domingo, 10 de novembro de 2013

As Mulheres de Sempre



Uma amiga me confidenciou que tem tido problemas com a mãe. De uns tempos para cá, a senhora começou a adotar atitudes bastante estranhas: passou a se maquiar excessivamente, insiste em usar as saias e os vestidos com a barra acima dos joelhos, inferniza a filha dizendo que vai instalar próteses de silicone nos seios e, o que é o pior, quer ir sozinha comprar bugigangas na Rua Vinte e Cinco de Março.
Minha amiga tenta contemporizar, convencer a mãe de que o tempo passou, de que ela não tem mais idade para isso, que a cidade está muito perigosa... Mas nada a demove de seu comportamento.
A coisa seguia nesse diapasão e assim ficaria não fosse um telefonema do zelador do prédio onde mora a senhora pedindo a filha para que fosse ver a mãe imediatamente, pois esta estava descontrolada, aos gritos, proferindo palavrões impronunciáveis e tirando o sossego dos demais condôminos.
Minha amiga me disse que colocou um peignoir por cima do pijama e dirigiu como louca até o apartamento da mãe onde encontrou a mãe aos gritos:
- Seu pai é um canalha! - vociferava a senhora - É um cafajeste, um mulherengo à toa, está me traindo com essas ordinárias, com essas meretrizes desclassificadas.
- Não é possível, mamãe! – tenta argumentar a filha - O papai não seria capaz disso, ele sempre foi um bom pai, um homem comportado, sempre amou muito a senhora.
- Aquele boêmio, aquele donjuán sem-vergonha, bêbado desnaturado, sempre correndo atrás de um rabo de saia!
- Mas, mamãe, o papai nem bebia e nem era dado a noitadas!
Mas não adiantava, a senhora não se dava por convencida, continuava a esbravejar, a atacar implacavelmente o marido.
Cansada de tentar convencer a mãe e vendo a cara de poucos amigos do zelador em pé na porta da sala, a filha resolve usar o mais forte argumento de que dispunha:
- Mamãe, o papai morreu há quase vinte e cindo anos!
A velha senhora interrompe a gritaria por alguns segundos. Fica completamente estática parecendo mergulhada em profunda reflexão, mas logo recomeça. Seu berreiro, porém, sofre uma grande mudança:
- Meu pobre Afonso! Nunca existiu homem melhor do que você! Marido fiel, pai exemplar, ninguém pode dizer uma palavra contra sua honra, homem da minha vida... - E cai em um choro inconsolável.
 Nessa altura do campeonato o zelador já tinha voltado para a cama. A filha consegue colocar a soluçante mãe na cama e voltar para casa, acreditando que tinha solucionado o problema, mas a coisa apenas tinha mudado de forma.
 Agora a velha  senhora, sempre vestida de preto, inferniza toda a família querendo saber por que não guardam luto pela morte de seu adorado Afonso.
E eu que tinha esperança de que com o passar dos anos as mulheres se tornassem mais razoáveis, mas parece que nunca mudam, assim como não mudou a mãe de minha amiga que já completou noventa e cinco anos.
Ainda bem!