segunda-feira, 14 de novembro de 2016

A Vidraça


Que me dirás esta noite?
A escuridão funesta que chega
Já bordeja minha janela.
Ruas despovoadas, praças desertas,
Apenas o improvável parece mover-se
Na negra mortalha do céu.

Os hálitos fétidos
De anjos sinistros, de demônios terríveis,
Turvam minha vidraça
Que os contornos da minha cidade
Distorce, desfigura, corrompe...
Caleidoscópio de formas e sombras
Que não sei decifrar.

Que me dirás esta noite de solidão plena,
De absoluta desolação,
Em que correm em minhas veias
Os mais mortais venenos?
Os sons se emaranham e os ecos
Vêm morrer no frio dos meus lençóis.

Minha mente se embaraça
Num caos de indefiníveis sensações
Que embaçam os meus olhos.
Meu rosto a vidraça distorce, deforma, corrompe...
Caleidoscópio de incertezas e medos
Que não sei decifrar.

Que me dirás esta noite?
Que o tempo escorre em minha vidraça,
Que teimo em auscultar a vida que escoa como lenta ameaça,
Que insisto em descobrir quem é esse fantasma que grita em minha cabeça
E me pergunta por que vivo,
Por que temo a noite que se avoluma lá fora,
Por que carrego um coração impregnado de trevas,
Por que não deixo o sono extinguir meus sentidos,
Que espero ainda, por que não permito que o pranto lave meus olhos?
E que indaga quem sou...
Respostas que não tenho.

Que me dirás esta noite?
Que já fui antes,
Que já experimentei outros medos,
Que o tempo corre em minhas veias como um terrível veneno,
Que lentamente morrem os sons em meus ouvidos,
Que as luzes que traspassam minha vidraça
Aos poucos se apagam para os meus olhos?

Não me pergunta quem sou!
Sou quando?
Sou - quem sabe? - um frágil lampejo da eternidade.

Que me dirás esta noite?
Que conheces os segredos do Tempo,
Que existe antídoto para meu mal,
Que ainda serei depois,
Que o sol rasgará o manto negro das trevas,
Que ainda haverá uma nova manhã,
Que não beberei mais as sombras que filtra minha vidraça?

Não me pergunta quem sou!
Resposta que não tenho.
Quem sabe seja simplesmente enquanto,
Quiçá um breve despertar no sono da eternidade.

Que me dirás esta noite?
Talvez apenas venhas me dizer adeus.

