros do portão. Preciso de muita concentração e empenho para transpor essa distância, para obrigar minhas pernas frágeis e atrofiadas a obedecerem aos comandos de meu cérebro. A pequena mochila que carrego às costas provoca certo desequilíbrio e me obriga a um esforço ainda maior. Minha respiração se acelera e meu coração bate mais forte à medida que avanço com meus passos titubeantes. Posso ouvi-lo tamborilando em meus ouvidos.
O portão agora está ao meu alcance. Empurro-o com as costas da minha mão franzina e deformada. Está fechado, pelo menos com a lingueta da fechadura. Tento abri-lo, mas a mola é muito dura para a precariedade dos músculos de minha mão. Não há ninguém por perto. Sempre apressada, a mamãe não percebeu também que a escola estava fechada.
Fico parado. Rosto colado no ferro frio do portão. Uma coisinha áspera, amarga, começa a subir pela minha garganta. Parece picar meu nariz, como quando entra água na hora do banho, e meus olhos parecem arder. Uma lágrima pequenina começa a se formar no canto do meu olho semicerrado. Eu não quero chorar.
Um caminhão para na rua. Um homem desce com pressa e se posta às minhas costas:
– Sai daí moleque, preciso entrar!
Ele me empurra bruscamente, me fazendo perder o equilíbrio. Apoio meu ombro no batente da porta para não cair; uma dor aguda parece rasgar minha carne. A custo consigo voltar a me estabilizar. Ele entra apressadamente e deixa a porta semiaberta. Aproveito para segui-lo. O pátio está deserto. A escola está silenciosa. Meus colegas não estão em lugar nenhum. Caminho na minha marcha desengonçada até um banco de ripas de madeira que fica sob uma jabuticabeira e me sento. Um hematoma se forma no meu ombro, mas a dor já não incomoda tanto.
“Onde está todo mundo? Será que é feriado e a mamãe não sabia?”.
Coloco minha mochila no banco e espero: “Alguém tem de aparecer!”.
Procuro passar o tempo me lembrando de como é a escola nos dias normais, se é que para meninos como eu algum dia pode ser chamado de normal.
A diretora deixa o prédio da escola e dá de cara comigo:
– Que você está fazendo aqui, Igor?
– A mamãe me trouxe para assistir às aulas.
– Puxa, meu querido, ela não sabia que a escola ia fechar a partir da sexta-feira passada? Você não entregou o comunicado a ela?
– Não, professora! Eu não consegui conversar com ela. Ela está sempre correndo, apressada, atrasada...
– E agora, o que vamos fazer? Vou ligar para sua mãe vir buscá-lo!
– Não vai adiantar, professora, ela trabalha longe e não pode deixar o serviço.
– Você tem algum parente que poderia ficar com você? Seu pai?
– Não senhora! Eu nem sei quem é meu pai.
– Então você vai ficar aqui comigo até sua mãe vir buscá-lo!
– Certo, professora, não tem problema.
Foi legal ter ficado na escola, pude ver o homem abrir o portão e deixar entrar o caminhão baú. Acompanhei o embarque dos móveis e o esvaziamento gradual das salas de aula. Senti uma pontinha de tristeza quando vi embarcarem os desenhos que nós tínhamos feito para o Dia das Mães.
A diretora me contou que o Governo tinha adotado uma política a que chamou de inclusão: todos os alunos de escolas públicas deveriam frequentar escolas normais. O Governo não mais destinaria verbas para escolas especiais. Não haveria mais escolas para surdos, para cegos ou deficientes de qualquer espécie. Todos os alunos seriam tratados da mesma maneira. Eu não sabia se isso seria bom.
A minha escola recebia alunos com diferentes tipos e graus de deficiência. Os professores e funcionários da escola eram treinados para lidar com crianças especiais. Eles demonstravam paciência e se esforçavam para entender os alunos que, como eu, tinham dificuldade de fala. A diretora, os professores e os funcionários conheciam também Libras, a linguagem brasileira de sinais.
Eu gostava da minha escola. Todas as manhãs eu acordava disposto a rever meus colegas, ansioso para mostrar as lições de casa para as professoras e pronto para brincar no pátio na hora do recreio.


Meu primeiro dia numa escola normal foi uma revelação. Eu não estava acostumado a ser objeto de interesse, de curiosidade. Na minha antiga escola eu era apenas mais um deficiente. Nós convivíamos bem e nos divertíamos à beça, apesar de nossas limitações e diferenças. Como os demais alunos, eu também aprendi Libras e conseguia me comunicar com meus colegas surdos, apesar das dificuldades para executar os sinais mais elaborados. Nem percebia as deficiências de meus companheiros e eles agiam como se ignorassem as minhas.
As brincadeiras eram adaptadas às nossas possibilidades. Nunca fui ridicularizado por minhas dificuldades de fala ou de escrita. Eu me sentia adaptado e plenamente integrado. Os professores conheciam e respeitavam nossas limitações. As matérias eram ensinadas de acordo com a capacidade de cada aluno. Eu aprendia à minha maneira e no meu ritmo. As cobranças eram razoáveis e proporcionais. Eu era feliz.
