domingo, 24 de fevereiro de 2019

O Mistério do Morto Renitente



Nas cidades pequenas acontecem fatos com os quais os moradores das grandes metrópoles não ousariam nem sonhar. Aquela pequena cidade do interior de Santa Catarina não era diferente. A minguada população vivia sobressaltada com o que vinha acontecendo na única funerária da cidade. A coisa tomou tal vulto que extravasou os limites modestos do município, a ponto de atrair a atenção da mídia nacional. A princípio foram o jornal e a rádio local. Depois os meios de comunicação da região e da capital, por fim as grandes redes nacionais de televisão.

A cidadezinha cozinhava sua modorra no sol morno de um sábado de verão. A igrejinha tinha sido enfeitada com flores campestres e muitas folhas de samambaia. Os convidados esforçavam-se para parecer elegantes. As mulheres equilibravam-se desconfortavelmente em seus sapatos de saltos altos e os homens pareciam se revezar na tarefa aparentemente inócua de deslizar o dedo indicador entre o pescoço e o colarinho na tentativa de aliviar o incômodo inusual de um colarinho apertado. 
Como de hábito, a noiva chegou atrasada. Desceu de um antigo Chevrolet 1951 que parecia exibir com orgulho o resultado de sua mais recente e impecável restauração. O velho automóvel parecia querer competir com o brilho esfuziante daquela manhã. Sua beleza certamente fazia jus à beleza da noiva. Linda. Uma loira estonteante de olhos azuis e boca sedutora. Uma menina graciosa, de personalidade efervescente, admirada e querida por todos na cidade. Lembrava, sem exagero, a deslumbrante Meg Ryan. Dizem que toda donzela, especialmente as belas, tem um pai que é uma fera. No caso da Clarice, a regra de que sempre há exceções era quebrada. Era filha única. Seus pais já eram maduros no dia em que ela nasceu. O afeto paternal resvalava as raias da loucura. O pai simplesmente venerava a filha. Não se cansava de dizer que morreria ou mataria por ela e se esforçava para que toda cidade soubesse disso.
O noivo a esperava no altar. Era, por seu lado, a encarnação de Elvis Presley, antes das bebedeiras, das drogas e do sobrepeso. Fazia fila de moças casadoiras na porta de sua casa. Sua mãe era assediada pelas pretensas futuras sogras, mas toda a cidade sabia que Clarice e Boris acabariam se casando. Formavam um par perfeito e se amavam desde a adolescência.
O casamento foi um acontecimento, a concretização de um sonho longamente acalentado. Tudo correu como esperado: a alegria da noiva, a aparente felicidade do noivo, as lágrimas dos pais, o despeito dos amigos, a farra da criançada, o assédio da cachorrada.
Ninguém percebeu que alguma coisa impedia o noivo de se entregar plenamente ao prazer daquele momento. Uma leve sombra parecia obliterar o brilho do olhar de Boris. Seu pensamento estava distante. Certamente alguma coisa o incomodava.
O casal passou a lua de mel na praia de Canasvieiras, em Florianópolis. Várias vezes foram confundidos com artistas. Alguns mais desavisados chegaram a pedir-lhes autógrafos, não se dando conta da impossibilidade temporal de ambos encarnarem as personagens com os quais eram tão parecidos.
Voltaram para a cidadezinha escondida entre os verdes vales catarinenses e iniciaram a vida de casados que, para muitos, seria como num conto de fadas.
Boris era praticante de ioga. Convertera-se ao hinduísmo havia vários anos. Em sua casa, um dos quartos tinha sido transformado numa espécie de templo. As paredes eram cobertas por tapeçarias e quadros em que eram reproduzidas imagens de Bhrama, Ganesa, Krishina, Hanuman e Matsya. O centro de uma espécie de altar abrigava uma grande estátua de Shiva ladeada por imagens menores de Saravati e Vishu, velas coloridas, oferendas e alguns incensários. Havia uma estante com vários livros sobre religiões orientais e várias versões do Vedas. Uma iluminação desmaiada e um mosaico de tapetes indianos sobre o chão completavam a atmosfera de misticismo.
A primeira semana transcorreu como deveria ser: infinitos carinhos, suspiros alongados, promessas de amor eterno.
A coisa, porém, não dura. Na sexta-feira, Boris chega em casa, beija Clarice. Apesar do sorriso aberto, seus olhos escondem uma nuvem ligeira de tristeza. Demora-se no banho. Veste uma espécie de quimono e fecha-se em seu santuário, enquanto aguarda que a esposa o chame para jantar. 
Clarice capricha na comida, apesar de sua pequena familiaridade com os assuntos domésticos, típico de filha única e muito mimada.
– Boris! – ela o chama – a comida está na mesa, meu bem!
Ele não responde. Acostumada às suas meditações, momentos em que se desliga completamente da vida ao seu redor, ela entra no santuário e o encontra deitado de costas no chão.
– Meu bem! – toca-lhe delicadamente o rosto.
– Boris! A comida está esfriando!
Ele não se move. Ela pega em suas mãos que estão entrelaçadas sobre o peito. Estão geladas.
Em poucos minutos a casa está cheia de gente. O padre é o primeiro a chegar. Os pais de Clarice entram minutos depois. Em seguida precipitam-se os pais de Boris acompanhados pelo médico:
– Ele não respira. Não tem pulso. Infelizmente... Vocês precisam ser fortes, precisam aceitar que o rapaz está morto.
Clarice desespera-se e desfalece nos braços do pai.
– Precisamos levá-lo para o Hospital Regional do Oeste, em Chapecó, para fazer autópsia.
– Precisamos coisa nenhuma! – opõe-se o pai de Boris – Ninguém vai cortar meu filho. Se for preciso compro o delegado, o juiz, o prefeito e até o governador do Estado, mas ninguém vai abrir meu filho.
Alfredo, amigo de infância de Boris e papa-defunto, entra na casa e depara-se com o amigo morto. Lembra-se do precioso caixão de primeira que expõe há muito tempo na pequena vitrine da loja: “Finalmente achei um freguês para o meu brinquedinho” – congratula-se.
Os móveis são afastados ou levados para outro cômodo. O caixão ocupa o centro da sala. As janelas são cobertas com faixas roxas e amarelas de tecido e os espelhos da casa escondidos sob lençóis ou cobertores.
Clarice está desconsolada. A notícia espalha-se como um incêndio. Logo a casa está repleta de parentes, amigos e curiosos.
A madrugada vai ser longa. Uma senhora enlutada passa uma garrafa térmica de café que oferece naqueles famigerados copinhos de plásticos tão finos e moles que são quase impossíveis de se segurar. Os mais familiarizados pegam dois ou três, encaixados um no outro. Os mais ingênuos ficam trocando de mão o tempo todo até que o café esfrie. As carpideiras profissionais entram sem ser convidadas, todas de negro: vestidos, lenços, véus, mantilhas e alma. Derramam lágrimas venais sobre o morto e vão fazer bolinhos de chuva na cozinha.
Alguém saca uma garrafa de caninha e, rejeitando o café, aproveita os copinhos plásticos para distribuir uma rodada. A madrugada vai ser longa.
As amigas procuram consolar Clarice:
– Você precisa ser forte, minha querida! – nada mais antigo e idiota. No íntimo elas pensam: “Bem-feito, nem meu nem seu”. Pior para a invejosa, pois a inveja é um ácido que corrói as entranhas de quem a cultiva.
O velório transcorre dentro da maior normalidade. Os assuntos sucedem-se dentro do roteiro ancestral: primeiro fala-se dos mortos recentes e próximos, depois dos mortos ilustres, então são nomeados os mortos prováveis.
– O Genaro está fazendo hora-extra, você não acha?
– E o Aldo da óptica? Ele já devia ter desencarnado há muito tempo. A mulher dele já bateu as botas há mais de quinze anos. Acho muita desfaçatez dele ainda continuar vivo.
Em seguida, esgotado o assunto, passa-se a falar de doenças. Pessoas piedosas, elas descrevem os sintomas com zelo, evitam nomear certas enfermidades e intimamente se regozijam de Deus ter escolhido a Laura ou a Marta para receberem essa “doença maldita” e não elas.
Os homens esgotam rapidamente sua quota de mortes e doenças, logo estão falando de futebol e mulheres. A garrafa de Tessarollo, já seca, é substituída por uma Bylaardt que o Afonso, dono do boteco, guardava havia muitos anos para uma ocasião especial. A casa está repleta de gente. O padre aproveita a ocasião para passar o chapéu. Garante que é para comprar flores e uma coroa para o morto.
Ao cheiro de velas mistura-se o de fritura, de café, de cachaça e de peido, já que o Mundinho, grande e gordo liberava seus gases sem o menor constrangimento. A viúva cochila num sofá, rendendo-se ao cansaço, embalada pelo burburinho monótono dos cochichos e pela luz débil das velas. Os pais também dormem. A casa esvazia-se lentamente. O padre foi o primeiro a desertar, não sem antes ter conferido o resultado da coleta.
– Flores? Coroa? Esse dinheiro será usado para a caridade! – promete o padre, se existe caridade em benefício próprio.
Embriagados, alguns homens contam piadas. A princípio em voz baixa, mas à medida que os rótulos de pinga se sucedem as vozes se elevam e as gargalhadas tornam-se inevitáveis. Definitivamente, o clima de consternação se dissipa.
A viúva acorda com a algazarra, levanta-se e aproxima-se do caixão. As gargalhadas cessam quase instantaneamente. Um silêncio opressivo invade a sala. A luz das velas, à cabeceira do defunto, bruxuleiam sinistramente. A sombra do nariz do morto move-se sobre suas bochechas e seus lábios parecem alongar-se, esboçando algo como um leve sorriso.
Boris abre os olhos, um par de olhos vazios e sem brilho parecem fixar-se no lustre que pende do teto, depois adquirem um débil brilho. Sua respiração retorna aos saltos para estabilizar-se em seguida. Então o morto senta-se no caixão.
Clarice está estatelada no chão há pelo menos dois minutos. Dessa vez seu pai não estava perto para ampará-la. Os homens esfregam os olhos e contam as garrafas que jazem em fila sob as cadeiras. As mulheres persignam-se. As beatas falam em milagre, os místicos em assombração. Boris é o novo Lázaro. A ciência não consegue explicar o fenômeno. Sem diagnóstico comprovado, o médico fala em catalepsia.
Na manhã seguinte, o pai de Boris mata dois bois e improvisa um churrasco na fazenda para festejar a ressurreição de Boris, só Alfredo não parece muito entusiasmado. Metade da população aflui com entusiasmo. Afinal, Elvis não morreu.
O caixão volta para a pequena vitrine da loja de Alfredo, as carpideiras vão chorar em outra freguesia. A vida teria voltado ao normal não fosse, na sexta-feira seguinte, Boris entrar no seu santuário, depois de voltar do trabalho e de tomar um banho demorado, para ser novamente encontrado por Clarice, rijo, frio, estirado sobre os tapetes indianos.
Novo velório. Nova comoção. Novas lágrimas de várias qualidades. Mais trabalho para as carpideiras. Mais bolinhos de chuva. Mais garrafas de cachaça perfiladas sob as cadeiras. O caixão de Alfredo volta para o local de honra. Renova-se a esperança de uma venda lucrativa.
De madrugada. O morto volta à vida. A ex-viúva volta a esborrachar-se no chão. Escaldado, o pai de Boris prefere poupar os bois. O médico repete o diagnóstico e não se esquece de mandar a conta.