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

Era Uma Vez Um Burro



Era uma vez uma linda floresta, longe de tudo, onde viveu um burro que não gostava de ser chamado de burro. Ainda muito pequenininho, apenas um burrico, começou a desconfiar de que ser burro não devia ser bom, devia ser uma coisa ruim. Todos o olhavam com expressão de deboche, de desprezo, de repulsa ou de comiseração. Todos evitavam sua companhia: o pobrezinho vivia sempre sozinho.
– Mamãe, não quero ser burro!
– Não posso fazer nada, meu querido, o papai e a mamãe também são burros. É a nossa natureza.
– Então, vocês não deveriam ter me posto no mundo. Eu não queria ser filho de vocês. Tenho vergonha de ser burro. Eu tenho vergonha de vocês.
A mãe não teve resposta para dar ao filho. Ficou deprimida. O pai prometeu tirar a vergonha do filho com uma boa surra de relho.
Um dia o burrico pastava num amplo campo próximo de sua casa quando uma raposa se aproximou silenciosamente. “Vou gozar desse burrico – pensou –, eles são uns boçais muito engraçados.”
 – Bom dia, burrico, contando o capim?
O burrico não respondeu. Apenas mostrou para a raposa sua cara triste, seu olhar de profunda amargura. A raposa ficou penalizada diante da expressão abatida do pobre burrico.
– O que você tem, meu querido?
– Não quero ser burro. – tartamudeou o burrico.
– Como é isso? Você não pode mudar a sua natureza!
– Não quero ser burro! – repetiu o pequeno.
A raposa calou-se por um bom tempo. O burrico parou de pastar. Apenas olhava a distância, a visão turvada pelas lágrimas que ameaçavam cair de seus olhos.
A raposa pensava e pensava, pensava em uma maneira de ajudar o burrico a superar sua crise existencial. Finalmente, pareceu-lhe ter encontrado uma solução para a burrice do burrico.
– Sabe, meu querido, ouvi dizer que na Floresta Grande existem lugares onde se aprende tudo sobre a vida, onde todos ficam mais sabidos. Acho que até os burros deixam de ser burros.
A cara do burrico se iluminou. Depois de muito tempo, ele foi capaz de voltar a esboçar um sorriso, um sorriso como do tempo em que não sabia que era burro.
– É verdade isso ou você quer se divertir comigo? A mamãe me disse que as raposas são muito sabidas, muito dissimuladas.
– Calúnia, meu querido, calúnia. Peça para o papai mandá-lo para a Floresta Grande, lá você vai estudar e deixar de ser burro.
O burrico dispara sobre a verde relva em direção de casa. A raposa permanece alguns instantes observando aquela criaturinha desengonçada correndo em direção ao futuro. Sente um aperto no coração. Mentalmente tece desejos de boa sorte, de sucesso, para a ingênua criaturinha.
Foi por isso que o burrico foi viver na Floresta Grande. Ali encontrou animais que nunca tinha visto antes, bichos de toda parte do mundo. A floresta era um lugar fantástico.
Durante anos o burrico dedicou-se aos estudos. Estudava mais do que os outros bichos, para compensar sua burrice, mais do que as atentas corujas, muito mais do que as espertas raposas, muitíssimo mais do que os inteligentes chimpanzés.
Ele adorava filosofia. Estudou a filosofia chinesa, os escritos pré-socráticos, os filósofos clássicos, até chegar à literatura filosófica contemporânea. Gostava de astronomia, física, história e geografia, e era um ótimo aluno de matemática. Estudou várias línguas estrangeiras e comunicava-se com proficiência em quase uma dezena delas. Depois de alguns anos, ninguém mais o olhava com desprezo. Seus olhos refletiam a segurança e o brilho das almas cultas.

