/script> Gabriel Fernandes: Falhas de Comunicação

terça-feira, 25 de março de 2014

Falhas de Comunicação

Eu estava na roça, em minha oficina, quando ele entrou. Como de hábito, suas mãozinhas foram mais rápidas do que seus olhos. Logo ele tentava pegar um objeto que estava sobre a bancada.
Ele está na idade do o-que-é-isso? e eu já respondera essa pergunta incontáveis vezes nos últimos três ou quatro dias:
- O que é isso, tio? – e suas mãozinhas ágeis e espertas tentavam arrastar o objeto de cima da bancada.
- Calma, Leo, isso é muito pesado e pode machucar você.
- Posso blincar com isso? – e continuava a tentar puxar o objeto para si.
- Você nem sabe o que é isto?
- O que é isso, tio?
- Isto é um pé-de-ferro?
- O que é um pé-de-felo?
- Um pé-de-ferro é isto que você está vendo?
- Posso blincar com o pé-de-felo, tio?
- Mas você nem sabe pra que serve um pé-de-ferro? – eu testava a paciência do pequeno.
- Pra que serve um pé-de-felo? – ele era rápido e decidido.
- Serve pra consertar sapatos. Quando eu era do seu tamanho, não havia sapateiros no bairro em que eu morava e meu pai consertava nossos sapatos: trocava a sola, trocava os saltos, pregava reforços de metal nos saltos e no bico das solas. Em casa havia sempre couro, cola de sapateiro, reforços e tachinhas pra se fazer os reparos.
Pude ver uma enorme interrogação desenhar-se no rosto corado do Leozinho. Certamente ele não fazia a menor ideia do que eu estava tentando lhe explicar. Couro? Tachinhas? Reforços de metal? Cola de sapateiro?...
Diferentemente daqueles tempos em que os sapatos tinham muito melhor qualidade e duravam até nossos pés não caberem mais neles, ou até um pouquinho mais – já que sempre havia o recurso de lhes cortar os bicos para que os dedões pudessem respirar livremente -, os calçados de hoje são feitos para durar pouco e a grande maioria possui solados inteiriços de borracha. Então, o menino não tinha culpa de não compreender minhas explicações.
Voltei a olhar para o Leo e ele estava com um pé de tênis na mão:
- Posso consetar meu tênis, tio?
Fiquei surpreso com a reação da criança e feliz por achar que ele tinha entendido minha história e que eu poderia lhe ensinar alguma coisa curiosa dos meus tempos de menino.
- Claro, mas eu vou colocar o pé-de-ferro no chão porque é muito pesado. Cuidado pra não se machucar!
Coloquei a velha e pesada ferramenta no chão e o Leo começou a virá-lo de um lado para o outro. Dei um tempo esperando que ele conseguisse encaixar o pé de tênis no pé-de-ferro e me pedisse, como de costume, alguma ferramenta para realizar o conserto.
Depois de muito vira-vira, estuda-estuda, vira-vira, e vendo que o Leo tinha dificuldade para realizar a operação, decidi ajudá-lo. Mostrei-lhe como encaixar o tênis e esperei a reação do pequeno.
Ele não me pediu um martelo ou tachinhas como eu esperava. Olhou para mim com a cara mais feliz e entusiasmada do mundo e, para minha surpresa, me perguntou:
- Tio, como é que a gente liga o pé-de-felo?