/script> Gabriel Fernandes: Avonidade

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Avonidade



Parece que, quando nossos filhos se tornam adultos e constituem suas próprias famílias, deixamos de ser pais para sermos apenas avós; e vida de avô pode ser uma coisa bastante complicada.
Meu filho decidiu construir sua família e sua carreira profissional no Rio de Janeiro, cidade onde já vivia a família de sua mulher. Seus dois filhos nasceram lá, nas Laranjeiras, bairro de classe média espremido entre o verde intenso de resquícios da Mata Atlântica e a vastidão deserta do mar.
Minha netinha, um pequeno anjo dourado, já comemorou seu quarto aniversário; meu netinho, uma cópia masculina da irmã, se encaminha para o seu segundo. Nesses longos anos de distanciamento, poucas vezes os vi. Além da distância que me separa de meus netinhos, um avô tem sempre a impressão de que está atrapalhando, de que se intromete, de que não é bem-vindo.
Um neto é como um doce alento, um sussurro terno do cosmo em nossos ouvidos desacostumados de amenidades. É como se a vida nos desse um presente inestimável, uma oferenda peculiar que deixa a sensação de que não a merecemos, uma espécie de paternidade tardia, consentida, emprestada. O amor de um avô por um neto é como uma precipitação inexplicável, uma voragem de sentimentos que se apodera instantaneamente do velho, um sopro aprazível que aviva uma chama quase extinta. É como se o tempo lhe concedesse um único e derradeiro milagre: o inencontrável direito de voltar a amar o filho ainda menino, suas fragilidades, seus primeiros gestos, seus primeiros sons, suas pequenas birras, seus primeiros passos... A alegria de se sentir reconhecido; o prazer indescritível de ouvi-lo dizer “Pai!” pela primeira vez.
O avô é um pai postiço, uma espécie de intruso que se arvora o direito de amar o filho dos outros sem pedir licença. Amar, à distância, gera desassossego. Cada reencontro transforma-se numa espécie de histeria provocada pela insegurança. Não estamos certos de que eles vão nos reconhecer, de como vão nos receber, de como vão se comportar em relação a nós. Um avô fica sempre inseguro com sua aparência frusta, às suas maneiras antiquadas, às suas manias de velho. Aos filhos, repugnam nossos conselhos extemporâneos, nossas verdades deslocadas, nossas opiniões que soam como intromissões indesejadas, como interferências indevidas, quase ofensas.
Na última vez que fui visitar meus netinhos, as expectativas eram as de sempre: a menina possivelmente se lembraria de mim, mas o menino, com pouco mais de um ano e meio, como me receberia?
O avião cruzava ruidosamente o céu límpido de outono, embora para mim parecesse estagnado sobre a verde placidez do mar. Eu me incomodava no desconforto do assento exíguo, na monotonia do voo repetido. Não queria pensar, mas a saudade era como um espectro sinistro, um fantasma que roçava minha alma com o visgo de suas mãos frias. Pensava no porquê da vida, no nexo da sucessão de gerações no turbilhão indecifrável das eras. Não encontrava resposta para nada.
Deixei o avião assim que a porta se abriu. A ansiedade me arrojou nos corredores assépticos do Santos Dumont. Eu me deslocava como um sonâmbulo, meus músculos hirtos, meu coração aos saltos, minha mente vaga; apenas um enorme ponto de interrogação parecia ocupar meus pensamentos.
No fim do corredor, a transparência cristalina da parede de vidro revela a alegria incontida da minha netinha que nos recebe aos saltos e gritinhos de satisfação. A avó, tão ansiosa quanto o avô, antecipa-se para receber o primeiro sorriso, o primeiro abraço, o primeiro beijo de Letícia. Eu a secundo.
– Oi, Vovô Gabiel!
Ah, como ansiei voltar a ouvir esse cumprimento!
Eu a pego no colo. Seu abraço apertado, seus beijinhos afetuosos são a confirmação de que um avô também se engana. Eu a carrego no colo como um troféu, um presente inigualável.
O curto trajeto de carro até o apartamento é como um devaneio. Excitada, ela não para de falar, sua vozinha delicada é uma melodia que acaricia meus ouvidos de avô.
À porta do apartamento, me assalta a incerteza em relação ao comportamento que teria meu netinho. Preparo-me para o pior. Talvez ele me estranhe. Talvez procure a proteção da mãe. Talvez chore. Talvez...
Minha nora abre a porta. À minha frente, postam-se minha netinha, minha esposa e meu filho. Vislumbro André no meio da sala. Seu olhar encontra-se com o meu. Um sorriso desenha-se em seu rostinho. Ele corre em minha direção e atira-se em meus braços. Abraça meu pescoço com força e eu o cubro de beijos. Afrouxa o abraço, olha no meu rosto, coloca seu dedinho fura-bolo no meu peito e diz:
- É o Vovô Biel!
Meu coração bate em descompasso. Esforço-me para conter as lágrimas que teimam em desprender-se de meus olhos.
Não consigo, e nem quero, explicar esse novo milagre. Não há explicação para o amor. O amor não tem explicação, é inciência, como escreveu Pessoa.
Foram três dias de exercício de avonidade. Sem pedir licença, posso amar os filhos dos outros sem limites, sem compromissos, sem obrigações, sem constrangimentos e sem as responsabilidades paternais, como gostaria de ter podido amar meus filhos.
No Rio, um passeio na feira é uma espécie de acontecimento. A exiguidade das roupas parece dissipar as diferenças sociais. O morro confraterniza-se com o asfalto. Num canto da praça, um grupo musical embeleza o ar com a sonoridade contagiante do choro. Os cheiros e as cores dos alimentos parecem convidar para uma antecipação do almoço. As bancas de pastéis estão superpovoadas. Um moinho esmaga, com estardalhaço, suculentas hastes de cana.
Sentada sobre uma caixa de bananas vazia, Letícia delicia-se com um enorme pastel de queijo. Ao seu lado, André devora um quibe descomunal. Eu apenas observo. Meus olhos tentam perpetuar em minha mente esse quadro de ternura inexprimível. Absorvo cada gesto, cada palavra, cada expressão facial das minhas pequenas crianças. Queria poder congelar a corrente do tempo, eternizar aquele instante de descontração, de carinho e de encantamento.
A despedida é sempre indesejada e dolorosa. A saudade volta a instalar-se ainda antes de o avião deixar o solo.

Desta vez, a insegurança parece ter se afogado nas águas profundas do Atlântico. Quando perscruto meu coração de avô, só encontro a certeza de um amor profundo; não há mais vestígio de dúvida, de desassossego.