segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Namastê

"O Deus que há em mim saúda o Deus que há em ti”.
Saudação em Sânscrito

 UMA densa neblina cobre o porto de Hamburgo e um vento frio assola as ruas da cidade nascida às margens do Rio Elba. O sol não faz menção de romper as nuvens baixas, apenas clareia palidamente o céu mais próximo do horizonte formando uma estreita linha prateada. Será mais um dia úmido e cinzento de inverno, de cafés lotados, de praças vazias.
Sentada diante de seu computador, Anne sonha com o verão, com as praias quentes de Côte D’Azur, com as férias passadas na Riviera Francesa havia poucos meses. O editor-chefe da revista Der Spiegel a tira de seus devaneios ao chamá-la a sua sala.
– Anne, aquele seu projeto sobre Bernardo, o menino brasileiro que toca Bach com  virtuosismo, foi aprovado pela diretoria. Você vai passar uma semana no Rio de Janeiro. Escolha um cinegrafista freelancer para ir com você.
– Obrigada, chefe, não vai se arrepender!
– Não se esqueça de que quero material para reportagem de duas páginas.
– Com certeza.
– Boa viagem! Cuidado com os brasileiros! Você conhece a fama de galantes que eles têm...
Ich kann mir helfen! – garante que saberá se defender.

 Filho de uma jovem indiana que vivia clandestinamente no país e de um mulato morto por uma bala perdida na entrada da favela em que morava, ou pela polícia, por ter sido confundido com um bandido, o menino brasileiro chamou a atenção da diretora da escola infantil que frequentava na favela da Rocinha. Com apenas quatro anos de idade, começou a ter aulas de música com uma professora do Centro Cultural que ficava num velho sobrado na Estrada da Gávea, principal acesso à favela. Aos sete anos, Bernardo foi levado à Escola de Música da UFRJ, onde logo de início causou sensação, maravilhando os novos colegas, professores e maestros com sua capacidade de memorizar partituras e o brilhantismo de suas execuções.
Menino introspectivo, criado segundo as tradições budistas da mãe, Bernardo sobressaía-se pela boa educação, inteligência, disciplina, extrema facilidade de aprendizado e comportamento cordato e gentil. Seus dedos dançavam sobre as cordas do violino como num bailado mágico e, em sua mão, o arco flutuava com leveza e precisão absolutas. Ele tinha sonhos, muitos sonhos, mas o maior de todos era tirar a mãe daquele lugar. Sabia que aquela era uma vida consentida, que nada do que tinha ali era seu. O barraco pertencia ao chefe do tráfico, a quem a mãe pagava, além do aluguel, a luz, roubada através de gatos e o gás levado a custo morro acima. O traficante tinha o poder sobre a vida e a morte dos moradores, decidia quem podia viver e quem devia morrer. Bernardo queria viver. Sabia que podia assombrar o mundo com o dom que lhe havia dotado o acaso. Sabia que era um ser especial, escolhido pelo destino para levar a música sublime de Bach a todos os ouvidos.
Quando descoberto, sua história chamou a atenção da imprensa sensacionalista do mundo inteiro, mas informações posteriores sobre sua evolução, como costuma acontecer, nunca foram divulgadas.
Aos onze anos, Bernardo se prepara para uma apresentação no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, onde deve executar o Concerto de Brandenburg número 3, de Bach, adaptado para quarteto de cordas.
A história do menino talentoso chegou, via internet, ao conhecimento de Anne que, apaixonada por Bach, decidiu conhecer o pequeno prodígio. Para a Revista, famosa por suas reportagens de cunho político e sua preocupação com a arte, o investimento no projeto de Anne era apenas mais um pequeno esforço de investigação, mas para ela poderia representar a reportagem de sua vida.
A jornalista alemã chega ao Rio na manhã de um sábado ensolarado de verão, hospeda-se num hotel em frente a pedra da Gávea e no domingo, no meio da manhã, parte em busca de sua história.
Em um táxi, Anne atravessa o túnel Zuzu Angel e, antes de pegar a avenida da Lagoa, entra na travessa da Alegria que leva ao morro da Rocinha. O carro segue vagarosamente em direção ao Largo do Boiadeiro.
No grande largo, dezenas de coloridas e desengonçadas barracas de marreteiros espalham-se desordenadamente, competindo com o comércio popular de inúmeras lojas que abrem suas portas para as calçadas esburacadas. No meio da rua, um homem posta-se ameaçadoramente diante do táxi, levanta a barra da camisa azul e mostra uma pistola presa ao cós das calças. O taxista para o carro e diz à intérprete que acompanha Anne:
– Temos que esperar aqui! Não digam nada e nem façam nenhum movimento brusco!
Alguns metros à frente, um policial à paisana desce de uma viatura da Patamo. À mão, traz algum objeto embrulhado em papel pardo. Um negro alto e forte aproxima-se, diz qualquer coisa e entrega-lhe um pequeno saco plástico. Pega o pacote pardo da mão do policial, apalpa-o por alguns segundos e desaparece entre a multidão que povoa o caos do largo. O policial volta para a viatura que demora um pouco a partir. O motorista parece conferir o conteúdo do saco que recebeu da mão do colega. Então, a viatura afasta-se lentamente.
O homem da pistola volta a se aproximar do taxista e ordena que os passageiros desçam. Anne e o cinegrafista estão apavorados. A intérprete parece acostumada à situação. O homem ordena que sigam à frente, sem pressa, e os acompanha alguns passos atrás. Passado o largo, ele os alcança e exige o pagamento combinado antecipadamente com a intérprete. Anne passa um envelope à interprete que o entrega ao homem de camisa azul.
Um garoto descalço, de cerca de doze anos, aproxima-se sem pressa, com arrogante autoridade e atrevimento.
– O irmãozinho vai levar vocês! – informa, antes de voltar para o largo e desaparecer entre a multidão. O volume na cintura do moleque não deixa dúvidas de que ele também está armado.
O grupo sobe o morro. O cinegrafista não aponta sua câmera sem que tenha obtido a prévia autorização do garoto. Anne tenta memorizar o maior número possível de detalhes. A intérprete não para de falar, tentando ocultar seu medo, tentando se mostrar familiarizada com a situação e justificar sua contratação. Os moradores olham a pequena caravana com aparente desinteresse.