A história do morto redivivo que na primeira edição tinha ganhado apenas a rádio e o jornal local, desta feita ganhou contornos regionais, repercutindo fortemente nas cidades vizinhas.
Boris tornou-se objeto de curiosidade. Sua casa transformou-se em endereço de peregrinação. Das cidadezinhas vizinhas, chegam benzedeiras, rezadeiras, pastores protestantes, curas de todas as designações, pais de santo, gurus, macumbeiros, traficantes, cartomantes, até um rabino que garante que Boris é – ou será era? – judeu-russo. Cada um interpreta o fenômeno segundo suas crenças e preconceitos. O guru de Boris garante que é seu carma. Parece fazer sentido.
Todos querem vê-lo, tocar em seu corpo. Sua vida não pode mais ser considerada normal. Clarice experimenta seu inferno particular. Boris já não pode ir trabalhar.
Entretanto, toda a confusão não impede que, na sexta-feira, Boris entre no seu santuário e seja, algum tempo depois, encontrado por Clarice friinho da silva.
A história se repetia. Mais uma vez as famílias realizaram o velório. Mais uma vez o caixão de primeira voltaria para a pequena vitrine da loja do amigo. O Alfredo já pensava em criar um novo tipo de serviço: aluguel de caixão. O frete da Kombi preta, que costumava ficar estacionada em frente à loja, tinha de ser cobrado de alguma maneira.
A notícia da terceira ressurreição leva o drama até a capital e rompe as fronteiras do Estado. Isso tinha de acabar.
Uma reunião de família decidiu que não fariam mais velório em casa. Às sextas-feiras, o corpo de Boris seria levado para a loja do Alfredo, colocado no caixão e deixado lá, sozinho, até o dia seguinte. A viúva concordou. Estava cansada de estatelar-se no chão toda madrugada de sábado. Os mais crédulos achavam que o caixão de primeira do Alfredo tinha alguma qualidade mágica, tanto que ele começou a vender caixão de primeira como nunca, apesar de não se ter notícias de outras ressurreições. Das cidades vizinhas chegavam encomendas diárias, os lucros se multiplicavam e o Alfredo já pensava em trocar a Kombi.

A Dinorá tinha chegado à cidade havia pouco tempo. Deixou as praias de Itabuna, na Bahia, e veio esconder-se no interior de Santa Catarina. Conseguira um emprego de manicure no salão de barbeiro e tentava levar uma vidinha pacata, sem chamar a atenção das pessoas sobre ela, como se isso fosse possível.
Na antevéspera de seu casamento, Boris foi ao barbeiro. Cortou o cabelo e sentou-se diante de Dinorá para fazer as unhas. Seus olhares cruzaram-se por um segundo. Ela abaixou a cabeça, mas sentia que Boris a observava. Ele nunca vira nada parecido em sua vida. Primeiro, a cabeleira vasta que lhe cobria a cabeça e lhe emoldurava o rosto: farta, anelada, escura. Depois, a boca rubra, de lábios túmidos e úmidos, verdadeira tulipa encarnada prenhe de orvalho, certamente a porta de um abismo profundo de segredos inexprimíveis. As maçãs do rosto eram como dois pequenos seios gêmeos desprovidos de auréolas. Seu nariz dava personalidade ao seu rosto e seu queixo dotava-o de certa arrogância.
Então, ela o olhou mais demoradamente, com aqueles olhos amendoados, ligeiramente oblíquos. Não foi um olhar qualquer. Dinorá não olhava como qualquer mulher, seu olhar era como lâminas de aço que entram em nossa retina, atravessam nosso cérebro, descem por nossa coluna vertebral, atingem nosso cóccix e são capazes de lhe revelar a cor e até a marca de nossa cueca.
Boris sucumbiu. Dinorá abaixou seus olhos, mas o estrago já tinha sido feito. Seus olhos desceram em direção ao colo da moça. Aquela cor de pele, entre o calor do cobre e a frieza do bronze. Um tom indefinível, uma textura inefável. Seus olhos pararam em seus seios pequenos, tentava adivinhar seus contornos, o tamanho das auréolas. Dinorá arfou debilmente e seus mamilos enrijeceram-se. Seu vestido fino de jérsei revelava generosamente suas formas. Boris avaliou seus braços nus, suas carnes rijas... Seus olhos viajaram de seus ombros à suas mãos, fortes, bem delineadas, proporcionais.
– Você está gostando? – lançou as palavras numa indagação dúbia.
O noivo demorou alguns instantes para responder. Aquele hálito perfumado, aquela voz morna, Boris estava extasiado.
– Sim, linda! Digo, lindas! Estão ficando lindas! – gaguejou desajeitadamente.
Dinorá parecia rir intimamente.
A mente de Boris antecipava as cenas do casamento. A espera no altar, a entrada de Clarice, aquela bonequinha loira que ele conhecia tão bem.
“O que era aquilo que estava a sua frente?” – tentava recuperar a razão.
O toque da mão de Dinorá parecia carregado de eletricidade, aquela suavidade com que ela prendia seus dedos.
Aqueles vinte minutos em que Dinorá ficou perto dele foram terríveis, indefiníveis. O odor de alfazema que seu cabelo exalava, o cheiro adocicado de seu suor, o calor que seu corpo irradiava. Ele fora possuído.
Dinorá tinha uma história de casamentos desfeitos, de esposas ciumentas que prometiam matá-la, reações às quais nunca dera muita importância até o dia em que a filha de um grande fazendeiro de Itabuna contratou um matador de aluguel para caçá-la. O marido-amante não pôde garantir-lhe a segurança, mas deu-lhe algum dinheiro para deixar Itabuna.
No dia seguinte Boris voltou à barbearia. Com o consentimento do barbeiro, levou Dinorá para um cômodo nos fundos do salão e a amou loucamente. A morena era um vulcão, uma fêmea enlouquecida e sem limites.
Tivesse Dante conhecido Dinorá, teria esquecido seu amor espiritual, platônico por Beatriz e preferido ficar no inferno com ela, ardendo nas chamas daquele fogo carnal.
As mortes e as ressurreições de Boris continuavam a maravilhar a mídia. Às sextas-feiras, o iogue era levado à funerária e às segundas era resgatado. Ninguém conseguia explicar o mistério que envolvia Boris.

