/script> Gabriel Fernandes

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Santa Ingenuidade, Batman!





Um amigo me diz que sou o cara mais reacionário que ele conhece. Então, fui consultar o dicionário para ver se ele tinha razão.
Segundo o Caldas Aulete, não sou um reaça, pois não sou contra quaisquer mudanças, só reajo àquelas que atentem contra as liberdades individuais. Também não sou antidemocrático, embora democracia não signifique o que pensa a maioria das pessoas, coisa que explico ao longo deste texto. Contudo, se mesmo assim ele continuar a me classificar no escaninho dos reacionários, vou passar a tomar isso como elogio.
A propaganda governamental nos quer fazer crer que o ato de votar é a coisa mais importante de nossas vidas, que é a maior manifestação possível de cidadania, como se eleição tivesse toda essa importância - como se votar tivesse alguma importância -, como se fosse fator determinante na caracterização de uma sociedade como um Rechtsstaat, um Estado baseado no direito, na Justiça e na integridade moral.
Os políticos, astutamente, tentam nos convencer - e infelizmente a maior parte das pessoas acredita nisso – de que a democracia é um bem a ser conquistado, meta a ser atingida ou um fim em si mesmo, e que as eleições constituem o único meio para realização desse intento.
Na verdade, a democracia é apenas um meio para se alcançar algum objetivo, que pode ser a constituição de uma sociedade livre ou a instituição de um regime autoritário. A escolha pelo voto universal significa muito pouco ou quase nada. Adolf Hitler chegou ao poder, como chanceler, pelas mãos de Paul von Hindenburg, este democraticamente eleito pelo voto popular para o cargo de Presidente da Alemanha. Há anos são realizadas eleições na Síria e em Cuba,  e nem por isso esses países podem ser considerados democracias. Durante o Regime Militar, no Brasil, também havia eleições regulares, mas, apesar disso, se fazem tantas restrições e críticas aos homens de farda.
O conceito de democracia é muito difuso e acaba sendo relacionado apenas ao fato de haver manifestação da população através do voto, para o bem ou para o mal.
Nossa preocupação primeira, cardinal, deveria ser com a construção de uma sociedade liberal que tenha como alicerce as liberdades política e econômica, o respeito aos direitos  individuais, o direito pleno à propriedade, o estado de direito, e a mínima participação do Estado nos assuntos econômicos da nação e na privacidade dos indivíduos; todo o resto, todo desvio dessas metas conduz à subordinação do cidadão ao Estado, à tirania, ao totalitarismo.
A falta de perspectiva histórica leva as pessoas a abraçarem crenças políticas totalmente descoladas de aspectos racionais, lógicos, práticos; atribuem ao Capitalismo a responsabilidade por todos os males que assolam a humanidade, sem se darem conta da situação de miséria extrema que passou a prevalecer na Europa, por mais de mil anos, com o advento da filosofia cristã após a dissolução do Império Romano. A miséria, em última análise, é provocada pela falta de Capitalismo ou pela distorção de suas características.
O mundo começou a mudar para melhor com o Renascimento, avançou com o Mercantilismo e atingiu seu ápice de crescimento com o advento da Revolução Industrial, que ocorreu em um ambiente de liberdade, a que se chamou de Liberalismo Econômico: vigia o estado de direito; predominava a livre iniciativa; as leis de mercado operavam livremente; havia liberdade de escolha e pouca ingerência governamental.
O Liberalismo, regime iniciado a partir do século XVII na Europa, deu partida a um período de crescimento econômico jamais observado; levou a avanços inimagináveis no padrão de conforto da população; produziu aumento impensável da expectativa de vida; permitiu ganhos sem precedentes nas condições de saneamento e saúde.  e reduziu drasticamente o analfabetismo, entre outras mudanças. Em pouco tempo, milhões de pessoas saíram do inferno da Idade Média.
