quarta-feira, 18 de setembro de 2013

Sintomas Difusos


O tempo é nosso maior inimigo, é o que me diz sempre um amigo querido. Como todo mundo, ele também não aceita muito bem a passagem do tempo e, de uns tempos a esta data, passou a não gostar de ser fotografado ou filmado e nem de ver seu rosto refletido num espelho. A gente pode pensar que é excesso de vaidade, narcisismo, futilidade,... Mas não, não é, a coisa tem, segundo ele, uma explicação simples, aceitável, lógica: a imagem que o espelho lhe devolve não é ele, não guarda relação com o jeitão do cara que um dia foi e que, em sua mente, ainda acredita ser. Por isso, diz que não se detém olhando o sujeito do espelho, nem perde tempo cuidando de sua aparência como perdia há alguns anos.
Mas, alguns sintomas da passagem do tempo não são tão imperceptíveis a ponto de poderem ser ignorados, a ponto de poderem ser confundidos com sintomas difusos de outros problemas. Algumas coisas acontecem que deixam a gente em situações embaraçosas, constrangedoras mesmo, mas tendemos a minimizar a gravidade dos fatos, a considerar que são triviais, que acontecem com pessoas de todas as idades e não se relacionam necessariamente à idade; então não nos preocupamos, deixamos a vida seguir.
Entretanto, algumas ocorrências são preocupantes, acendem uma luz vermelha, são como sinais que indicam que a coisa está ficando feia, que a vaca está indo pro brejo.  É como se um caminhão sem freio carregado de esterco fresco de vaca (para continuar no tema), numa estrada estreita, sem acostamento e cercada de barrancos, invadisse a contramão numa curva e surgisse de repente a nossa frente. Criou a imagem? É isso. Você entendeu.
Acho que alguns exemplos podem ser edificantes, vejamos:
Você levanta de madrugada para ir ao banheiro e fica parado diante do espelho com cara de otário se perguntando que diabo está fazendo ali;
Você põe pra ferver a água pro café, coloca sobre o bule o porta filtro, pega o pó e despeja três colheres, antes de colocar o filtro no devido lugar;
Você fica contando os buraquinhos vazios da cartela de remédio pra pressão alta, tentando descobrir, com o recenseamento dos furinhos, se já tomou a dose do dia;
Você sente um gosto amargo na boca, se desespera, acha que está com alguma doença grave no estômago ou no fígado e descobre que está escovando os dentes com o creme de barbear...
Meu amigo foi vítima de uma desgraça que parece pertencer à mesma família dessas mencionadas acima.
Ele tentava remediar a irritação da garganta provocado pelo ar seco de inverno, pela poluição do ar ou por um bando de vírus desgraçados, ou pelo concurso de todas as alternativas anteriores, com a aplicação de alguns jatos de extrato de própolis, que ele tem certeza que é inócuo, mas que sua mulher considera um santo remédio.
Durante todo o dia apertou a bendita válvula dirigindo o jato para sua garganta, operação simples que até um cara da idade dele é capaz de executar. O Diabo, porém, tem sua própria agenda e gosta, muitas vezes, de pregar peças nos cristãos, e meu amigo, que não é cristão, acabou se dando mal.
Sobre a escrivaninha estavam lado a lado o spray de própolis e um frasco de líquido para limpar lentes de óculos. Ele admite que até possa haver entre as duas embalagens alguma leve semelhança, mas muito leve.
Como de hábito, pegou o spray e o apontou em direção à garganta. Foram quatro “jatadas” generosas. Além do ardor que provocou em sua garganta, o sabor horroroso de sabão disparou uma série de espasmo que o fez colocar as tripas pra fora. A agonia durou quase uma hora.
Porém, meu amigo não ficou revoltado, sua única queixa foi não ter apontado o jato para os olhos, assim, talvez passasse a enxergar com mais clareza e reconhecesse que o velhinho que toda manhã o observa do espelho do banheiro é ele mesmo, sim senhor, ou melhor, o que restou dele.