Um dia, enquanto me ocupava da revisão de um texto sobre o fenômeno catarinense na redação da emissora de televisão na qual trabalhava em São Paulo, o editor-chefe postou-se às minhas costas, entreleu o texto e decidiu:
– Prepare suas coisas. Você vai conhecer o Boris. Só me volte aqui com esse caso esclarecido.
Cheguei à cidade, instalei-me no pequeno hotel que ficava na praça principal da cidade entre a farmácia e a quitanda e comecei, o mais discretamente possível, minha investigação.
Procurei primeiro o delegado. Não tinha um. Havia apenas um sargento da polícia militar, barrigudo, desleixado e bonachão que respondia pela função de delegado. Pouco sabia. Falou em assombração, reencarnação, almas penadas e outras sandices.
Procurei o padre. Tentou apresentar uma teoria bíblica para o fenômeno. Prometeu apresentar-me ao Boris ainda naquele dia, mas antes me apresentou a caixinha de contribuição na qual fui compelido a enfiar cinquenta pratas, já que não dispunha de dinheiro trocado.
Não quis conhecer o Boris de imediato. Preferi sondar a vizinhança e ouvir as diferentes versões da história. Não havia duas coincidentes, mas todas convergiam para um fato. Às sextas-feiras, o Boris morria e era levado para a funerária. Eu teria de ficar na cidade por dois dias inteiros se quisesse testemunhar o passamento do Boris.
Passei dois dias aborrecidos, tomando cerveja e jogando conversa fora com os habitantes supersticiosos da cidade.
Finalmente, chega sexta-feira. Fim da tarde, as ruas esvaziam-se rapidamente. O sol desmaia atrás dos morros baixos e a noite força sua entrada no céu cinzento a leste. Um vento aziago varre a rua da funerária. Uma coruja solitária, num voo curto, refugia-se sobre o transformador de um poste de luz. Algumas folhas mortas prendem-se aos meus pés. Estou sozinho, escondido atrás de uma sebe que emoldura uma praça. O silêncio é quase absoluto. Ouço meu coração batendo em meus ouvidos. “Que diabo – penso – parece que estou com medo”.
Repentinamente, uma luz acende-se no final da rua. Um carro aproxima-se lentamente. Procuro tornar-me o mais invisível possível. A perua preta para em frete à funerária: novíssima, brilhante. Alfredo desce, entra na funerária e volta com uma espécie de maca provida de rodas. Abre a porta traseira da perua, desliza o caixão de primeira sobre a maca e o prende a ela com tiras elásticas. Fecha o carro e leva o cadáver para dentro.
Confesso que a cena me deixa desconfortável. Por alguns minutos fico sem reação. A rua está deserta. A população parece temer o que não compreende. Quando me preparo para sair de meu esconderijo com a intenção de entrar na funerária e pôr a história toda em pratos limpos, vejo um vulto se aproximar da loja do Alfredo. Passos rápidos e tensos, cabeça coberta por um capuz de moletom, postura de determinação.
O vulto entra na funerária sem bater. A porta está aberta. Espero alguns segundos antes de segui-lo. Percebo que uma luz acende-se num cômodo situado nos fundos do terreno. Entro silenciosamente. Não há ninguém na loja, apenas um caixão de primeira me espia da vitrine. Entro vagarosamente na sala atrás do balcão. Um cheiro forte de formol agride minhas narinas. Tenho dificuldade para respirar. O som do choque de um besouro contra a vidraça da loja me desperta um arrepio. Realmente, tenho medo. Perscruto a sala em semipenumbra. Ninguém. Apenas um caixão abandonado sobre uma maca. Aprofundo-me mais na loja.
Há um pequeno quintal com uma saída lateral. O portão está aberto. Certamente o Alfredo saiu por ali. Há luz acesa na edícula. Escuto. São ruídos de vozes sussurradas, risinhos entrecortados, gritinhos. Aos poucos o barulho aumenta. Transforma-se numa enxurrada de palavrões e gemidos de mulher. Então cessam, para recomeçarem logo depois.
Sento à porta e aguardo. A barafunda dura a noite toda. Pouco antes do amanhecer, o morto deixa a edícula e volta para a sala da funerária. Escondido atrás do tanque, deixo que Boris cruze o quintal e desapareça.
Entro no quarto da edícula. Dinorá dorme de bruços, a perna direita nua até a altura das nádegas escapa do lençol amarrotado. As primeiras luzes da manhã iluminam aquele monumento de bronze. Sento-me numa poltrona ao lado da cama e aguardo que ela desperte. Tenho uma proposta a lhe fazer.
Dinorá manda um recado a Boris revelando as condições do acordo que tinha feito comigo. O mistério do morto renitente permaneceria misterioso. Eu não revelaria sua história e ele se afastaria da Dinorá e do risco de ter de enfrentar o sogro. Sua técnica hindu de redução dos batimentos cardíacos e de simulação de estado cataléptico não seria mais utilizada. Relutante, Boris aceita. Deseja salvar seu casamento e escapar da fúria do sogro e sabia que aquela farsa não podia durar para sempre.

Eu também cumpri minha parte no acordo. Liguei para a emissora, disse que tudo se tratava de uma farsa grotesca. Pedi demissão e solicitei que me enviassem meus pertences.
Resolvi contar toda a história do morto renitente, mas tive o cuidado de trocar os nomes de algumas pessoas e de não mencionar o nome da cidade. Quem poderá garantir que não troquei também o nome do Estado?
Apenas uma pessoa pode confirmar a veracidade do meu conto. Depois de digitar a palavra fim, encerrando este conto, vou me deitar na minha cama e deslizar minhas mãos nas coxas macias de minha mulher.
– Não é, Dinorá?