Era uma vez outra floresta, muito distante da floresta do burrico. Lá vivia um bode que desde cedo concluiu que o mundo havia sido criado para ele. Não reconhecia limites, não respeitava fronteiras ou cercas. Invadia as hortas alheias e devorava as hortaliças e legumes sem a menor cerimônia. Perto de sua casa havia um bosque onde floresciam diversos pés de marula. O bode costumava comer suas frutas e folhas e embriagar-se até cair.
Não gostava de escola, aliás, repudiava o conhecimento. Costumava vangloriar-se de que tudo de que precisava para tornar-se um bode sábio aprendera nas margens dos açudes, no chão das pocilgas, nas hortas e pomares dos vizinhos que invadia inescrupulosamente. O bode considerava-se um sabichão.
Um dia, enquanto varava a cerca de uma verdejante horta, deparou-se com uma raposa que se preparava para devorar uma galinha.
– Vá em frente, companheira, manda brasa nessa penosa. Eu não estou vendo nada. Um bom cabrito não berra! – gracejou o bode.
Enquanto este triturava uma cenoura e a outra depenava a galinha, ambos conversavam animadamente gabando-se de seus incontáveis delitos. O diálogo continuou até o fim do apetite por cenouras e o fim da carcaça da galinha, mas antes acabou resvalando na história da Floresta Grande, que a raposa tinha ouvido alguém mencionar, e nas possibilidades infinitas que o lugar oferecia para ascensão social.
O bode sentiu-se motivado a conhecer a Floresta Grande, onde desembarcou tempos depois com várias mudas de marula. O choque foi tremendo. Animais incríveis, formas estranhas que ele jamais imaginou pudessem existir. Assustado, procurou enturmar-se com outros de sua espécie, limitando-se a percorrer a periferia da enorme floresta, onde plantou as mudas que trouxera de sua região. Aos poucos foi se sentindo mais seguro a ponto de, meses depois, se interessar pela administração da floresta.
– Quem manda nisto tudo? Quem é o rei do pedaço? A elite? O cara deve ser muito rico? Como se faz para ser rei? Qualquer um pode ser rei?
As respostas eram desencontradas. Os bichos da periferia não entendiam bem o processo. A ignorância o enchia de esperanças, de planos, de sonhos.
Certo dia, sentindo-se mais confiante, resolveu aprofundar-se mais na floresta em direção ao centro. Foi quando viu um animal gigantesco. Suas pernas eram como troncos de árvores, seu corpo parecia uma enorme rocha parda, seu nariz era estranhamente longo e chegava quase ao chão.
“Vige! Esse deve ser o rei do pedaço. Que bicho grande!”
Não ousou se aproximar. Ficou observando de longe e tirando suas conclusões: “Se ele é rei, eu também posso ser. Eu tenho quatro pernas como ele, uma boca, um rabo, duas orelhas e dois olhos. Ele é apenas um pouquinho mais alto do que eu. Eu tenho a vantagem de ter os chifres no lugar certo, no alto da cabeça, enquanto os dele saem na altura da boca. Não vejo serventia nisso. Além do mais, ele tem um nariz horrível e não possui uma bela barbicha como a minha.” – o bode manifestava um amor sem limites por si mesmo, sintomas claros de egolatria.
Para seus companheiros, contou o encontro com o rei, desmereceu-lhe o tamanho, desfez de sua tromba, menosprezou sua força.
– Se eu quiser posso ficar como ele. Basta comer um pouco mais e fazer um pouquinho de musculação.
Ardiloso, introduziu os companheiros no viciante consumo de marula. Os efeitos alucinógenos pareciam deixar os bichos com certa disposição a acreditar em qualquer coisa. Após uma semana já estava tentando convencer seus companheiros de que se parecia com um elefante:
– Você viu minhas pernas?  Estão ficando grossas como troncos. Meu nariz já cresceu vários centímetros e minhas orelhas estão muito mais largas.
Após mais de um mês enchendo os bichos de marula e repetindo a mesma história, o mesmo discurso, a mesma litania, seus companheiros estavam dispostos a concordar com ele rapidamente a fim de evitar uma repetição interminável de argumentos ou porque haviam sido realmente convencidos. O bode exercitava sua loquacidade doentia. Ele mesmo, como um histérico, parecia acreditar no que dizia. Começavam a se manifestar, também, sintomas irrefutáveis de mitomania, o que seria o traço mais marcante de sua personalidade doentia.