Os dados referentes à evolução da população europeia nos últimos vinte séculos corroboram o que foi dito acima. No primeiro século de nossa era, o número de habitantes da Europa era de cerca de 30 milhões; em 1700 atingiu 120 milhões, o que equivale a uma taxa de crescimento de 0,08% ao ano. Nos trezentos anos seguintes, a população chegou a 780 milhões, o que representa uma taxa de crescimento média anual de 0,63%, ou seja, 800% maior do que a registrada no período anterior.
As novas gerações, que desconheciam o sofrimento suportado pelos seus ascendentes, passaram a considerar que as melhorias no padrão de vida avançavam em ritmo muito lento e a acreditar que alguma coisa deveria ser feita para acelerar esse processo. Começaram a exigir maior rapidez nas mudanças, pressa no resgaste das populações que ainda viviam em padrões medievais; situação da qual teriam sido retiradas naturalmente com o amadurecimento do Capitalismo. Dispuseram-se a abrir mão da liberdade, entregando-a ao Estado, acreditando que este, pela força, poderia impor avanços mais rápidos e profundos do que os proporcionados pelas leis de mercado. Como consequência, outorgou-se mais poder aos governantes, em detrimento da liberdade individual, da liberdade de escolha. O Estado passou a interferir no mecanismo de mercado, impondo restrições de toda ordem, limitando o campo de atuação dos indivíduos.
O poder do Estado cresceu gradativamente, provocando a redução do ritmo de crescimento da economia já no início do Século XX. O processo de fortalecimento dos Estados constituiu um dos fatores que possibilitaram a deflagração das duas guerras mundiais e a instalação de regimes totalitários na Europa e Eurásia.
Em vez de liberdade de escolha, oportunidades iguais, direitos iguais, garantias individuais, respeito às diferenças, respeito à propriedade, estado de direito, as populações escolheram a igualdade material, o paternalismo, o Estado provedor, o Estado assistencialista, o Estado previdenciário. O fortalecimento do Estado fez encolher os direitos individuais, reduziu as vantagens de um funcionamento pleno do mercado e introduziu incertezas no sistema econômico, reduzindo sua eficiência.
A miséria que se vê hoje não se compara com a existente nos mais de mil anos da Idade Média. O Capitalismo resgatou bilhões de pessoas desse inferno, até ser contido pelos regimes autoritários: fascismo na Itália, Portugal, Espanha, Grécia... Nazismo (Nacional Socialismo) na Áustria, Alemanha, Prússia... Comunismo na Rússia e seus satélites. E por sistemas híbridos, dos quais o nosso é um exemplo.
As pessoas foram convencidas de que Democracia significa assistência social, de que é um regime onde uma parte da sociedade só tem Direitos, e a outra só tem obrigações; em que uma parte da população deve trabalhar para manter a outra que não trabalha, ou que não produz o suficiente para se manter com dignidade. Desvalorizou-se a educação, depreciou-se o valor do trabalho e do esforço, aboliu-se a meritocracia, inverteu-se a seleção natural; criou-se, como se diz, uma sociedade vira-lata, uma nação de esmoleres dominada pela ideologia do miserismo, o culto à miséria.
Hoje lamentamos e nos indignamos com os defeitos da sociedade em que vivemos, resultante das escolhas equivocadas feitas por nossos antepassados, as quais repetimos e ampliamos na tentativa ilógica de reforçar suas piores características. Cada vez mais, e desgraçadamente, nos afastamos do mundo possível, de um mundo muito melhor, do mundo que poderíamos ter tido  se nossas escolhas tivessem sido outras.
Está tudo errado, e o tempo vai provar. Seremos cada vez mais pobres à medida que esse espírito socialista penetra o âmago da sociedade.
Santa ingenuidade, Batman!