(08 de setembro de 2008)

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Raul no Espelho


Raul abriu a porta da sacada do acanhado apartamento para que a noite entrasse fria, úmida, preguiçosa. Sem lhe pedir licença, o cheiro do mar veio instalar-se na sala, acompanhado de um marulhar suave que cantarolava gravemente sua monotonia. Tirou cuidadosamente seu saxofone do estojo, montou-o e o encaixou no suporte. Escolheu, na confusão de folhas, álbuns e livros que mantinha sobre a cama, uma amarelecida partitura de My Romance, um standard norte-americano composto por Lorenz Hart, e a colocou na estante. Pacientemente, aguardou que a lua viesse se exibir no espelho que cobria parte da parede defronte a sacada para, só então, começar a estudá-la. Seriam longas horas de ensaio até que a melodia lhe parecesse sair sem esforço, com perfeição.
Gostava de ver a lua refletida no espelho, sentia-se romântico, inspirado. Não sabia a que atribuir essa paixão pelo nosso satélite, mas gostava de ficar acordado vendo a lua escalar o espelho de sua sala até desaparecer na proximidade do teto num ocaso precoce.
Ele amava Mariana, a baiana de pele acobreada, de coxas roliças, de nádegas lascivas, de seios pequenos e rijos, de boca voluptuosa, de sorriso malicioso, de hálito cheiroso e de olhar provocante. Seus cabelos cacheados criavam a moldura perfeita para aquele rosto maroto. A moça provocava sonhos libidinosos, despertava o apetite, destroçava corações e sabia disso, tinha consciência de sua exuberância, de seu poder de sedução. O músico vivia nas nuvens, feliz como um menino que descobre um cromo carimbado num envelope de figurinhas: Mariana era dele. Porém, como alguém que perde a capacidade de avaliar a natureza de um quadro por aproximar-se demasiadamente, o rapaz não era capaz de julgar a real natureza de Mariana. Decompunha ingenuamente a moça: olhos, boca, sorriso, coxas, seios, nádegas, cabelos... Amava cada detalhe da linda baiana, mas não era capaz de saber se amava Mariana.
O sujeito nunca fora grande coisa em nada, nunca se destacara da turma. No futebol, era um jogador medíocre que se virava mais-ou-menos-bem no meio-campo, sem tentar grandes firulas. De estatura mediana, tinha aparência agradável, mas sem ser bonito. Não era nem gordo, nem magro. Na escola, sempre fora um aluno regular. Não era um grande músico, mas conseguia ganhar dinheiro suficiente para enfrentar as despesas cotidianas. Não era estúpido, mas também não era brilhante. Não era capaz de maiores elucubrações mentais, nem se preocupava com assuntos que fugissem ao seu principal interesse: a música. Apenas em uma coisa ele superava a mediocridade: possuía o pavio mais curto de que se tinha notícia na vizinhança. Esquentado, quando o tiravam dko sério, era capaz dos maiores desatinos, de atos desconcertantes, de violências inauditas. A raiva o transformava num verdadeiro sol escaldante.
Mariana morava em uma modesta pensão a poucos quarteirões do prédio de quatro andares onde Raul vivia. Todos na pensão o conheciam, bem como sua fama de valentão e agastado. Ela dizia trabalhar na casa de uma família de ricaços que ocupava um terreno imenso na parte alta da cidade. O músico nunca se preocupara em verificar a veracidade da história, nem reparara nas roupas caras e nas joias que ela passara a usar havia algum tempo.
A lua percorria o meio do espelho e a melodia começava a escoar das curvas douradas do saxofone com alguma facilidade e beleza, macia, densa e cálida como os doces seios da baiana. Raul pensava na letra da canção, escrita por Richard Rodgers:
My romance doesn’t have to have a moon in the sky.”
Realmente, a paixão do moço não precisava de uma lua no céu, brilhava só para ele no espelho barato que forrava a parte central da parede descarnada da sala do apartamento.
O aniversário de Mariana seria na semana seguinte. Raul preparava-se para lhe fazer uma surpresa: tocaria “My Romance” no limiar da porta de seu quarto, na velha pensão que ficava nas proximidades do cais. Durante cinco dias, ensaiou até a lua desaparecer do velho espelho. Estava satisfeito. Com certeza, Mariana ficaria comovida. Imaginava-se beijando aquela boca carnuda oferecida como recompensa pelo presente inesperado.
Além de tocar para ela, queria lhe fazer outro mimo. Pensou em muitas coisas, mas acabou decidindo lhe comprar flores. Queria flores que fossem capazes de rivalizar com a beleza de Mariana.
No grande dia, contrariando seu hábito de dormir até tarde, Raul levantou-se cedo e foi à floricultura do bairro. Mostrou-se indeciso diante da profusão de flores: rosas, alstroemérias, gérberas, tulipas, frésias, anêmonas, kalanchoes, lisianthus, tulipas, girassóis, lírios, orquídeas... Impossível decidir-se. O músico deixou-se convencer pela florista a levar um pequeno vaso com uma belíssima orquídea branca, rival à altura da beleza angelical de Mariana.
A lua já vai alta no espelho. Raul demora-se, capricha no banho, escolhe sua melhor roupa, escova os cabelos crespos untados de gel, lustra os sapatos, acomoda com carinho o saxofone no estojo, pega o vaso com a orquídea branca e deixa o pequeno apartamento.
O cheiro de maresia o recebe à saída do prédio. Uma brisa fresca percorre lentamente a noite densa. O barulho do mar embala os pensamentos de afeto de Raul. O músico masca palavras de amor. Descontrolados, seus lábios murmuram: Mariana, Mariana! A lua o precede, iluminando seu caminho com pálidos raios de luz. Um sorriso involuntário desenha-se em seu rosto. Em sua mente, reverberam palavras da canção que vai dedicar a Mariana:
My romance doesn’t need a thing but you.”
Raul atravessa o vestíbulo e a sala da pensão sem cumprimentar ninguém. Sobe apressadamente a escada. O velho casarão colonial iria se transformar no palco de uma tragédia previsível. Um forte cheiro de café requentado impregna o ambiente despojado. Uma nuvem mal-cheirosa de fumo barato orbita o lustre central da sala. Cala-se o palavrório indecifrável. Uma fraca luz amarela esforça-se para manter visível o palco inopinado. Uma mosca desorientada arremete-se contra uma xícara rota em que não há mais café. Em condições normais, Raul criticaria asperamente o barulho e o mau cheiro da pensão, mas ele não se dá conta de nada. Seu coração acelera-se antecipadamente, seu pensamento percorre o rosto perfeito de Mariana, os olhos inocentes, o nariz altivo, a boca sardônica.
Os pensionistas conhecem o temperamento irascível do músico. Sabem de seu caráter explosivo e temem o pior. Alguém reduz o volume do televisor e todos se postam ao pé da escada esperando o pior.
Sem bater, saxofone nas mãos, o músico empurra a porta do quarto de Mariana e grita:
– Surpresa! Feliz aniversário, minha nêga!
Mariana já usufruía seu regalo de aniversário. Suas nádegas nuas, rijas, acobreadas, luziam na meia-luz do quarto. A moça, amazona experimentada, galopava impudicamente seu presente.
Ao pé da escada, ouve-se um estalo seco, depois o ruído grave de alguma coisa pesada a cair no soalho. Os corações disparam. Dona Zilá, a proprietária da pensão, corre ao telefone para discar 190.
Instantes depois, no topo da escada, como um sol ebuliente, surge Raul, lívido, trêmulo, transtornado. Apoia-se no corrimão e desce rapidamente os degraus. Na mão esquerda traz o saxofone. Passa por entre os curiosos como uma labareda e desaparece pela porta da frente da pensão.
Um inquilino sobe a escada, vai ao quarto de Mariana e volta em seguida:
– Dona Zilá, cancela a polícia!
– Ele não matou a coitadinha?
– Não, senhora, dona Zilá! O que ouvimos foi, primeiro, o ruído do vaso que ele deixou cair no chão e, depois, o barulho do saxofone que caiu também.
Alívio geral. Depois um fluxo interminável de gargalhadas.
– No fundo, no fundo, todo machão é um corno manso! – brincou alguém.
Raul caminha vagarosamente em direção à praia. Misturados à espessa bílis, sua boca mastiga adjetivos de raiva, rancor e despeito que não tem ânimo de pronunciar. Placidamente, a lua cheia navega alta no céu claro, estrelado, mas ele a vê embaçada pelas lágrimas que insistem em cair de seus olhos. Atravessa a avenida beira-mar e segue a mureta que contorna a praia. Anda até a parte mais alta da ponte e sobe lentamente no parapeito. Olha para baixo. O luar ilumina as águas do rio e do mar que se digladiam ferozmente sobre o leito de pedras. Olha uma vez mais para o céu à procura da lua. Ela esta lá, solitária como ele. Uma brisa mais forte provoca-lhe um leve desequilíbrio e um arrepio desagradável de morte lhe percorre todo o corpo. A lua é a única testemunha de seu desatino. Raul chora copiosamente. Em sua mente lateja a imagem das ancas morenas de Mariana, reluzindo num galope frenético na débil luz do quarto.
O músico permanece sobre o peitoril da ponte na esperança de que alguém o dissuada de sua loucura. Não há ninguém. Então, balança o corpo para trás e, com enorme ímpeto... arremessa seu saxofone nas águas turvas da baía.
Por alguns instantes pode acompanhar a caixa negra a flutuar na espuma branca do mar, banhada pela luz indiferente da lua, até desaparecer na correnteza escura.
Raul volta para seu apartamento. Havia muito, a lua tinha se posto no horizonte plano de seu espelho, mas a imagem do músico está lá. Parece ainda menor, adquiriu a estatura minúscula dos derrotados. A valentia de Raul esgotara-se nos olhos insidiosos de Mariana, nas suas curvas perversas, na sua boca ardilosa.
Raul está arrasado. Descobriu que sua valentia não o transforma no sol. Raul não é o sol. Raul, no espelho, é luar.




