sábado, 8 de março de 2014

Mensageiro do Fim do Mundo



Meus amigos e meus inimigos têm razão em me considerar um radical, minha própria família diz que sou um Arauto da Escatologia, Mensageiro do Fim do Mundo, Profeta do Apocalipse. Com certeza, depois de vinte e cinco anos trabalhando como Consultor Econômico para o Conselho Administrativo e a Diretoria Executiva do maior conglomerado financeiro do país, o cachimbo certamente entortou minha boca.
Como economista, a empresa esperava que, junto com minha equipe, eu apontasse e qualificasse os riscos envolvidos nas operações bancárias, nos planos de investimentos do grupo, nos projetos de crescimento do conglomerado. Nossa Área deveria produzir cenários econômicos alternativos, avaliar suas probabilidades, apontar o que poderia dar errado em cada um e as prováveis consequências de se operar em determinado panorama. Então, era preciso procurar inevitáveis falhas, defeitos escondidos nas políticas econômicas em vigor ou em gestação; avaliar as variáveis determinantes do funcionamento econômico; perscrutar desvios de rota, falhas nas justificativas engendradas pelos gestores da economia, possíveis segundas intenções ou vícios ocultos nas medidas econômicas propostas, sinais de estresse; esmiuçar a saúde das contas públicas, a qualidade dos balanços externos, a situação do mercado de trabalho, as perspectivas de investimentos, a confiabilidade das informações... Enfim, era de minha competência revolver o lixo, seguir rastros, procurar pistas de inescapáveis defeitos ou efeitos colaterais que pudessem levar o trem da economia a descarrilar.
Enquanto todos comemoravam um aparente acerto do governo na condução da economia, o provável sucesso de um novo plano de controle da inflação, de uma nova medida para impulsionar a economia... Eu tentava descobrir uma deficiência oculta que poderia levar a um fracasso no curto, médio ou longo termo; prever a probabilidade de não dar certo, o prazo para que isso ocorresse, as consequências de um fracasso, o tempo de duração de uma provável crise.
Então aprendi a não confiar nas estatísticas oficiais, a procurar informações no exterior, a conversar com economistas estrangeiros, a participar de cursos, seminários e congressos nacionais e internacionais etc., isso por mais de duas décadas e meia. Por isso, quando me aposentei, minha boca estava completamente torta. Não consegui me livrar do hábito de procurar falhas, de tentar enxergar o lado negativo das coisas, de desconfiar dos discursos bonitos, intrincados, ufanistas, enganadores, mentirosos. Eu era um caso perdido.
Hoje, quando leio uma “análise equilibrada” sobre o Brasil, depois de vivenciar, acompanhar e analisar tudo o que já se fez neste país, me convenço de que nossa população padece do mesmo mal que a população de Oran, no romance “A Peste” de Albert Camus.
No livro, Camus conta a história ficcional de Oran, uma cidade situada no Norte de África que mostra os primeiros indícios de estar contaminada pela peste, mas sua população, então anestesiada pelo cotidiano, se nega a aceitar a realidade apesar das evidências apontadas pelo Dr. Rieux, protagonista do romance. O médico sofre pressões para que se cale e é ridicularizado por todos, principalmente pelos governantes, enquanto a peste avança lentamente. Porém, com a multiplicação das evidências, a existência de uma epidemia de peste não pôde ser mais negada: então a população é tomada pelo horror e pelo pânico. Mas já é tarde: a morte se alastra incontrolável como uma enchente.
No Brasil, a peste já se instalou, mas a população se nega a admitir, está impermeável às mais retumbantes evidências, prefere “análises equilibradas”.
Já vivemos sob uma ditadura fascista. Todo o poder está concentrado nas mãos do Executivo. O Legislativo é candidamente “mensalado”; o Judiciário foi tomado de assalto pelo partido que controla o Executivo: não distribui mais justiça, apenas encena para a mídia longos e dispendiosos julgamentos inócuos. As agências e os órgãos públicos foram todos aparelhados pelos partidos de esquerda e têm a função precípua de manter o status quo ou de garantir o avanço da transformação socialista (populista) em curso.
O governo controla, manipula e cala a mídia através de financiamentos generosos, de recursos bilionários oriundos da publicidade de empresas estatais, bancos públicos, autarquias, agências e órgãos públicos; maquia os grandes indicadores de desempenho da economia: a taxa de câmbio, a taxa de inflação, os preços administrados, as contas públicas, as contas externas, as taxas de evolução do PIB, a taxa de desemprego etc.