segunda-feira, 12 de março de 2018

Desrenascimento


Levamos bilhões de anos para aparecer sobre este planeta, mais milhões de anos para andar na vertical, outras centenas de milhares de anos para desenvolver a comunicação verbal, por fim mais milhares de anos para conseguir registrar nossos pensamentos através da escrita.
A coisa ia bem até que, por mil anos, o misticismo, o terror e o medo mergulharam a humanidade, ou grande parte dela, na escuridão da Idade Média. Então, o processo de aprimoramento humano foi bruscamente interrompido, estagnou, praticamente cessou.
Do Renascimento até o início do século XX, registrou-se um desenvolvimento tecnológico, artístico e intelectual sem precedentes, como se uma represa de pensamentos reprimidos houvesse se rompido e toda a criatividade humana jorrasse livremente sobre o planeta: Da Vinci, Newton, Shakespeare, Montaigne, Voltaire, Bach, Rubens, Beethoven, Copérnico, Caravaggio, Machado, Kepler, Chopin, Descartes, Pascal, Renoir, Leibniz, Jung, Cézanne, Spinoza, Camões, Kant, Cervantes, Gauguin, Poe, Camus... A lista é imensa.
Nesse período, a comunicação verbal e escrita atingiu seu ápice. Depois de nossos avós e bisavós, que ainda tiveram a felicidade de contar com escolas e professores decentes, teve início a decadência, a degringolada, o desmantelamento cultural... E parece que a coisa se acelera e se agrava.
Conheci a Alice no Facebook. Uma graça de menina. Ela postava umas bobagenzinhas de adolescentes que chegava a me dar pena. A troca de mensagens com seus amigos era qualquer coisa de admirável: um monte de palavras mal grafadas e frases das quais só se podiam, penosamente, tentar adivinhar o significado.
Tentei ajudá-la, reformulando suas orações, corrigindo sua grafia, complementando e enriquecendo suas ideias. Ela adorou. Chegou a dizer que estava apaixonada... Pela minha mente (só podia ser) e que queria me conhecer pessoalmente. Expliquei-lhe que era casado, tinha idade para ser seu pai, que eu poderia ser mal interpretado, essas coisas. Ela me disse que já era dimaior, tinha dezenove anos, e que não devia satisfação a ninguém.
Ela insistiu durante semanas. Queria marcar um encontro no McDonald’s, e eu lhe disse:
− Sugiro que você vá com seus amigos ao The Fifties, na Alameda Santos, um lugarzinho muito legal.
− Não entendi! – ela me disse.
− Não entendeu o The Fifties? Significa os Anos Cinquenta.
−Não! Não entendi a outra coisa, o sugiro!
Aí, sim, fiquei preocupado.
Eu me sentiria constrangido no meio da molecada que, normalmente, infesta a lanchonete. A Alice se passaria por minha filha tranquilamente, mas minha mulher não entenderia. A moça falaria de seu ódio à burguesia, de sua opção socialista e de todas essas cretinices que povoam as mentes quase virgens da juventude desinformada de hoje.
Pelo Facebook, tentei lhe falar da Revolução Francesa, dos economistas liberais austríacos, do delírio de Karl Max, Bakunin e Tchernichevski, do comprometimento e parcialidade dos meios de comunicação... Imaginava que se ela pudesse me ver me olharia (eu não ousaria dizer embevecida) com cara de parva, aquela cara de não-faço-a-menor-ideia-do-que-você-está-dizendo. Ela me responderia por meios-monossílabos (se é possível isso) e eu ficaria sem saber como consertar a coisa toda. Sua extensão intelectual, avaliei, não ia além do segundo ano do primeiro ciclo.
Essa geração, me parece, criou a era do Desrenascimento. Está voltando no tempo, desinventando a escrita, aniquilando a comunicação verbal. Peguei, no Facebook, alguns exemplos da Novilíngua virtual. Veja: td, vc, mó, ngm, kra, aew, skma, q, ñ, qd, oq, :(, pq, di, rs, naum, achu, x), nw, nóiz, to, vo, qdo, hj, baw, =s, msg, tbm, :=D, sds, bj, abs, :D, i, :), taum...
Do jeito que a coisa vai, os kras das próximas gerações andarão de quatro, levantarão uma das pernas (eles, se ainda houver diferença entre os sexos) ou agacharão (elas, mesma incerteza) para fazer xixi, cheirarão o traseiro um do outro e se comunicarão por grunhidos, mugidos, relinchos, zurros, silvos, balidos, chilreios, crocitos, rufos, pios, chiados, coaxos, guinchos, uivos, latidos, grasnos, zumbidos, ziziados etc. 
Coisas bem moderninhas.
A Alice? Ah! Acho que leu meus pensamentos, pois me excluiu de sua relação de amigos do Facebook.