(12 de março de 2009)


quarta-feira, 28 de novembro de 2018

História das Trevas


Mais de mil anos de obscurantismo, servidão, ignorância, miséria, terror e desesperança: essas são as principais características que se pode associar ao período a que se convencionou chamar de Idade Média e em que subsistiu a mais feroz experiência comunista a assolar a humanidade.
Desde o fim do Império Romano do Ocidente, em 476 D.C., até a queda de Constantinopla, remanescente oriental do Império, em 1453, invadida e destruída por turcos-otomanos, os europeus ficaram expostos a toda espécie de tirania: sem liberdade de locomoção, sem direito de escolher seu destino, sem direito a propriedade, sem direito sobre a própria vida ou a de seus descendentes, enfim, sem garantia de quaisquer direitos e sem acesso a educação formal e a cultura. Ademais, subjugados pela ideologia do teocentrismo, capitaneada pela Igreja Católica, o mais poderoso senhor feudal dessa era, a população ficou entregue a guerras, doenças e pragas, a humilhações, à fome, a castigos corporais e a autos de fé promovidos pelos senhores do Clero, mecanismo que lhes permitia governar pelo terror e apropriar-se dos bens dos indivíduos por eles condenados. Essas carências e agruras limitaram o crescimento populacional, fazendo com que a população mundial apenas dobrasse nesses mil anos, de 190 milhões no século V para 380 milhões no século XV.
Constantinopla havia se transformado na principal cidade em que algo da antiga civilização romana ainda resistia, com intenso movimento de mercadorias e circulação generalizada de moeda, contrastando com a prevalência do sistema de escambo e a quase inexistência de monetização na economia feudal. Sua destruição pelos turcos provocou o cessamento do fluxo de mercadorias que abastecia a Europa com tecidos, especiarias e outros bens provenientes da Índia e da China, mas, principalmente, bloqueou a rota de acesso aos Balcãs de onde partiam as caravanas trazendo escravos para o mercado de trabalho europeu.
A interrupção do fluxo de produtos do Oriente compeliu os europeus a procurarem rotas alternativas para a manutenção do comércio e para obtenção de mão de obra como forma de garantir a sobrevivência de seu sistema econômico. A busca de novas fontes de abastecimento de escravos levou ao costeamento da África, forçando-os a procurar informações geográficas mais apuradas, a adquirir novos conhecimentos náuticos e a desenvolver novos modelos de embarcação. O sucesso dessa empreitada franqueou-lhes o acesso a minas de ouro africanas e a mão de obra escrava retirada à força do continente negro.
O retorno de Marco Polo da China, com novos mapas sobre a distribuição dos Continentes sobre o Planeta e a sinalização de novas e possíveis rotas marítimas são algumas das prováveis sementes que ajudaram a inaugurar uma nova era: o Renascimento. O Renascimento trouxe mudança filosófica basal ao introduzir a concepção antropocêntrica do mundo, colocando o Homem no centro do Universo. Gradualmente, essa nova doutrina se impôs, negando a perspectiva teocêntrica medieval. Essa visão humanista despertou o interesse pela pelas realizações da cultura greco-romana, levando à valorização das potencialidades humanas, da faculdade racional dos homens, de sua capacidade de criação artística, de seu poder de observação e registro dos fenômenos naturais, e da possibilidade de realização de cálculos complexos. Recuperou o interesse pela organização política, tema muito valorizado no passado clássico.
O Renascimento foi o berço de uma revolução científica que produziu inovações tecnológicas sem precedentes, levando, por exemplo, à invenção da imprensa tipográfica, ferramenta facilitadora da divulgação e popularização de informações e do registro do conhecimento humano. Martinho Lutero traduziu a Bíblia para o idioma alemão e providenciou sua impressão usando a nova tecnologia tipográfica. Para proporcionar uma ampla divulgação dos textos bíblicos, tornou-se necessária a alfabetização dos seguidores do novo culto. A impressão das traduções dos textos bíblicos viabilizou o avanço da Reforma Religiosa desencadeada por Lutero e seguida por Jean Calvino, Ulrich Zwinglio e Philipp Melanchthon, entre outros.
O sucesso do Renascimento, que levou a seguidas revoluções industriais e tecnológicas e ao Capitalismo, pode ser aferido pelo crescimento da população mundial. Em 1850, os habitantes do Planeta já superavam a marca de um bilhão, contra menos de 500 milhões em 1550. Em 1950, já havia mais de 2,5 bilhões de pessoas sobre o Planeta.
A expansão marítima europeia, a introdução de novas técnicas de produção, como a divisão do trabalho, a monetização da economia, a intensificação do comércio, o acúmulo de capitais, a popularização de pesquisas nas mais diversas áreas levaram ao aumento da oferta de alimentos, à criação de novos medicamentos e vacinas, à democratização da propriedade, ao surgimento de uma classe média alfabetizada, à limitação do poder do Estado, à distribuição de justiça etc., serviram de base para a institucionalização do Capitalismo e explicam a razão do sucesso dos seres humanos na Terra.
O Socialismo aparece como uma reação a esse despertar cultural, à modernização econômica, à valorização do indivíduo, à proclamação de direitos iguais para todos os homens e à declaração de amor à liberdade. O Socialismo constitui um movimento reacionário, de reação aos valores renovados pelo Renascimento e, como tal, pode ser nomeado de contra-Renascimento.
O Renascimento dos séculos XV e XVI resgatou a religiosidade da alma humana e devolveu a crença na capacidade de grandes realizações da humanidade. A beleza na arte passou a ser concebida como expressão dos princípios científicos mais avançados recém-redescobertos. As mentes mais agudas voltaram seus olhos e seus pensamentos para o cosmos, para os oceanos quase desconhecidos; mapearam o sistema solar e as rotas que levaram às grandes descobertas marítimas e propiciaram a melhoria do padrão de vida, de bem-estar e de conforto da humanidade.
Os socialistas como que criaram uma lista dos grandes feitos do Renascimento e apontaram para ela como realizações a serem revertidas. O conceito de alma foi minado pela mais sórdida campanha intelectual na história; a arte foi forçadamente separada da ciência, e a ciência em si foi transformada em objeto de profunda suspeita. Para essa ideologia, a arte tornou-se feia porque a vida é feia.
O projeto de destruição das ideias culturais do Renascimento, responsáveis pela construção da civilização moderna, teve início com uma conspiração política formal visando a fortalecer teorias que tivessem sido propositadamente criadas com o objetivo de enfraquecer o espírito da civilização judaico-cristã de modo a levar as pessoas a aceitarem que a criatividade não é possível, que a aderência à verdade universal é evidência de autoritarismo e que a razão em si é suspeita. Essa conspiração foi tão bem sucedida que se apossou de nossa cultura e hoje não já não é mais uma conspiração, pois adquiriu vida própria.
