/script> Gabriel Fernandes: Cenas Urbanas

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Cenas Urbanas


Podem me acusar de ter ficado velho, mas antigamente as mulheres, na sua maioria, pareciam me despertar sentimentos diferentes dos que me despertam hoje. Antes era fácil descobrir numa mulher um detalhe pessoal que realçava um traço particular de sua beleza, que a tornava agradável ao olhar, que a fazia parecer bonita aos meus olhos. Toda mulher era bonita, bastava tomar um tempo analisando sem pressa, com certa profundidade, com os olhos perspicazes de um esteta ou de um incorrigível romântico, como eu, que ainda ama e respeita as mulheres.
Hoje são todas parecidas - e não deve ser por causa de minha presbiopia - e o primeiro sentimento que muitas delas me desperta é de espanto, isso num exame superficial, depois variam da aversão à piedade. Sei que não são sentimentos bons, mas são elas que evoluíram para essa subespécie que povoa as ruas. Mas, não quero me estender; não quero escrever um ensaio sobre esse assunto. Vamos aos fatos.
Passeava com o Platão, meu amigo canino, quando repentinamente a tarde resolveu escurecer mais depressa do que deveria. Começou a soprar uma brisa um pouco mais forte, daquelas que trazem aquele cheirinho gostoso de uma chuva que já cai em algum lugar. Era fim de tarde, as calçadas estavam povoadas por pessoas que deixavam o trabalho. Então, uma gota desprevenida de chuva caiu em algum lugar - acho que foi isso -, mas ainda estava longe de chover a esperada chuva que não viria. Logo algumas mulheres começaram a apressar os passos temendo uma improvável borrasca. Aí ocorreu o fenômeno: de repente, como que comandados por um maestro onipotente, autoritário e invisível, sombrinhas, guarda-chuvas, lenços, jornais e revistas se abriram imediatamente sobre a cabeça das mulheres que se puseram a correr como galinhas sem cabeça correm no quintal no dia do abate: algumas constrangidas, outras desembestadamente, tentando proteger as frágeis, fugazes e caras coberturas que lhes envolviam a cabeça.
Eu sabia que a chuva não viria e que aqueles minúsculos pingos d’água haviam se desgarrado, como filhotes de carneiro, do rebanho que passaria bem a largo.
A cena foi comoventemente hilária. Tratava-se de mulheres de várias idades, estaturas, pesos, trajes e classes sociais. Fiquei imaginando como aquele acontecimento tão prosaico poderia impactar aquelas mulheres tão indiscriminadamente. Por fim, me dei conta que é o império da mídia. Bem-feito, pensei, é a isso que leva a falta de personalidade e a ausência de objetivos sérios: centrar o foco em aspectos banais e passageiros, dar a isso uma importância que não possui e relegar o que realmente conta a um plano inferior, muito inferior. Parece que atualmente conta mais o que a mulher leva fora da cabeça do que dentro. Os meios de comunicação conseguiram criar mulheres virtualmente acéfalas.
Comecei a rir intimamente, mas, não aguentei, tive de compartilhar com meu amigo Platão:
- Você viu, meu querido, o que a propaganda faz com as pessoas? Aposto que você nunca vai ver uma linda Poodle com os pelinhos alisadinhos abrir uma sombrinha ao menor sinal de chuva.
Ele olhou para mim com aquele olhar complacente de quem olha para um ser inferior e, condescendente, pareceu me responder:
- Jamais, velhinho, o privilégio dessa humilhação é estritamente humano.