O burrico continuava a estudar. Filiou-se a sociedades culturais, publicava artigos em revistas científicas, participava de grupos de discussão filosófica, lecionava em cursos de pós-graduação, fazia trabalho voluntário em escolas de alfabetização de adultos. Apesar de inúmeros convites, negava-se a participar de campanhas eleitorais, de filiar-se a qualquer partido político, a ocupar cargo público em qualquer nível de governo ou nos conselhos administrativos de empresa estatais.
Sua vida seguia às mil maravilhas. Os bichos o cumprimentavam na rua com simpatia e admiração. No condomínio em que morava, todos o tratavam respeitosamente como Doutor Burro.
Nas conferências sobre Ética, que ele costumava pronunciar nas faculdades, nas associações de classe e em eventos realizados por grandes corporações, suas palavras eram recebidas como as de uma pregação religiosa, enchendo de ânimo e de esperança os corações tão desacreditados nos valores animais.
À beira de um grande lago, o bode consumia uma horta que acabara de invadir junto com uns companheiros. Subitamente, o sol parece se esconder às suas costas. A temperatura cai bruscamente e deixa paralisado o bode: “Vige! Que será que houve?“ Ele pressente que alguma coisa se move atrás dele, mas não tem coragem de se virar. Ele vê, de canto de olho, a sombra do que parece ser uma gigantesca serpente que mergulha nas águas turvas do lago. Todo seu corpo treme: “Será que é o dono da horta? Se for, vou dizer que não sabia de nada, que meus companheiros são responsáveis, porque foram eles que me convidaram para o almoço!”.
Passados alguns segundos, como nada acontece, ele recupera o sangue frio e vira-se lentamente em direção da serpente que o cobria com sua sombra. Então, depara-se com um bicho altíssimo, descomunal, que se serve da água do lago placidamente, saciando sua sede sem a menor preocupação. “Vige! Que bichão! Esse deve ser o rei, o outro era muito gordo e atarracado e não tinha a presença de um rei. Esse não, esse tem porte altivo e certa majestade. Claro, esse é o rei.”.
Detém-se examinando o rei. É realmente grande e tem os chifres no lugar certo. Suas pernas são larguíssimas e fortes, seu pescoço parece atingir o céu. Seu andar é lento e compassado e seu pelo parece uma manta de rei. Sua cabeça é enorme. “Claro! Encontrei o rei. – felicitou-se – Imagino qual deve ser o tamanho e o valor da coroa.”.
Ele procurava as semelhantes entre ele e a girafa e pensava nos argumentos, na estratégia que utilizaria para convencer seus companheiros de que ele era uma girafa, aliás, uma girafa muito mais qualificada, com uma barbicha que fazia inveja a qualquer um e lhe emprestava uma aparência de elegante superioridade. Afinal, ele não era muito mais baixo do que aquela girafa que saciava a sede placidamente nas águas turvas do lago. Em pouco tempo seus companheiros estariam convencidos de sua girafacidade e prontos para transformá-lo no rei da Floresta Grande. Novos sintomas de sua personalidade doentia, movida por impulsos excessivos e mórbidos para alcançar a glória.
Sua viagem teomaníaca foi interrompida por um ruído ensurdecedor, um trovejar, um estrondar contínuo, como o prenúncio de uma inusitada e repentina tempestade, como alguma coisa que não se parecia com coisa alguma que o bode já tivesse presenciado. A girafa disparou em retirada, sumindo no meio da mata. A vida parece que deixou de fluir, fez-se um silêncio aterrador. Todo arrepiado, o bode permaneceu estático, bem como seus companheiros, como que congelado sobre a areia fina da margem do imenso lago.
Do meio da mata, de uma estreita trilha que parecia brotar da densa vegetação, surgiu um animal terrível, um enorme felino, de porte majestoso, de pelagem dourada, de barba imensa que lhe coroava toda a cabeça. Rosnou mais uma vez. O silêncio parecia dobrar-se sobre si mesmo e tornar-se mais silencioso ainda. Era a verdadeira Elite da floresta. O bode deixou de respirar por alguns segundos. “Vige! Esse sim é o rei. Estou ferrado. Tenho de pensar em alguma coisa, rapidinho.”
O leão aproximou-se ameaçadoramente. O bode contraiu-se todo, parecia um cabritinho de parque de diversões. Mesmo apavorado, encolhido em sua pequenez, sua mente funcionava a todo vapor. As presas da boca do leão eram quase do tamanho da cabeça do bode que estava prestes a desfalecer. O leão escancarou as mandíbulas. O bode pôde sentir seu bafo fétido de sangue e de carne ainda em processo de digestão. Quando as mandíbulas se fechavam sobre a cabeça do bode, ele ainda conseguiu ter presença de espírito para pedir:
– Vige! Calma meu rei, eu não sou a refeição mais apropriada para uma majestade como a sua.
O leão não concluiu o movimento de abocanhação do bode surpreendido por tamanha ousadia.
– Calma sua majestade, eu posso explicar.
E durante um bom tempo, e com uma conversa tortuosa e ladina, ofereceu marula ao rei e convenceu o soberano a devorar primeiro quatro de seus companheiros, que eram mais novos e deviam ter a carne mais macia. Saciado em sua fome, o leão deitou-se à sombra de uma árvore para fazer a sesta e o bode pode escapar da encrenca sem nenhum arranhão. Quanto aos companheiros remanescentes, que estavam indignados com a traição do bode, um pouco de marula e uma boa conversa o transformou em herói, afinal eles só estavam vivos graças à sua esperteza.

