sexta-feira, 4 de outubro de 2013

Os Meninos e os Cegos




Às vezes me pego pensando no passado e, inexplicavelmente, algumas imagens esparsas se fundem e ressurgem em minha mente, claras, nítidas, tão reais como se me fosse possível tocá-las. Há pouco me lembrava dos cegos que pelas ruas da minha infância vendiam espanadores, vassouras, escovas e flanelas amarelas produzidas por eles mesmos no Instituto de Cegos Padre Chico, no Bairro do Ipiranga.
Qualquer manhã, não importa a estação, lá vem o cego subindo a minha rua, a mão apoiada no ombro de um negrinho de cabeça raspada com máquina zero, de um sarará de cabelo curtinho, de um mulatinho magricela de pés no chão ou de um moleque branquinho de cabelo escovinha colado na cabeça pelo suor profuso: todos cúmplices na mesma pobreza. Carregado de tralhas, os espanadores de penas coloridas, vistos de longe, faz o cego lembrar um pavão surreal, uma criação de Dalí ou uma obra-prima expressionista de Kirchner ou Feininger.
Param diante de minha casa: o menino toca a campainha e aguarda. O cego, olhos fundos, balança a cabeça para os lados tentando, talvez, localizar o portão ou o jardim que jamais poderá vislumbrar no mundo singular de sua escuridão perpétua. Minha mãe compra alguma coisa para ajudá-los; o calor está forte, lhes oferece limonada com sumo fresquinho de limões apanhados no pomar. Agradecem, despedem-se e seguem sua rotina: o pavão e seu arrimo, uma montagem digna de uma exposição do Museu de Arte Moderna, o MAM.
Hoje os meninos já não podem conduzir os cegos. Os cegos e sua cauda de pavão desapareceram das ruas das cidades para sempre. Por outro lado, por desprezar as razões e os valores do passado, a sociedade se vê mergulhada num mundo de escuridão onde a levou sua presunção, sua petulância e sua arrogância desmedidas. Tenta descobrir pelo tato a porta de saída, da qual não pode sequer intuir o contorno.
Agora são os cegos que conduzem os meninos. Cegos por ideologias calamitosas; cegos por ignorância atávica; cegos por preconceitos absurdos; cegos por interesses egoísticos inconfessáveis.
Há uma total inversão de valores. Os jovens querem nos ensinar o que não podem compreender sequer minimamente. Querem nos impor um vocabulário - uma Novilíngua, como previa Orwell - politicamente correto, como se o termo deficiente visual definisse alguma coisa, como se isso eliminasse os cegos, como se estes voltassem a enxergar. Isso vale para inúmeros outros termos que tentam nos impingir e que apenas dificultam a comunicação, constituem esforços para mascarar a realidade, não acrescentam nada de útil.
Criaram-se ONGs, associações, entidades, instituições e estatutos para proteger os meninos: os pretinhos, os mulatinhos, os sararás, os branquinhos de cabelo escovinha colado na cabeça pelo suor profuso, os de todos os matizes. Aos moleques foi garantido o direito de vagabundearem pelas ruas, de assaltarem nos semáforos, de associarem-se em quadrilhas, de morrerem prematuramente.
Os meninos foram tirados dos cegos e entregues aos traficantes de drogas, de alma escura como o mundo dos cegos, mas de olhos sãos, capazes de enxergar a fragilidade do tecido social, capazes de reconhecer a pusilanimidade e a inépcia dos poderes constituídos, capazes de ignorar o mundo calamitoso que criam. Hoje os meninos fazem parte do cenário surrealista ou expressionista das grandes concentrações de drogados espalhadas país afora com o triste epíteto de cracolândia.