Atualmente, as pessoas aceitam um nível de fealdade em suas vidas sem precedentes na História da civilização ocidental. A maioria de nós se tornou tão habituada à feiura que a morte de milhões de pessoas em homicídios brutais, em guerras injustificáveis, em desastres banais de trânsito, por fome e por doenças tratáveis não nos tira mais do que um bocejo aborrecido ou um murmúrio enfastiado de protesto. Hoje, há música por toda parte, feia, ubíqua, inescapável, cuspindo obscenidades, ferindo nossos ouvidos. Chama-me de arte plástica a coleções de fealdades sem sentido, incompreensíveis, inexplicáveis. São feias as nossas roupas; são feios nossos corpos mutilados por tatuagens, tintas, pinos, e piercings, como uma negação á nossa humanidade; é feia nossa arquitetura; é feio nosso teatro. Por toda parte, submete-se ao império do mau gosto, da indecência, da grosseria... A tecnologia não nos serviu de ferramenta para nos tornar seres humanos melhores, para promover nossa evolução intelectual ou para simplesmente nos aprimorar como gente. Todo esforço tecnológico parece servir apenas para criar adultos infantilizados, em fuga constante da maturidade e de suas responsabilidades de adulto.
Movimentos niilistas explícitos, que pregam abertamente sobre inutilidade da cultura ocidental e defendem a destruição das crenças e valores tradicionais e a aniquilação da cultura ocidental, são festejados por conspiradores incansáveis e por imbecis crônicos. A Semana de Arte Moderna de 1922 é um exemplo tupiniquim que confirma esse fato. O Manifesto Antropofágico, de Mário de Andrade e Raul Bopp, publicado em 1928, resume essa adesão à feiura. Os autores propugnam “devorar” a cultura e as técnicas estrangeiras e submetê-las a uma digestão crítica em nosso estômago cultural de forma a assimilá-las ou, ainda, vomitá-las se consideradas impróprias ou indesejáveis. Curiosamente, todos os participantes desse movimento defendiam posições à esquerda do espectro político. Nesse universo de negação total, os jovens partem para o terrorismo e para as drogas, substituindo a crítica filosófica e o posicionamento político racional por armas e bombas, e se sacrificam por coisas sobre as quais pouco ou nada sabem, mas creem saber.
Na última década do século XIX, as seções da Segunda Internacional Socialista se transformaram em grupos de fanáticos que se prepararam para deflagrar a guerra de classes. As últimas décadas do século XIX e as primeiras do século XX são marcadas por atentados terroristas, inexplicavelmente esquecidos ou apagados dos livros de História adotados em nossas escolas, que levariam à deflagração das duas Grandes Guerras, à morte de milhões de pessoas e à destruição de grande parte dos acervos arquitetônico e cultural do Ocidente. 
Na concepção de Hegel, o processo histórico e de formação da consciência restringe-se ao plano das ideias e representações, do saber e da cultura, não tomando em consideração as bases materiais da sociedade em que esse saber e essa cultura são produzidos e em que a se forma a consciência individual. Enquanto para Hegel o mecanismo que movimenta a história é a contradição dialética no campo das ideias, para Marx o motor da história é a luta de classes. Para entender a história, não se deve partir do que os homens pensam, mas da maneira pela qual produzem os bens materiais necessários à sua vida.
Há pouco mais de um século, os filósofos defendiam a necessidade de se examinar o próprio processo de conhecimento para evitar os erros e ilusões das antigas filosofias e das teorias pseudocientíficas e eliminar a falsa ciência das ideias criada pelos antigos pensadores ao longo de milênios. Para Marx, a ideologia é uma forma de dominação que legitima as condições existentes numa determinada sociedade num dado período histórico e provoca a alienação da consciência humana de sua real condição de existência dentro das relações de produção. Para Marx e Engels, a ideologia é entendida como uma falsa consciência, uma visão distorcida, um mascaramento da realidade, realidade opressora que faz com que seu caráter negativo seja camuflado. Essa afirmação decretou a morte de Deus.
Para a imolação de Deus, contribuiu também o Positivismo, termo criado pelo Conde de Saint-Simon e utilizado por seu seguidor Auguste Comte, no início do século XIX, para denominar sua corrente filosófica. Essa doutrina filosófica, sociológica e política surgiu como desenvolvimento natural do Iluminismo em resposta às crises social e moral do fim da Idade Média. Propõe a adoção de valores exclusivamente humanos à nossa existência e repudia radicalmente a teologia e a Metafísica, embora as incorpore em uma filosofia da História. O Positivismo defende a ideia de que o conhecimento científico é a única forma verdadeira de conhecimento, desconsiderando a ciência ligada a crenças, superstições ou a qualquer outro fator que não possa ser comprovado cientificamente. Para essa corrente, o progresso da humanidade depende exclusivamente dos avanços científicos. Promove, assim, o racionalismo, culto à ciência, o mundo humanizado e o Materialismo, em detrimento da Metafísica e do mundo espiritual, seguindo a mesma trilha de racionalidade lógica inaugurada por René Descartes três séculos antes.
Embora antagônico a teses marxistas, o Positivismo contribuiu para o fortalecimento do materialismo e para o sepultamento definitivo do mundo medieval em que vigeu o Teocentrismo.
Nossa era sacrificou o Deus de nossos antepassados e entronizou em seu lugar o Estado provedor, omnipresente, tutelador, manipulador, opressor. Aceitamos com bovina passividade os horrores da civilização atual, convencidos de que são males inescapáveis, que vivemos sob a égide do materialismo histórico, propugnado por Marx, que nos condena ao determinismo absoluto, embora autores marxistas posteriores, como György Lukács, Antonio Gramsci, Pierre Vilar, Edward Thompson, Eric Hobsbawn, François Châtelet, entre outros, tenham tentado qualificar e atenuar as consequências filosóficas desse viés determinista.
 Nossas universidades foram tomadas por uma nova Comintern sob a capa do Politicamente Correto. Com o colapso da União Soviética, nossos campi agora concentram o maior número de divulgadores dos dogmas marxista no mundo. A irracional revolta juvenil dos anos 1960 se tornou institucionalizada em uma revolução permanente contra não sabem o quê. Não temos mais academias, nossas escolas se converteram em uma espécie de Gestapo de Hitler, a NKVD de Stálin; nossos estudantes se transformaram em gado que rumina bovinamente os dogmas marxistas ingeridos acriticamente.
Vivemos a Era da Histeria. Tenho dificuldade em convencer as pessoas de que a fealdade que nos cerca foi conscientemente preparada, imposta, fomentada e organizada de tal modo que a maioria da população perdeu a habilidade cognitiva para transmitir à próxima geração as ideias e métodos sob os quais nossa civilização foi construída. A perda dessa habilidade é o primeiro indicador de que uma nova Idade Média nos aguarda na próxima encruzilhada. Nessa encruzilhada, teremos de escolher a trilha a seguir: ou criamos um novo Renascimento dos valores e dos princípios fundamentais sob os quais a civilização ocidental foi erigida ou sucumbiremos nas trevas mais uma vez.