Num regime fascista, como o nosso, o governo elege os vencedores e os perdedores. Aqui, os vencedores são as grandes corporações bancárias, favorecidas por uma política de juro absurda que encarece o serviço da dívida pública e enriquece os grandes aplicadores, os que sempre se beneficiaram da proximidade com o poder; é a indústria automobilística, com a irresponsável política frouxa de crédito e barreiras alfandegárias intransponíveis que lhes garantem lucros exorbitantes; são os cartéis do cimento, da telefonia, da energia elétrica, da indústria eletrônica; são os oligopólios da indústria da linha branca, dos laboratórios farmacêuticos, das empreiteiras de obras públicas... É a grande mídia oligopolizada que controla todas as formas de comunicação do país. É a aversão tupiniquim ao Capitalismo.
Vivemos em um regime populista, anti-capitalista, como no fascismo italiano, no nazismo alemão, no comunismo soviético ou chinês. Os perdedores são todos os trabalhadores e empresários da classe média que financiam através de impostos extorsivos a farra socialista do PT e dos partidos asseclas que o apoiam. Impostos crescentes que alimentam a corrupção e, através da farta distribuição de assistência pública, garantem a perpetuação desse estado de coisas.
As pessoas se iludem imaginando que a peste ainda não chegou, que padecemos apenas de uma simples virose, que, como o Doutor Rieux, sou um paranoico, um pregoeiro, um arauto do caos. Veja as razões e os sinais!
A cúpula do PT foi instruída e treinada na antiga União Soviética, em Cuba e em outros países comunistas. Suas convicções políticas foram construídas com base na leitura de autores como Maquiavel, Hegel, Marx, Bakunin, Tchernichevski, Pisarev, Netchaiev e Lênin e Chomsky, entre outros. São todos adeptos do niilismo, que é a crença na destruição absoluta da tradição como base para a construção de uma nova sociedade. Na medida em que não se tem tradição, não se é nada além do que se projeta de si mesmo. Quando o ser humano decide acabar com a tradição e cria algo novo, sem nenhuma relação com a tradição, necessariamente despenca no vazio, no nihil. Veja o exemplo de Brasília, uma obra do comunista Niemeyer que simplesmente elimina qualquer relação ou referência com o que se conhecia como arquitetura tradicional. Prevalece a forma em detrimento da funcionalidade, repudia-se a tradição.
Em O que Fazer?, Tchernichevski apresenta sua tese. Esse livro é uma espécie de cartilha do que o intelectual russo deveria fazer para criar um novo mundo, ao operar a transposição do projeto socialista moderno para a Rússia. Foi o livro de cabeceira de Lênin. Tchernichevski expõe nessa obra toda a agenda da transformação socialista, a cartilha de destruição da tradição, o primeiro passo revolucionário, pois acreditava que enquanto isso não for feito o indivíduo continuará assombrado pelo passado. O Movimento Modernista de 1922 está na raiz de nosso atraso social e intelectual. O Manifesto Antropofágico é a cartilha que nos levou ao populismo, à ignorância e à indigência intelectual.
A mesma tática foi empregada por Moisés com a finalidade de eliminar a tradição adquirida pelo povo hebreu durante sua permanência no Egito. Moisés obrigou os judeus a vagarem pelo deserto durante quarenta anos até que todos os adultos fugidos do Egito tivessem morrido e as crianças e jovens tivessem sido educados sob a nova doutrina.
Em Tchernichevski, ainda está presente a ideia de destruição para a construção de algo novo, enquanto a geração de Pisarev, já consciente da impossibilidade de se construir um mundo novo no tempo de duração de uma vida, propôs, simplesmente, a destruição do mundo tal como se conhece: ele chegou, assim, à essência do niilismo.
A Revolução Russa começou com a destruição de tudo: da família, dos laços afetivos, da relação pais-filho, dos valores ancestrais, do Estado, da Igreja, da fé, enfim, foi só destruição.
Em seu discurso revolucionário, Netchaiev prega a criação de boatos que desestabilizem a sociedade, que gerem tensão dentro das próprias famílias, dúvidas entre pais e filhos, marido e mulher, de maneira a inviabilizar os laços familiares e dividir a sociedade. Segundo ele, uma pessoa nunca tem valor em si; o que define o valor de alguém é o caráter de utilidade que ela possa ter para a revolução. É a isso que assistimos com tristeza em nossa pobre sociedade e em países vizinhos.
Bakunin, quando indagado por que não propunha nenhum modelo de sociedade, dizia que não poderia construir nada porque era fruto de uma sociedade podre, de modo que o máximo que poderia fazer seria autodestruir-se, destruindo assim a própria sociedade na qual estava inserido. Sua ideia era a superação do modelo baseado no Estado, em direção a uma sociedade anarquista.