terça-feira, 30 de janeiro de 2018

O Evangelho Segundo Santo Apócrifo


Duzentos milhões de otários; mais de quatro mil igrejas evangélicas; cerca de mil patos por igreja com renda média mensal de R$ 1.000,00; dízimo médio de R$ 100,00; faturamento médio mensal potencial por igreja R$ 5 milhões. Se apenas 10% dos patos ingressassem na igreja e recolhessem o dízimo, a renda de uma igreja ainda seria considerável: R$ 500 mil por mês, livres de qualquer imposto.
Foi essa divina epifania que me motivou a querer abrir minha própria igreja.
A fase mais difícil do processo de registro de minha igreja foi a da escolha do nome. Com tantos nomes criativos na relação de mais de quatro mil denominações, o computador sempre me informava que o nome que eu queria registrar já existia. Veja alguns exemplos:
Igreja Serpente de Moisés, a que Engoliu as Outras Más e Fracas;
Igreja Abominação à Vida Torta;
Igreja Abre-te Sésamo;
Igreja Assembleia de Deus do Papagaio que Ora a Bíblia;
Igreja Bailarina da Valsa Divina;
Igreja Batista Homossexual Gays de Cristo...
Por fim, após inúmeras e exaustivas tentativas, consegui finalmente registrar a minha: Igreja Interplanetária da Broa de Milho dos Santos dos Próximos Dias (é que a dos “Últimos” já existe e eu poderia ser processado por plágio).
Satisfeitas as exigências legais, me restava ler o Evangelho a fim de estabelecer os fundamentos teóricos e canônicos da minha igreja.
Adotei o “Evangelho Segundo Santo Apócrifo” que foi recuperado das ruínas descobertas em escavações realizadas por paleontólogos árabes na parte cristã de Jerusalém em 1969. De fragmentos de lajes onde originalmente foi gravado o texto sagrado, os excertos em aramaico arcaico foram catalogados, analisados e vertidos para o espanhol pelo célebre paleontólogo argentino Pablo Demierda. As lajes, conforme noticiado na época, estavam armazenadas no que fora um dos lupanares mais luxuosos do templo do Rei Salomão.  

***

Conta o evangelho que, naqueles dias, voltava o Mestre à Judeia com seus discípulos para aproveitar a celebração da Páscoa e tentar cooptar novos acólitos para sua doutrina revolucionária. Como de hábito, hospedara-se com seu bando numa taverna que ficava nos arredores da cidade e pertencia a certo Lázaro.

Contudo, esse mesmo Lázaro saíra para comprar vinho para seus hóspedes e, incapaz de resistir às tentações de Belzebu, o espírito das trevas que o instava a beber, embriagara-se miseravelmente e não fora mais visto. Já era o terceiro dia do desaparecimento de Lázaro e os habitantes da vila já o davam como morto, possivelmente trucidado por algum bando de salteadores dos que infestavam as estradas judaicas.