O burro seguia sua vida de intelectual, distribuindo conhecimentos e exemplos de boa conduta. Tentou inúmeras vezes trazer os pais para a Floresta Grande, mas estes preferiam viver longe dos grandes centros, sob o argumento de que a burrice é relativa. Na Floresta Grande eles se sentiriam ainda mais burros.
Os jornais e revistas da grande floresta publicavam regularmente artigos escritos pelo burro, defendendo a democracia, cobrando justiça, criticando o desperdício de recursos públicos, censurando a inércia dos tribunais, a leniência da justiça, condenando a violência policial, propondo políticas públicas capazes de oferecer condições semelhantes de competição para todos os bichos ou pelo menos de reduzir as diferenças.
O burro era feliz.

De volta à periferia, o bode tinha muita história para contar e muita gente a convencer de que ele era um leão. Pensou em deixar a barbicha crescer, passou a usar um boné para esconder os chifres, distribuiu marula a todos quantos quisessem e voltou a infernizar a vizinhança com a conversa de que era um leão.
Tanto falou, tanto pregou, tanto discurso fez que aos poucos crescia o número dos que acreditavam que ele era realmente um leão. Sua fama extrapolou os limites da periferia e já se espalhava por toda a floresta.
Após quase trinta anos de distribuição de marula, de pregação doutrinária, de estratégias de convencimento, de criação de agremiações de seguidores do novo leão, de mentiras repetidas à exaustão, até seus pais juravam que ele nunca tinha sido um bode, que desde pequenino ele já tinha aquela aparência de leão.
    O cenário estava montado, mas o trono estava ocupado. Nessas quase três décadas de doutrinação, além do processo de convencimento de que o bode era um leão, estrategicamente foi urdida uma teia de desmoralização, de diminuição, de aniquilação dos valores, das qualidades, das virtudes do rei, do verdadeiro leão.
A população de bichos seguia o bode como uma legião de fanáticos, uma horda de lunáticos incapazes de perceber as dessemelhanças entre o rei, leão, e o bode, contrafator. Internacionalmente, não se sabe com que intenção, se por maldade, se por pilhéria ou se por alguma motivação escusa, os dirigentes de outras florestas concordavam, atestavam, garantiam a leonidade do bode: – Esse é o leão!
Uma noite o rei foi morto ao sair de um restaurante. Os assassinos foram presos e mortos nos porões de uma delegacia antes que tivessem sido interrogados pelos delegados ou ouvidos pela justiça. O legista que examinou o corpo do rei também foi morto, assim como catorze bichos que testemunharam o assassinato do rei. A promotora encarregada das investigações sofreu um atentado e só não morreu por pura sorte, e agora vive escondida em algum lugar na floresta.
Quando alguém perguntava ao bode se ele tinha ideia de quem podia ter encomendado o assassinato do rei, ele apenas olhava com um olhar frio de aço e respondia com um sorriso sarcástico:
– Não sei de nada. Não vi nada. Não tenho nada a ver com isso.
Foi muito fácil para o bode ocupar o lugar do rei. Após algum tempo, muita marula e muitíssimas tramoias, a multidão de bichos praticamente o carregou para os salões do palácio, para o trono do antigo rei. Todos estavam convencidos de que o bode era um leão.
O staff do novo rei era constituído por toda espécie de bicho: hienas, lobos, raposas, serpentes, jumentos, jegues, preguiças, urubus, carcarás, toda sorte de animais peçonhentos e de rapina. Os bichos estavam felizes. Isso que era governo. Sentiam-se representados.
Confirmando a regra, o burro era a única exceção. Abstêmio, não foi tragado pela onda de marula que cobrira a floresta nem convencido pelas teses do novo governo que emburreciam os bichos. Seus artigos passaram a ser mais contundentes, apesar da censura que o impedia de divulgá-los em alguns meios de comunicação, principalmente nos mais populares.
O burro começou a incomodar demais os poderosos. O governo do bode, perdão, do leão, tentou cooptar o burro. Mandou representantes adulá-lo, ressaltar suas qualidades, elogiar sua posição ética e oferecer-lhe uma embaixada na floresta que ele escolhesse, conquanto que fosse bem longe da Grande Floresta.
 Obviamente, prevaleceram os valores éticos do burro. Ele se negou a calar-se, ao contrário, garantiu que seus artigos seriam ainda mais contundentes. Denunciaria a falsa leonidade do rei, exporia o descalabro da administração pública, sujeita, que estava, aos assaltos dos companheiros do rei, apontaria a corrupção descontrolada, as tentativas de suprimir a liberdade de imprensa, os direitos individuais e os direitos de livre expressão e de propriedade.