quarta-feira, 3 de outubro de 2018

De Palhaços, Circo e Pão

O palhaço se sentiu prestigiado, engrandecido, forte com os aplausos da plateia que ria de suas caretas, de seu linguajar chulo, de suas frases sem sentido, de suas bravatas. O público acreditou que, de tão absurdas as falas do bufão, tratavam-se de brincadeiras, de piadas de mau gosto, de pura encenação cômica.
Mas o palhaço não estava para brincadeiras, falava sério, seu discurso significava exatamente o que ele queria dizer, não era zombaria, não era mofa, não era pilhéria, e a empolgação da audiência o autorizava a crer que ela concordava com suas palavras.
O palhaço distribuía piadas e pão e as pessoas pareciam se sentir saciadas, parecia que isso lhes bastava. O truão se sentiu grande, achou que era o dono do circo, que possuía a consciência da plateia, que a tinha como refém.
Então, resolveu apoderar-se do circo, transformá-lo em um picadeiro no qual seria o único astro, de onde ouviria eternamente os aplausos do público a seus atos insensatos, a suas atitudes grotescas, a suas palhaçadas desengraçadas.
E as pessoas riam, achavam graça das atitudes bufas, do comportamento desarrazoado, dos atos agressivos, do malabarismo de sua lógica. Achavam-no caricato, simplório; não atinavam com as reais intenções do palhaço.
Apoderando-se do circo, o histrião passou a saquear as bilheterias; enriqueceu; enriqueceu sua trupe; enalteceu, prestigiou, financiou palhaços internacionais de laia semelhante à sua.
Não cuidou do circo. A lona rasgou-se, a estrutura ficou corroída, as tábuas do palco apodreceram, os equipamentos se arruinaram, as arquibancadas ruíram. Para que conservar o circo? Ele era o senhor do circo, o circo lhe pertencia, a plateia o adorava...
Então, o palhaço avançou mais uma vez sobre as bilheterias, esgotou-as quase completamente, construiu doze novos picadeiros pelo país afora e, cinicamente, os ofereceu ao público como uma grande pilhéria, aliás, sua maior piada.
A visão dos novos picadeiros provocou como que uma epifania coletiva. A plateia se deu conta de que por anos havia sido ludibriada pelo palhaço. Comparou a miséria de sua tenda com a suntuosidade presunçosa, descabida, arrogante, agressiva dos novos picadeiros. E deixou de rir. Percebeu que era possível viver em um circo comparável aos do primeiro mundo, sobejavam recursos nas bilheterias, na plateia havia pessoas capazes de realizarem a transformação. Dependia apenas dela, de sua vontade, exigir, liderar, realizar as mudanças.
E saiu às ruas rugindo, expressando seu rancor, seu desprezo pelo palhaço, pela sua trupe e por tudo o que eles representam.
Agora que a fantasia se rasgou, que a máscara caiu, o palhaço desapareceu, está escondido em seu camarim, refugiado no interior de algum trailer, torcendo para que o furor se amenize, para que o clamor se cale, e ele possa voltar ao picadeiro ainda mais poderoso.
O poder é nosso e o momento para se afastar de vez o palhaço é este.

sábado, 29 de setembro de 2018

O General e a Jabuticaba



O comentário do General faz todo o sentido, apenas veio fora de hora. Não há lógica em se pagar treze salários aos trabalhadores se as empresas faturam durante apenas doze meses por ano, a menos que se modifique o Calendário Gregoriano e se inclui o décimo terceiro mês, que poderia se chamar Jabuticazembro ou Jabuticabaneiro. Não existem conquistas trabalhistas, como querem fazer crer os políticos demagogos, iludindo vergonhosamente a classe trabalhadora ingênua ou mal informada. Cada “conquista” se dá, inapelavelmente, à custa do salário real mensal do trabalhador.
O empresário, quando contrata um novo trabalhador, não considera em seus cálculos econômicos, para tomada de decisão, apenas o custo do salário nominal mensal do novo empregado; ele compara o custo anual desse trabalhador com o produto marginal que este acrescentará à produção total no período, descontados todos os demais custos. O novo trabalhador só será contratado se esse custo for menor do que o valor que ele agrega à produção. Nenhum empresário contrata para ter prejuízo; não há direito trabalhista, não há lei de proteção ao trabalhador, não há conquista de nenhuma espécie que o faça operar com prejuízo. Ele simplesmente não contrata, contrata na informalidade ou fecha as portas e se muda para um país em que as leis sejam menos absurdas. 
O custo anual de um trabalhador inclui doze salários pagos por onze meses trabalhados efetivamente; mais um décimo terceiro salário (a chamada jabuticaba); um mês de férias acrescido de 40% do salário a título de abono; FGTS mais multa de 50% na hora de demitir o empregado; participação nos lucros; vale transporte; vale refeição; vale alimentação; auxílio creche; auxílio escola; PIS; Finsocial etc.
A cada nova “conquista“, o empresário ajusta o custo do trabalho via reduções do salário nominal mensal do trabalhador - por meio de sua demissão e substituição por um mais barato - ou pela aquisição de nova tecnologia poupadora de mão de obra; ou pela simples elevação dos preços de seus produtos, provocando aceleração da inflação e redução geral dos salários reais quando esse processo se generaliza.
O salário é função do produto marginal do trabalho e o salário real depende da produtividade marginal do trabalho. Só há ganho real de salário quando há aumento de produtividade. Essa é uma das leis de mercado e, como a lei da conservação da energia, não dá para ser abolida pela insanidade de um caudilho boçal ou por uma despropositada vontade humana.
Cuba e Venezuela são exemplos de tentativas de se substituir as leis de mercado pelos dogmas irracionais do socialismo.
O que vem de ser dito acima é corroborado pelos milhões de brasileiros desempregados, sub-empregados ou à margem do mercado de trabalho; subsistindo de trabalhos esporádicos ou de pequenos bicos; vivendo de favores da iniciativa privada ou do Estado; degradando-se e degradando logradouros públicos; mendigando nas ruas e extorquindo nos semáforos.
Os únicos beneficiários das “conquistas trabalhistas” são seus criadores, pois essa estratégia garante um discurso atraente e persuasivo que, infelizmente, ainda engabela a maioria dos eleitores e lhes garante seguidas reeleições. 
Os políticos parece enxergarem os trabalhadores como jabutis naïves e de raciocínio lento confinados em suas carapaças impermeáveis à lógica, condenados a zanzar sob a árvore funesta do Estado que, de tempos em tempos, quando chacoalhada, lhes concede o óbolo de um fruto que despenca de um galho inadvertidamente.
Resumindo: o General está certo, apenas disse o que disse no momento errado, para uma plateia errada e no país errado.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Fique Atento!

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Tenho dificuldade em fazer as pessoas entenderem o que é raciocínio conversivo, um transtorno psicótico deliberadamente implantado no indivíduo pelo uso de técnicas de controle da consciência desenvolvidas por psiquiatras em países sob regimes totalitários das primeiras décadas do século passado.
A técnica objetiva levar o indivíduo à afasia, isto é, levá-lo a ter dificuldade de expressão e de compreensão da linguagem falada, escrita e gestual. Através da produção de uma miríade de expressões, que isoladamente nada significam, e sua incessante repetição nas mais diversas situações, esse processo leva a distúrbios conversivos que são por natureza dissociativos, pois envolvem a exclusão de conteúdos mentais do controle e da consciência do indivíduo. Essa técnica é largamente aplicada nas escolas públicas.
Ao longo do processo, o indivíduo passa a apresentar esquizotipias, ou seja, adota comportamentos bizarros e excêntricos, têm crenças fora do padrão considerado de normalidade e pensamentos fantasiosos ou mágicos. Então, evolui para a histeria e para o delírio, isto é, a crença em fatos não verdadeiros que sustenta ferozmente mesmo diante de provas em contrário.
O artifício consiste em impedir qualquer contestação às afirmações e ao posicionamento de determinado grupo, o que se consegue pela criminalização do uso de determinadas palavras: a imposição do comportamento politicamente correto é uma forma de fazê-lo. Cria-se o Índex de palavras banidas e ameaça-se com multas e prisão o incauto que as usar: caolho, cego, surdo, mudo, aleijado, manco, perneta, maneta, negro, neguinho, negão, crioulo, mulato, cafuzo, pardo, gordo, magrelo, baixinho, anão, pederasta, prostituta, lésbica, paraíba, nordestino, velho, leproso, caduco, louco, mongoloide... A lista é imensa.
Acho que um exemplo de pensamento conversivo deve facilitar a coisa.
Em minhas discussões, inúmeras vezes obtive como resposta a uma argumentação a seguinte contra-argumentação: Você é radical! ou Você é fascista!
A lista de respostas prontas também é longa. Na falta de argumentos, além das duas palavras mencionadas acima, ouvimos: nazista, reacionário, conservador, neoliberal, burguês, playboy, explorador, escravagista, preconceituoso, homofóbico, direitista, coxinha, feminicida, estuprador, golpista, xenófobo, racista, misógino, sexista, capitalista... Ou partem para a porrada.
Se você apresentar um desses sintomas, procure um psiquiatra do SUS, porque hospital particular é para burguês.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Santa Ingenuidade, Batman!