Conta-se que, naquele dia, o Mestre encontrara a esposa e a filha de Lázaro cobertas por negros véus a chorar na cozinha. Perguntara o que as afligia e elas Lhe contaram sobre a morte do marido e pai. Comovido com o triste fim do amigo, o Nazareno olhou para o teto da taverna, balbuciou algumas palavras ininteligíveis e pareceu chorar. Naquele instante, uma sombra, como um pálido e terrível espectro, ocupou o umbral da porta, recortando no retângulo de luz uma imagem sepulcral, assustadora. Era Lázaro que, após acabar a bebida e a bebedeira, como por milagre, encontrara o caminho de casa. Sua túnica estava imunda, em farrapos, fedia como um porco, como convém a um bêbado perdido nas estradas por três dias.
A notícia do milagre da volta de Lázaro espalhou-se pela cidade e fez crescer a fama do Mestre.
Felizes e agradecidas pelo retorno do ente querido, sua esposa e sua filha prepararam uma ceia para o viajante e seus discípulos.
André reclamou do cardápio: Oi, Chefe, não aguento mais comer peixe com broa de milho.
− Não dá pra descolardes uma picanha maturada e pão italiano fresquinho?
− Chefe o cazzo! Sabes que exijo que me chamem de Mestre. Pedirei a Lázaro que prepare uma picanha de camelo na brasa; é o máximo que vamos conseguir nesta taverna miserável. O meu negócio é peixe e pão.
Tiago não estava satisfeito com a falta de vinho:
−­ Mestre! Poderíeis conseguir, então, umas cervejinhas pra nós, já que o babaca do Lázaro tomou todo o vinho?
O Mestre entrega trinta dinheiros a Judas que, sempre solícito em operações que envolvessem grana, se prontificara a comprar cerveja no boteco da esquina, com a recomendação de voltar rapidinho.
Após mais de uma hora, Judas aparece com dois engradados de cerveja. Marcos fica indignado:
− Caramba! A cerveja tá quente, guardaste o troco e ainda trouxeste esta droga de Bavária?
Judas fica magoado:
− Porra, Marcos! Não tinha outra! Foi um milagre encontrar esta porcaria. − Mais um atribuído também ao Mestre.
Naquele momento, um barulho escapa da rua empoeirada defronte a taverna e chega aos ouvidos de João:
− Mateus! Acho que é a guarda pretoriana. Certamente o desgraçado do Judas nos entregou pros meganhas. Isso explica a demora pra voltar com a cerveja.
Felipe, que estava por perto, escuta a conversa e alerta o Mestre:
− Estamos cercados, só um milagre pra escaparmos de amargar um xilindró.
O Mestre junta as mãos sobre o peito e ergue os olhos para o teto da taverna e grita:
− Se manda, macacada, que a coisa fedeu! O veado do Judas entregou a gente.
O bando se espalha milagrosamente em frações de segundo. Pedro salta pela janela e pega o último camelo que restava no estacionamento. O Mestre se aproxima e exige a montaria:
− Dá-me teu camelo, Pedro?
− Não, Mestre!
− Dá-me teu camelo, Pedro!
− Não, Mestre, nem a pau!
− Dá-me essa droga de camelo, porra!
− Não, de jeito maneira, Mestre!
Após negar três vezes, Pedro se manda com o camelo. Só restara ao Mestre montar um velho jumento manco e se mandar em baixíssima velocidade.
A propósito, Lucas não estava presente, tinha ido à França tentar passar numa peneira no Paris Saint-Germain, o PSG.
Como os guardas pretorianos não conheciam o Nazareno, a quem buscavam por haver lançado injúrias contra o governador da Judeia, e Judas estava desmaiado na sala de almoço da taverna de Lázaro depois de levar o maior cacete de Simão pra-largar-mão-de-ser-alcaguete, Ele conseguiu passar pelos guardas sem ser notado.
Para o Mestre aquilo foi um milagre; foi como se os céus houvessem mandado uma legião de anjos para cegar os soldados de Pôncio Pilatos.
Todavia, Ele não contava ser parado por uma Blitz da Lei Seca. O bafômetro acusou 0,38 miligramas de álcool no sangue:
− Pombas, eu só tomei duas cervejinhas? − O guarda foi irredutível Não aceitou a propina:
− Teje preso!
A lei era implacável. O velho jumento ficaria retido. A multa era de 1.915 dinheiros e a habilitação teria ficado retida se o Mestre tivesse uma. Isso era considerado um agravante.
O mestre entra em cana. Depois é entregue de bandeja a Herodes. O resto da história todo mundo conhece. 

***
 
Evangelho por Evangelho, se é para fazer as sacanagens que os autodenominados pastores e bispos fazem com os miseráveis, pobres e remediados deste país infeliz, fico com este de Santo Apócrifo, pelo menos a história me parece mais engraçada.