Era uma vez um burro... Seu corpo foi encontrado, na margem de um rio, perfurado por incontáveis projéteis de fuzil. Questionado, o rei lamentava profundamente a morte do companheiro, prometia apurar até as últimas consequências, doesse a quem doesse, e garantiu que não sabia de nada, não tinha visto nada, não tinha ouvido nada. Por fim, acusava a imprensa de querer derrubá-lo por ser um leão de origem humilde, analfabeto, que aprendeu tudo sobre a vida entre as cercas das hortas alheias, no chão das pocilgas imundas, nos currais infectos, nas exuberantes plantações de marula.

Embriagada de marula, a bicharada continua a aplaudir o bode, como se leão fosse.

Moral da história: quem mandou querer deixar de ser burro?

Fim?

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Cidade Sem Deus


Esta cidade descomunal tem certo quê de magia.
Estando aqui, sinto-me como se vivesse alhures,
Como se habitasse outra megalópole qualquer.
Aqui, tudo é improvável:
A multidão que envolve como um deserto,
O céu plúmbeo e opaco, as noites de estrelas baças.
Divido meus pensamentos entre os ruídos ásperos da rua
E a fragilidade do meu sono.

Esta cidade mágica tem certo quê de atonia.
Estando aqui, sinto-me como se parasse de viver,
Como se desistisse inelutavelmente de sonhar.
Aqui, compreendi que Deus já não vive,
Sufocado sob o rumor incessante dos automóveis,
Asfixiado no acre da atmosfera doente,
Morto sob apressados passos trôpegos de seres inconscientes.

Esta cidade inânime tem certo quê de agonia.
Estando aqui, sinto como se a sentisse ofegar,
Como se a percebesse medrar lenta e inexoravelmente.
Aqui, a vejo exsolver suas pústulas sobre a natureza que a cinge.
Desde que Deus sucumbiu, abdiquei das respostas fáceis e falsas;
Vi esvaziarem-se meus embornais de verdades absolutas
No qual, tolo, enfurnava minhas crenças incontestáveis.

Esta cidade agonizante tem certo quê de sombria.
Estando aqui, sinto a beleza martirizada nos grotescos espigões de concreto,
A sensibilidade pisoteada pela cupidez insana do homo economicus.
Aqui, por onde se passa, vê-se a esperança derruída,
A consciência imolada no Índex de publicações místicas, escatológicas,
A razão abatida pela insolência do mercantilismo descabido...
Possido, ergo sum.

Esta cidade triste tem, ainda, certo quê de poesia.
Estando aqui, sinto a Natureza resistir nas improbabilidades absolutas
Do concreto abrasivo, das sarjetas imundas, das paredes rotas.
Aqui, a beleza anosa afronta as modernidades funcionais de aço e vidro.
Os sabiás ainda cantam, nas tipuanas centenárias, a saudade da mata intocada;
E, ludibriados pelos faróis intermitentes dos automóveis,
Os galos anunciam sonoros amanheceres extemporâneos.