Do ponto de vista prático, porém, só existe destruição, não se consegue projetar nada que não seja puramente utopia e o saldo real desse processo resume-se apenas na destruição. Para a o niilista não há diferença entre História e ficção, por isso pouco importa o significado das palavras. História não existe; não é nada além da tradição que deve ser destruída; não tem nenhuma relação com a verdade já que esta não existe. A verdade é simplesmente um conceito criado para aprisionar as pessoas em crenças e deter sua autonomia. Se História é ficção e pode ser mentira, pouco importa então o que o narrador conte.
Se observarmos a realidade que nos cerca, com um mínimo de atenção, reconheceremos os sintomas claros, evidentes, incontestáveis da praga que mencionei acima. Na sociedade brasileira não existem mais cidadãos: fomos todos divididos e classificados segundo nossas características utilitárias: sem-teto, carentes, minorias, sem-terra, excluídos, homossexuais, moradores de rua, heterossexuais, burgueses, índios, afrodescendentes, pardos, brancos, usuários de droga, capitalistas, progressistas, conservadores, reacionários, elite, miseráveis, militantes, facções, assistidos, caretas, apenados, portadores de necessidades especiais, menores carentes, idosos... E pagadores de impostos: nós que assistimos a tudo sem a menor consciência da doença que nos acomete lenta e silenciosamente e que inexoravelmente levará à morte de nossos direitos, de nossa liberdade, de nossa individualidade. Veja o que já aconteceu com Venezuela, Equador, Nicarágua, Bolívia e Argentina, só para citar alguns lamentáveis exemplos.
Peço licença para um parêntese: A educação liberal, a partir dos anos 1960, produziu uma sociedade complicada. Esse modelo, que aboliu a hierarquia, não funciona, não tem como levar à organização, ao equilíbrio. Nesse modelo, os filhos têm de desconstruir os pais, pois, dessa forma, o caos se instala, não havendo possibilidade de hierarquia, tradição e conhecimento. Reporte-se à pregação utópica e inconsequente de Chomsky.
Um pai, um indivíduo adulto, maduro, não pode abdicar dessa condição e fazer parecer que está na mesma situação de um garoto de um adolescente. A geração dos pais liberais faz isso por não suportar a responsabilidade de assumir o que pensa, o que sabe, o que conhece... O que considera desejável para o filho.
A educação liberal, a ideia de que a natureza humana entregue a si mesma vai encontrar o seu caminho, vai seguir na direção certa, na realidade está preparando a destruição. O moderno não consegue construir tradição, uma vez que o discurso da modernidade pressupõe razão e o exercício da razão é um questionamento constante que nunca consegue se fixar, chegar a um termo, se estabelecer. Estamos desconstruindo nossa sociedade e vamos descobrir no final que não somos nada. Por que um filho educado nesses padrões não iria aplicar ao pai a mesma lógica se lhe foi ensinada: que tudo é relativo, contextual, que tudo depende do caso? Por que não iria aplicar essa lógica ao pai, aos outros seres humanos, ao Planeta?
O relativismo, na qualidade de mero diálogo, fracassa, pois os filhos percebem que se trata de fraqueza dos pais, de sua incapacidade de dar as respostas pedidas. Para os governantes, é melhor que os indivíduos acreditem no relativismo, na educação liberal, pois assim o poderoso da hora pode apresentar qualquer coisa como bem intencionada que os indivíduos inadvertidamente o seguirão.
A revolução começou nas escolas ao abolir-se a hierarquia, ao criar-se a horizontalidade entre gestores, docentes e discentes: os inaceitáveis tio, tia, você. Ao ensinar a uma criança que ela deve se defender contra toda e qualquer crítica, que ela deve sempre procurar o ponto de vista pelo qual sustenta o que faz, o que pensa, o que quer, na realidade está se construindo o egoísmo, o repúdio à autoridade, ao respeito, ao altruísmo, à solidariedade... À tradição. A evolução do jogo relativista (tudo depende do ponto de vista) é a entrada do indivíduo no niilismo epistemológico, afetivo, político, enfim, niilismo em todos os aspectos da vida.
Agora assistimos mais nitidamente à proliferação da peste. Uma endemia cultuada há décadas finalmente transformou-se em uma epidemia. Hoje as pessoas gritam nas ruas assustadas com os sinais inegáveis da doença. Talvez seja tarde demais. O Doutor Rieux talvez tenha desperdiçado em vão seus esforços em denúncias nunca compreendidas. 
Vaticinou o Mensageiro do Fim do Mundo, o profeta do Apocalipse. Acredite Vossa Mercê ou não.