domingo, 10 de setembro de 2017

O Planetário


O sol derretia-se na transparência azul do céu como que a convidar para um passeio na lentidão morna daquele fim de tarde. Distraidamente, recolhi, da aridez da calçada rota, uma folha descolorida desprezada por uma pitangueira que enfeitava o exíguo jardim confinado entre o luxo deslocado de um prédio de classe média e a fria grade de ferro carcomida pela voracidade atroz do tempo. Olhava a palidez mortiça da pequena folha de bordas irregulares, de nervuras rompidas... Tentei recordar-me do tempo em que os animais, plantas e objetos falavam como nas fábulas e contos de fadas; queria conhecer sua história, saber da avidez dos pássaros a consumirem os frutos tenros da árvore, da chuva benigna, do sol tão desejado, do vento que a retirou do galho flexível e frágil e a lançou na aspereza rude do concreto. Entretanto, meus ouvidos não podiam mais ouvir suas histórias, como eram capazes de fazer nos dias de todas as alegrias, de todas as possibilidades da minha primeira infância.
Parece que o tempo nos tira a capacidade de nos admirar com as coisas mais simples, nos priva da imaginação, nos afasta da fantasia, nos embrutece. Invejo meus netinhos, sua crença ingênua em fadas, bruxas e dragões, sua capacidade de conversar com os bichos, com um objeto inanimado qualquer ou com uma folhinha caída de uma fértil pitangueira.
Caminhei até o parque, o mesmo parque onde fazia piqueniques memoráveis com minha família nos primeiros anos após sua inauguração. Lembrei-me das mesas amplas espalhadas sobre os verdes dos gramados, dos longos bancos de pranchas de madeira colocados longitudinalmente às mesas, a toalha xadrez, a cesta de vime, a diafaneidade da jarra de vidro repleta de suco colorido. Lembrei-me da lassidão daquelas tardes infindas: o mundo se abrindo aos meus olhos como um caleidoscópio gigantesco, um cenário multicolorido de teatro a me oferecer um infinito de dias, uma amplíssima latitude de tempo.
Percorri com passos preguiçosos as amplas alamedas; admirei a altivez dos eucaliptos, hastes colossais como que espetadas no lápis-lazúli do céu; demorei-me a contemplar os gansos, marrecos e mergulhões que se despediam da última claridade do dia numa algazarra pueril.  Segui até o planetário. Desci a rampa que me levou ao interior de sua cúpula prateada que ainda refletia os derradeiros raios de sol. Sentei em uma poltrona, recostei-me e aguardei o início da sessão. O astrônomo fez as apresentações iniciais e informou que viajaríamos através do tempo, voltando para o dia da inauguração do parque.
As luzes se apagaram repentinamente e a escuridão invadiu todo o recinto. Senti, nos poucos segundos de breu total, que a poltrona crescia sob mim ou que eu diminuía na maciez confortável do assento de couro. De repente, pareceu-me sentir o toque carinhoso  de uma mão, a mão de minha mãe; depois o aperto delicado de seus dedos entrelaçados nos meus. Podia pressenti-la ao meu lado. Da outra poltrona, parecia escapar o perfume inconfundível da lavanda de meu pai. Torci, em vão, para as luzes não se acenderem: não queria interromper a magia daquele momento.
Então, o céu se iluminou e as estrelas e astros começaram a mover-se rapidamente no negror da cúpula celeste. O astrônomo informou que viajávamos para 1954 e que o planetário reproduziria o céu em 21 de agosto daquele ano. A velocidade dos astros diminuiu gradualmente até pararmos na data desejada. A silhueta da cidade recortava o tecido negro do firmamento, com as luzes ainda poucas e a raridade de arranha-céus. Ainda assim, o clarão da nascente metrópole tornava invisível a luz das estrelas próximas ao horizonte. O astrônomo prometeu que nos surpreenderia com um blackout e o fez. Quando as luzes se apagaram, a cidade desapareceu e as estrelas se multiplicaram e adquiriram nova dimensão no cosmo artificial. Um suspiro geral de admiração percorreu todo o auditório como um frisson coletivo. Era o céu de meus piqueniques. Olhei à minha direita e à minha esquerda. Eu estava só, mas ainda pude sentir o calor da mão de minha mãe na minha como numa despedida e o perfume discreto de meu pai como uma recendente saudade. A imagem da meia lua projetada no céu de concreto entrava turva em minhas retinas, filtrada por duas lágrimas póstumas.
Deixei o planetário. A noite me envolveu como uma escura mortalha.  Meu coração ainda batia descompassado, meus olhos continuavam úmidos. Mesmo ciente da impossibilidade inexcedível, involuntariamente meu olhar procurava as mesas e os bancos, a toalha xadrez e a cesta de vime, ora inexistentes, e os vultos inencontráveis de meus pais.
Eu caminhava vagarosamente. Sem razão aparente, apalpei meus bolsos. A pequena folha da pitangueira ofereceu-se aos meus dedos. Coloquei-a na palma de minha mão e contemplei sua lividez mortiça. Dessa vez, como uma criança, pareceu-me poder ouvir suas queixas. Falou-me, com nostalgia, do vento que agitava o ramo em que brotou, contou-me das visitas dos pássaros coloridos e vorazes, das gotas de sol que penetrava a copa da árvore, do frescor das chuvas...
Calquei sem pressa as calçadas irregulares que me levariam para casa. Sobre a maciez do lençol de folhas que jaziam próximas ao tronco da pitangueira, deixei cair a folha saudosa.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

La Chute e uuu...