 Bernardo coloca sua melhor roupa. Capricha no penteado e ensaia seu melhor sorriso. Coloca o estojo com o violino às costas, como uma pequena mochila, e deixa o barraco:
– Namastê! – lhe diz a mãe.
– Namastê! – ele retribui, juntando as mãos espalmadas na direção do peito e fazendo uma leve reverência.
O dia está claro. Uma brisa morna sopra do mar e se perde entre os barracos que desfiguram o morro. As roupas nos varais ondulam suavemente e um cheiro de comida se mistura à maresia que sobe o morro junto com o vento.
O menino desce as ruelas estreitas e as escadarias irregulares até parar sobre uma pequena área cimentada a meio caminho da cidade lá embaixo. Ele está ansioso e feliz. Sente possuir uma mônada de Bach. Na sua mente martela a melodia sublime do movimento allegro moderato do concerto que irá interpretar. Seus lábios trauteiam quase imperceptivelmente.

O negro alto e forte sobe o morro com passos amplos e rápidos. O pacote pardo pesa em suas mãos. Passa por algumas sentinelas armadas antes de sumir atrás de um paredão provido de espias e entrar numa espaçosa construção de alvenaria.
– Taí o cano, bródi! – diz o negro ao entrar.
O chefe se levanta do sofá. Um homem branco, sem camisa, barriga proeminente, barba por fazer, olhar de ave de rapina, gestos rudes. A sala cheira a bebida, fumo, urina e suor. Uma lâmpada de filamento pende do teto emprestando ao lugar uma luminosidade amarelada e mortiça. A luz ilumina languidamente o corpo seminu de uma negra que ressona de bruços sobre umas peças de roupa jogadas no chão em um canto da sala.
O marginal toma o pacote da mão do negro, rasga-o afoitamente e descobre um fuzil Kalashnikov de fabricação russa totalmente sem uso. Parece extasiado. Monta a arma e a municia. Examina-a minuciosamente, acaricia a coronha e o ferrolho, observa detidamente o cano, ajusta a mira.
– Porra! É da lata! Vou ter que experimentar.
Deixa a casa e dirige-se ao muro que a cerca. Coloca o cano da arma em uma das vigias e mira em todas as direções imitando com a boca o som de tiros.

Anne aproxima-se do patamar em que está Bernardo. Autorizado pelo moleque, o cinegrafista aponta a câmera em direção do pequeno violinista. A intérprete, já sem fôlego, segue logo atrás. Bernardo mostra seu melhor sorriso. Anne retribui com satisfação. O jovem gênio junta as mãos em frete ao peito, faz uma pequena reverência e diz:
– Namastê!
Nesse instante, Bernardo escuta o estampido de um tiro de fuzil. Foi o último som que ouviu.