Esta cidade poética tem certo quê de infinitude.
Estando aqui, sinto sua azáfama e luzes igualarem noites e dias.
Aqui, suas possibilidades infindas, seus habitantes dessemelhantes,
Colorem minha mente com sonhos de visões da eternidade.
As folhas do meu outono caem sobre as calçadas desgastadas,
Mas minhas pegadas não estão nas ruelas estreitas do passado,
Calcam, meus passos curiosos, a ladeira íngreme que leva ao Amanhã.

Esta cidade infinita tem certo quê de epifania.
Estando aqui, sinto os olhos devassadores de sua ubiquidade opressiva,
Sua onisciência inibitória, nas câmeras que povoam edifícios e ruas.
Aqui, é melhor não questionar; melhor não pensar;
Melhor não abandonar a alheação conveniente das seitas.
Entre as brumas do inverno que antevejo,
Meus olhos enxergam escarpas ensolaradas, céus azuis,
Talvez respostas às minhas indagações.

Não há lugar confortável fora da estrada larga e enganosa das religiões.
Entre a loucura consentida da fé que idiotiza
E o mergulho na escuridão das incertezas seculares,
Escolhi os riscos da indagação curiosa,
Da série interminável de “por quês?”
Que há milênios desafiam a arrogância intelectual do Homem.
Não há respostas na ciência; a Filosofia, inerme, sucumbe...
Tudo flui, tudo é incerto e escorregadio.

Minha cidade aglomera a solidão de seres díspares em multidões incontáveis.
Debalde. Milhões de seres solitários não fazem uma insolidão.
Não há lenitivo para nossa solitude cósmica.
Aqui, um sorriso brinca na minha face à percepção de nossa contingência.
Somos apenas o lampejo de um átimo da eternidade.
Somos apenas um viajante eventual numa noite escura,
Noite de perguntas irrespondíveis, de incertezas perpétuas.

Minha cidade divina tem certo quê de anomia;
É um salmo que louva a convergência das realizações humanas,
O humano desejo incontrolável de domínio sobre a desordem natural.
Aqui, o Homem arremeda o Criador, criando o seu próprio caos.
Melhor ignorar o salmo que ressoa nos ares ácidos da minha cidade.
A ciência me oprime como uma âncora inútil sobre o convés.
Preciso lançá-la ao mar...

Preciso lançar-me ao mar...

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

O Parto da Montanha


Muitas vezes as evidências são claras e eloquentes, mas as pessoas parecem não se dar conta da importância ou da gravidade de fatos fundamentais para sua sobrevivência e que abertamente pululam à sua frente. Talvez pela aceitação preguiçosa ou irrefletida de versões que escamoteiam a verdade; quem sabe, pela introjeção de conclusões, que ferem a lógica, impostas pelos meios de comunicação cuja única preocupação parece ser a própria sobrevivência; certamente, através da estratégia do repisamento insistente e continuado de inverdades e mistificações, leva o indivíduo abdicar de sua racionalidade e de sua condição de ator para mergulhar no universo da indiferença, entregando-se inerme à manipulação alheia.
 Atualmente, a palavra da moda é travessia. Enquanto a mídia parece acreditar, como o governo quer fazer parecer, que travessia refere-se ao período de aperto fiscal, desemprego elevado e fortes restrições econômicas que teremos de atravessar nos próximos anos, os governantes petistas sabem que travessia é, para eles, a passagem de uma economia capitalista de mercado para um regime de economia estatal centralizada, nos moldes da economia soviética do século passado. 
As dores, que ora experimentamos, não são dores inesperadas, extemporâneas ou excepcionais, são as dores ordinárias que acompanham o parto da montanha. Fecundada pelo pensamento socializante das esquerdas, nossa pátria passou a gestar um modelo político que condena os valores e direitos individuais, abomina a economia de mercado e os princípios capitalistas, despreza o mérito, a disciplina, a democracia e os valores tradicionais e morais e acredita que o Estado pode, com mão de ferro, controlar a economia com intempestivas intervenções ad hoc.
A gestação entrou em seu décimo terceiro ano – talvez seja este um sinal cabalístico – e tudo leva a crer que o parto da montanha se aproxima. O Supremo Tribunal Federal parece disposto a atuar como obstetra para garantir que a montanha conceba uma novíssima, doentia e horripilante nação bolivariana.
Nem Deus pode nos ajudar.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Galinhas, Mães e Filhas