Lá fora faz um frio invernal. Aqui na cozinha, corre uma conversa aquecida em torno de pratos brancos e fundos em que fumega delicioso caldo verde, especialidade da Gorda. A taça cristalina toma emprestado o matiz rubro do vinho, assumindo seu lugar na mise en scène modesta da mesa.
Fanáticas por cinema, minha mulher e a prima, a Gorda, conversam animadamente sobre filmes e atores.  Entre um bom livro e um bom filme, sempre prefiro o primeiro, mas às vezes aceito assistir a um que me pareça interessante. O Zé, o Gordo, marido da Gorda, tem preocupações mais elevadas: enfrenta, com voraz determinação, seu prato de caldo verde e aprecia sem moderação uma generosa taça de vinho português.
Desta vez, entre terminar de ler La Chute, de Albert Camus, ou entrar no papo das primas − e para não ficar só ouvindo o blábláblá e me sentindo excluído − me arrogo o direito de meter o bedelho no bate-papo. Após alguns minutos de conversa, não posso deixar de começar a associar a forma como nossa conversa evolui e o assunto de que trata o livro de Camus: a decadência física e profissional de um arrogante advogado parisiense que se considerava filho de rei, uma sarça ardente, o melhor dos seres humanos. Como ele foi, somos igualmente vítimas da passagem implacável do tempo. Nosso corpo há muito dá sinais de decadência: a pele flácida, os cabelos ralos e brancos, a presbiopia, a lenta e quase imperceptível perda de vigor físico... Agora é o cérebro que começa a dar sinais de fadiga de material, começa a ratear, a andar mais devagar, a parecer pegar só no tranco. Lentamente, caminhamos em direção à ponte, em direção às águas frias e escuras do Rio Amstel.
As primas lembram detalhes de muitos sucessos de bilheteria, mas, muitas vezes, os nomes dos atores fogem da memória como cachorros fogem da carrocinha.
− Você se lembra do nome do ator que se protegeu do frio dentro do corpo de um cavalo? Aquele loiro bonitão...
− Aquele que se casou com aquela atriz morena que operou os lábios e ficou com um beição esquisito?
− É, o mesmo cara que fez o filme do cavalo gigante de madeira, né?
− Não, ele fez aquele filme do navio que afundou. Uuu...
E o nome não vem. Ninguém se lembra sequer dos nomes dos filmes. Então, o sabidão aqui dá um palpite:
– É o Di Capri... O Peppino di Capri – me intrometo.
As primas explodem numa debochada gargalhada e eu, fico ali congelado, com cara de otário, sem saber o porquê daquela gozação. Nunca me arrependi tanto de não ter ficado com a matraca fechada. O que eu tinha dito de tão gozado? O Gordo? Ora o Gordo! Continua a digladiar-se ferozmente com sua refeição e a esvaziar diligentemente sua taça. Mas, apesar do fora, minha dica foi importante: todos se lembraram de DiCaprio, o Leonardo.
E a coisa continua, assim como continuam os vexatórios uuu...
− Adorei o filme daquele negão que cuida dum cara paralítico. O ator que fez o cara paralítico é uuu...
E o nome não vem, foge como um trombadinha após o furto.
É o cara que fez Antes de Partir. Uuu...
− Quem fez Antes de Partir foi uuu... Demora um pouquinho, mas consigo me lembrar do Jack Nicholson.
− Então foi uuu... O cara que fez Taxi Driver.
− Não, foi uuu... Mais uma longa pausa. O De Niro?
− Não, o que fez papel de cego nuuu... Nova pausa longuíssima.
E os três tentam se lembrar dos nomes do filme e do ator.
Eu apelo para o alfabeto. Passo por todas as letras tentando associar rostos de pessoas a nomes e filmes. Inutilmente. Ficamos rodando em círculos como um peru bêbado, sem resultado.
Só à noite, enquanto as primas assistem à televisão e o Gordo dissipa ledamente mais uma taça de um bom vinho do Douro, conseguimos nos lembrar de Perfume de Mulher e de Al Pacino, que não tinham nada a ver com o nome do filme e do ator que passamos a tarde toda tentando lembrar.
O filme a que as primas se referiam é Intocáveis, de Eric Toledano e Olivier Nakache. O ator que faz o paralítico é François Cluzet, que apenas vagamente lembra Robert de Niro. Descobri tudo isso no Google.
Envelhecer é mesmo um caco. A gente vive assustada tentando associar qualquer fato que pareça fugir do normal a algum sintoma daquela doença degenerativa descrita por aquele médico alemão uuu... Uuu... Por sorte, ainda restam as pontes sobre os canais de Amsterdã como último recurso para uma partida com alguma dignidade, isso se não me esquecer de pegar o voo para uuu...
Brr...! A água está tão fria! Mas tranquilizemo-nos! É tarde demais, agora, será sempre tarde demais. Felizmente!"