Um amigo me diz que sou o cara mais reacionário que ele conhece. Então, fui consultar o dicionário para ver se ele tinha razão.
Segundo o Caldas Aulete, não sou um reaça, pois não sou contra quaisquer mudanças, só reajo àquelas que atentem contra as liberdades individuais. Também não sou antidemocrático, embora democracia não signifique o que pensa a maioria das pessoas, coisa que explico ao longo deste texto. Contudo, se mesmo assim ele continuar a me classificar no escaninho dos reacionários, vou passar a tomar isso como elogio.
A propaganda governamental nos quer fazer crer que o ato de votar é a coisa mais importante de nossas vidas, que é a maior manifestação possível de cidadania, como se eleição tivesse toda essa importância - como se votar tivesse alguma importância -, como se fosse fator determinante na caracterização de uma sociedade como um Rechtsstaat, um Estado baseado no direito, na Justiça e na integridade moral.
Os políticos, astutamente, tentam nos convencer - e infelizmente a maior parte das pessoas acredita nisso – de que a democracia é um bem a ser conquistado, meta a ser atingida ou um fim em si mesmo, e que as eleições constituem o único meio para realização desse intento.
Na verdade, a democracia é apenas um meio para se alcançar algum objetivo, que pode ser a constituição de uma sociedade livre ou a instituição de um regime autoritário. A escolha pelo voto universal significa muito pouco ou quase nada. Adolf Hitler chegou ao poder, como chanceler, pelas mãos de Paul von Hindenburg, este democraticamente eleito pelo voto popular para o cargo de Presidente da Alemanha. Há anos são realizadas eleições na Síria e em Cuba,  e nem por isso esses países podem ser considerados democracias. Durante o Regime Militar, no Brasil, também havia eleições regulares, mas, apesar disso, se fazem tantas restrições e críticas aos homens de farda.
O conceito de democracia é muito difuso e acaba sendo relacionado apenas ao fato de haver manifestação da população através do voto, para o bem ou para o mal.
Nossa preocupação primeira, cardinal, deveria ser com a construção de uma sociedade liberal que tenha como alicerce as liberdades política e econômica, o respeito aos direitos  individuais, o direito pleno à propriedade, o estado de direito, e a mínima participação do Estado nos assuntos econômicos da nação e na privacidade dos indivíduos; todo o resto, todo desvio dessas metas conduz à subordinação do cidadão ao Estado, à tirania, ao totalitarismo.
A falta de perspectiva histórica leva as pessoas a abraçarem crenças políticas totalmente descoladas de aspectos racionais, lógicos, práticos; atribuem ao Capitalismo a responsabilidade por todos os males que assolam a humanidade, sem se darem conta da situação de miséria extrema que passou a prevalecer na Europa, por mais de mil anos, com o advento da filosofia cristã após a dissolução do Império Romano. A miséria, em última análise, é provocada pela falta de Capitalismo ou pela distorção de suas características.
O mundo começou a mudar para melhor com o Renascimento, avançou com o Mercantilismo e atingiu seu ápice de crescimento com o advento da Revolução Industrial, que ocorreu em um ambiente de liberdade, a que se chamou de Liberalismo Econômico: vigia o estado de direito; predominava a livre iniciativa; as leis de mercado operavam livremente; havia liberdade de escolha e pouca ingerência governamental.
O Liberalismo, regime iniciado a partir do século XVII na Europa, deu partida a um período de crescimento econômico jamais observado; levou a avanços inimagináveis no padrão de conforto da população; produziu aumento impensável da expectativa de vida; permitiu ganhos sem precedentes nas condições de saneamento e saúde.  e reduziu drasticamente o analfabetismo, entre outras mudanças. Em pouco tempo, milhões de pessoas saíram do inferno da Idade Média.
Os dados referentes à evolução da população europeia nos últimos vinte séculos corroboram o que foi dito acima. No primeiro século de nossa era, o número de habitantes da Europa era de cerca de 30 milhões; em 1700 atingiu 120 milhões, o que equivale a uma taxa de crescimento de 0,08% ao ano. Nos trezentos anos seguintes, a população chegou a 780 milhões, o que representa uma taxa de crescimento média anual de 0,63%, ou seja, 800% maior do que a registrada no período anterior.
As novas gerações, que desconheciam o sofrimento suportado pelos seus ascendentes, passaram a considerar que as melhorias no padrão de vida avançavam em ritmo muito lento e a acreditar que alguma coisa deveria ser feita para acelerar esse processo. Começaram a exigir maior rapidez nas mudanças, pressa no resgaste das populações que ainda viviam em padrões medievais; situação da qual teriam sido retiradas naturalmente com o amadurecimento do Capitalismo. Dispuseram-se a abrir mão da liberdade, entregando-a ao Estado, acreditando que este, pela força, poderia impor avanços mais rápidos e profundos do que os proporcionados pelas leis de mercado. Como consequência, outorgou-se mais poder aos governantes, em detrimento da liberdade individual, da liberdade de escolha. O Estado passou a interferir no mecanismo de mercado, impondo restrições de toda ordem, limitando o campo de atuação dos indivíduos.
O poder do Estado cresceu gradativamente, provocando a redução do ritmo de crescimento da economia já no início do Século XX. O processo de fortalecimento dos Estados constituiu um dos fatores que possibilitaram a deflagração das duas guerras mundiais e a instalação de regimes totalitários na Europa e Eurásia.
Em vez de liberdade de escolha, oportunidades iguais, direitos iguais, garantias individuais, respeito às diferenças, respeito à propriedade, estado de direito, as populações escolheram a igualdade material, o paternalismo, o Estado provedor, o Estado assistencialista, o Estado previdenciário. O fortalecimento do Estado fez encolher os direitos individuais, reduziu as vantagens de um funcionamento pleno do mercado e introduziu incertezas no sistema econômico, reduzindo sua eficiência.
A miséria que se vê hoje não se compara com a existente nos mais de mil anos da Idade Média. O Capitalismo resgatou bilhões de pessoas desse inferno, até ser contido pelos regimes autoritários: fascismo na Itália, Portugal, Espanha, Grécia... Nazismo (Nacional Socialismo) na Áustria, Alemanha, Prússia... Comunismo na Rússia e seus satélites. E por sistemas híbridos, dos quais o nosso é um exemplo.
As pessoas foram convencidas de que Democracia significa assistência social, de que é um regime onde uma parte da sociedade só tem Direitos e a outra só tem obrigações; em que uma parte da população deve trabalhar para manter a outra que não trabalha, ou que não produz o suficiente para se manter com dignidade. Desvalorizou-se a educação, depreciou-se o valor do trabalho e do esforço, aboliu-se o mérito, inverteu-se a seleção natural; criou-se, como se diz, uma sociedade vira-lata, uma nação de esmoleres dominada pela ideologia do coitadismo e do miserismo, o culto à miséria.
Hoje lamentamos e nos indignamos com os defeitos da sociedade em que vivemos, resultante das escolhas equivocadas feitas por nossos antepassados, as quais repetimos e ampliamos na tentativa ilógica de reforçar suas piores características. Cada vez mais, e desgraçadamente, nos afastamos do mundo possível, de um mundo muito melhor, do mundo que poderíamos ter tido  se nossas escolhas tivessem sido outras.
Está tudo errado, e o tempo vai provar. Seremos cada vez mais pobres à medida que esse espírito socialista penetra o âmago da sociedade.
Santa ingenuidade, Batman!



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