A galinha fez seu ninho sob a copa de um dos podocarpos que ladeiam a porta da minha oficina: pôs oito ovos. Durante três semanas os chocou: foram vinte e um dias virando-os de tempos em tempos para garantir que recebessem calor por igual. Não se alimentou ou tomou água durante praticamente todo esse tempo. Choveu muito nesse período, mas ela se manteve irredutivelmente fiel à sua futura ninhada. O galo? O galo passou todo esse tempo correndo atrás de outras galinhas.
Do nosso lado, a coisa é um pouco mais complexa. Quando uma mulher tem um filho, o pai fica contente porque sabe que por alguns anos terá um companheiro de passeios, jogos e brincadeiras. A mãe também se alegra porque terá um homenzinho para domesticar, moldar e tentar transformá-lo na imagem daquilo que gostaria que o marido fosse.
Porém, se nasce uma menina, a coisa se complica. Quando a mãe olha nos olhos da filha pela primeira vez, alguma reação química inexplicável acontece. Elas não sabem ainda, mas ocorre uma ligação mágica, instantânea e indissolúvel. Mãe e filha se tornam prisioneiras uma da outra para sempre. É como se a divindade concedesse à mãe o beneplácito de uma segunda vida. E a coisa só tende a se agravar com o tempo. O pai é quase excluído do processo de criação; fica com uns restinhos de tempo para mimar a menina; não pode fazer brincadeiras um pouquinho mais fortes sem ser repreendido; não pode dar umas bronquinhas, quando acredita que a criança mereça, sem que a mãe interfira como uma fera. O pai é reduzido a alguma coisa como menos da metade de coisa nenhuma. Tem de amar a filha à distância. E não pode, como o galo, simplesmente ignorar tudo.
A mãe mima a filha como a uma bonequinha, uma princesa, uma pequena deusa. Educa, paparica, instrui, molda... Parece querer transformá-la naquilo que gostaria de ter sido. A menina cresce, assim como crescem a interação, a cumplicidade e o amor entre mãe e filha. Ao pai cabe apenas assistir de longe. Excluído, ainda vê mãe e filha se unirem para aborrecê-lo com sarcasmos e ironias. Elas conversam por meias palavras; se expressam por gestos sutis; se comunicam com os olhos. Nos dias de hoje, as conversas são mais tecnológicas. Então, passam o dia todo no celular ou na droga do What’sApp. Amam bater pernas; adoram a Vinte e Cinco de Março, a Ceasa, a Liberdade e o Cobasi.
Quando a filha atinge a idade adulta, a coisa está feita. É um retrato vivo da própria mãe na juventude. As mesmas atitudes, o mesmo comportamento diante das adversidades, os mesmos gostos, os mesmos chiliques, a mesma voz, a mesma implicância com o pai... É comum se ouvir pessoas estranhas dizerem para a mãe: É sua filha, né? É a sua cara! Embora, de fato, fisicamente ela se pareça com o pai.Chega a emocionar ver a união entre mãe e filha. O carinho mútuo, a preocupação recíproca, o amor incondicional. É muito fácil reconhecer traços da ligação estabelecida naquele primeiro olhar entre elas durante o parto recíproco: quando a mãe deu à luz a filha e a filha deu a luz à mãe.
Dos oito ovos chocados, apenas um vingou. A galinha saiu do ninho exibindo sua cria com o mesmo orgulho que teria se tivesse chocado uma numerosa ninhada. Tentei pegar o pintinho para colocá-lo em um viveiro onde ficaria protegido. A galinha investiu contra mim como uma fera. Desisti... Certamente sua cria é uma menina.