Na nova escola, que, ao contrário da minha, era velha, suja e desorganizada, eu teria de me acostumar a olhares de curiosidade, a máscaras de repulsa, a rostos de deboche, a faces de comiseração. Eu sempre me senti normal, apesar de minhas anormalidades. A paralisia cerebral que deformara o lado esquerdo de meu rosto impedia-me de abrir completamente o olho, reduzia minha visão, e entortava minha boca, dificultando-me a fala. Meu controle motor também era deficiente, tornando meus movimentos bruscos, incertos e desgraciosos. Eu tinha consciência das minhas limitações e da imagem desagradável que transmitia, entretanto, isso passava praticamente despercebido no meu dia a dia: não constituía obstáculo à minha felicidade.
Eu gostava de ler, apesar de minha deficiência visual. Lia diariamente todo tipo de livro. Lia Machado de Assis, Monteiro Lobato, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos e também livros de autores estrangeiros. Gostava de copiar trechos inteiros como forma de exercício, como tentativa de melhorar meu controle sobre minha mão. Apenas meus dedos polegar e indicador da mão direita tinham alguma serventia para mim. Minha mão esquerda, frágil e disfuncional, contorcia-se sobre a palma em direção ao pulso.
Os colegas da nova escola inventaram uma lista enorme de nomes para mim. Esforçavam-se, sem sucesso, para ver em mim uma reação de raiva ou de choro. Parece que sentiam prazer em tentar me magoar. Exibiam sua agilidade diante das minhas impossibilidades, como se essa condição fosse mérito deles e não obra do acaso, como se eu fosse culpado das minhas deficiências.
Em casa, umas poucas vezes minha mãe me perguntou como era a nova escola, se eu tinha feito novos amigos ou se eu estava gostando dos professores. Eu sempre dizia que ia tudo bem, dentro da normalidade. Não queria que ela se preocupasse comigo.
Com o tempo as provocações diminuíram. Os colegas se afastaram de mim e nos intervalos eu podia ler sem ser incomodado.
As professoras não sabiam como me tratar. Achavam complicado entender minha fala e minha grafia. Acho que pensavam que eu era débil mental. As pessoas, em geral, tendem a rotular apressadamente tudo que não conseguem compreender de imediato. Compreender as pessoas dá muito trabalho, toma tempo, é mais fácil classificá-las numa pasta já aberta.
Minhas redações eram ignoradas. Eu as escrevia, dada minha grande dificuldade, intercalando letras cursivas e de forma. Era penoso, para mim, escrever sobre as linhas, pois minha visão de profundidade era precária. Os sinais de pontuação, como vírgula e ponto, eram praticamente imperceptíveis, daí eu tê-los abolido.
A coisa continuaria assim, eu, um adolescente isolado na sala de aula ou no pátio, vítima ocasional de piadas maldosas, tratado como deficiente mental, ignorado pelos professores e perdendo oportunidades de melhorar meu aprendizado, não fosse a sensibilidade de uma professora de matemática.
Um dia ela me viu no pátio, debaixo de um abacateiro, escrevendo uma carta no meu caderno de Português. Pediu-me licença e se sentou ao meu lado... Ainda hoje me lembro vivamente desse primeiro diálogo:
– Como é seu nome, meu querido?
– Eu me chamo Igor. – tive de repetir três vezes para que ela entendesse.
– Que você está escrevendo aí?
– Uma carta. – eu preferi economizar palavras para não constranger a professora a pedir que eu repetisse.
– Uma carta! Que bom! Para quem?
– Para meus colegas.
– E o que você vai dizer nessa carta?
– Vou contar minha história.
– Você me mostraria essa carta quando você a terminar?
– Claro, professora!
Ela olhou em meu rosto. Seus olhos procuraram os meus e demoraram-se me observando. Pela primeira vez em minha vida vi aquele tipo de máscara: uma doce máscara de ternura.
Quando lhe entreguei minha carta, percebi que ela ficou um pouco confusa ao tentar lê-la, mas procurou disfarçar. Prometeu que a leria e depois a comentaria comigo.
Nesse dia, quando a caminho da sala de aulas passei pela porta da sala dos professores, percebi que ela tinha conseguido ler a carta. Ela estava curvada sobre a mesa. Seu corpo fremia. Ela chorava silenciosamente.


Na carta conto que passei meus dois primeiros anos de vida numa incubadora em um hospital público; que dei meus primeiros passos com três anos de idade e só comecei a falar, com grande dificuldade, aos cinco. Nela, confesso que, para mim, aprender a andar foi muito bom, assim como conseguir falar. Afirmo que me sinto muito bem assim, um vitorioso, e que não penso em correr ou em proferir discursos. Admito que gosto da minha vida como ela é, que valorizo cada dia como se fosse único, e para mim é. Revelo que não penso no futuro, que não desejo nada, apenas agradeço a oportunidade e a felicidade de estar vivo. Digo que nunca culpei minha mãe pela tentativa de aborto, pela agulha que dilacerou parte de meu cérebro quando eu ainda me formava em seu útero. Ela devia ter suas razões.