/script> Gabriel Fernandes

domingo, 10 de setembro de 2017

O Planetário


O sol derretia-se na transparência azul do céu como que a convidar para um passeio na lentidão morna daquele fim de tarde. Distraidamente, recolhi da aridez da calçada rota uma folha descolorida desprezada por uma pitangueira que enfeitava o exíguo jardim confinado entre o luxo deslocado de um prédio de classe média e a fria grade de ferro carcomida pela voracidade atroz do tempo. Olhava a palidez mortiça da pequena folha de bordas irregulares, de nervuras rompidas... Tentei recordar-me do tempo em que os animais, plantas e objetos falavam como nas fábulas e contos de fadas. Queria conhecer sua história, saber da avidez dos pássaros a consumirem os frutos tenros da árvore, da chuva benigna, do sol tão desejado, do vento que a retirou do galho flexível e frágil e a lançou na aspereza rude do concreto. Entretanto, meus ouvidos não podiam mais ouvir suas histórias, como eram capazes de fazer nos dias de todas as alegrias, de todas as possibilidades da minha primeira infância.
Parece que o tempo nos tira a capacidade de nos admirar com as coisas mais simples, nos priva da imaginação, nos afasta da fantasia, nos embrutece. Invejo meus netinhos, sua crença ingênua em fadas, bruxas e dragões, sua capacidade de conversar com os bichos, com um objeto inanimado qualquer ou com uma folhinha caída de uma fértil pitangueira.
Caminhei até o parque, o mesmo parque onde fazia piqueniques memoráveis com minha família nos primeiros anos após sua inauguração. Lembrei-me das mesas amplas espalhadas sobre os verdes dos gramados, dos longos bancos de pranchas de madeira colocados longitudinalmente às mesas, a toalha xadrez, a cesta de vime, a diafaneidade da jarra de vidro repleta de suco colorido. Lembrei-me da lassidão daquelas tardes infindas, o mundo se abrindo aos meus olhos como um caleidoscópio gigantesco, um cenário multicolorido de teatro a me oferecer um infinito de dias, uma amplíssima latitude de tempo.
Percorri com passos preguiçosos as amplas alamedas. Admirei a altivez dos eucaliptos, hastes colossais como que espetadas no lápis-lazúli do céu. Demorei-me a contemplar os gansos, marrecos e mergulhões que se despediam da última claridade do dia numa algazarra pueril.  Segui até o planetário. Desci a rampa que me levou ao interior de sua cúpula prateada que ainda refletia os derradeiros raios de sol. Sentei em uma poltrona, recostei-me e aguardei o início da sessão. O astrônomo fez as apresentações iniciais e informou que viajaríamos através do tempo, voltando para o dia da inauguração do parque.
As luzes se apagaram repentinamente e a escuridão invadiu todo o recinto. Senti, nos poucos segundos de breu total, que a poltrona crescia sob mim ou que eu diminuía na maciez confortável do assento de couro. De repente, pareceu-me sentir o toque carinhoso da mão de minha mãe, depois o aperto delicado de seus dedos entrelaçados nos meus. Podia pressenti-la ao meu lado. Da outra poltrona, parecia escapar o perfume inconfundível da lavanda de meu pai. Torci, em vão, para as luzes não se acenderem: não queria interromper a magia daquele momento.
Então, o céu se iluminou e as estrelas e astros começaram a mover-se rapidamente no negror da cúpula celeste. O astrônomo informou que viajávamos para 1954 e que o planetário reproduziria o céu em 21 de agosto daquele ano. A velocidade dos astros diminuiu gradualmente até pararmos na data desejada. A silhueta da cidade recortava o tecido negro do firmamento, com as luzes ainda poucas e a raridade de arranha-céus. Ainda assim, o clarão da nascente metrópole tornava invisível a luz das estrelas próximas ao horizonte. O astrônomo prometeu que nos surpreenderia com um blackout e o fez. Quando as luzes se apagaram, a cidade desapareceu e as estrelas se multiplicaram e adquiriram nova dimensão no cosmo artificial. Um suspiro geral de admiração percorreu todo o auditório como um frisson coletivo. Era o céu de meus piqueniques. Olhei à minha direita e à minha esquerda. Eu estava só, mas ainda pude sentir o calor da mão de minha mãe na minha como numa despedida e o perfume discreto de meu pai como uma recendente saudade. A imagem da meia lua projetada no céu de concreto entrava turva em minhas retinas, filtrada por duas lágrimas póstumas.
Deixei o planetário. A noite me envolveu como uma escura mortalha.  Meu coração ainda batia descompassado, meus olhos continuavam úmidos. Mesmo ciente da impossibilidade inexcedível, involuntariamente meu olhar procurava as mesas e os bancos, a toalha xadrez e a cesta de vime ora inexistentes e os vultos inencontráveis de meus pais.
Eu caminhava vagarosamente. Sem razão aparente, apalpei meus bolsos. A pequena folha da pitangueira ofereceu-se aos meus dedos. Coloquei-a na palma de minha mão e contemplei sua lividez mortiça. Dessa vez, como uma criança, pareceu-me poder ouvir suas queixas. Falou-me, com nostalgia, do vento que agitava o ramo em que brotou, contou-me das visitas dos pássaros coloridos e vorazes, das gotas de sol que penetrava a copa da árvore, do frescor das chuvas...
Calquei sem pressa as calçadas irregulares que me levariam para casa. Sobre a maciez do lençol de folhas que jaziam próximas ao tronco da pitangueira, deixei cair a folha saudosa.

terça-feira, 8 de agosto de 2017

La Chute e uuu...



Lá fora faz um frio invernal. Aqui na cozinha, corre uma conversa aquecida em torno de pratos brancos e fundos em que fumega delicioso caldo verde, especialidade da Gorda. A taça cristalina toma emprestado o matiz rubro do vinho, assumindo seu lugar no palco modesto da mesa.
Fanáticas por cinema, minha mulher e a prima, a Gorda, conversam animadamente sobre filmes e atores.  Entre um bom livro e um bom filme, sempre prefiro o primeiro, mas às vezes aceito assistir a um que me pareça interessante. O Zé, o Gordo, marido da Gorda, tem preocupações mais elevadas: enfrenta, com voraz determinação, seu prato de caldo verde e aprecia sem moderação uma generosa taça de vinho português.
Desta vez, entre terminar de ler La Chute, de Albert Camus, ou entrar no papo das primas − e para não ficar só ouvindo o blábláblá e me sentindo excluído − me arrogo o direito de meter o bedelho no bate-papo. Após alguns minutos de conversa, não posso deixar de começar a associar a forma como nossa conversa evolui e o assunto de que trata o livro de Camus: a decadência física e profissional de um arrogante advogado parisiense que se considerava filho de rei, uma sarça ardente, o melhor dos seres humanos. Como ele foi, somos igualmente vítimas da passagem implacável do tempo. Nosso corpo há muito dá sinais de decadência: a pele flácida, os cabelos ralos e brancos, a presbiopia, a lenta e quase imperceptível perda de vigor físico... Agora é o cérebro que começa a dar sinais de fadiga de material, começa a ratear, a andar mais devagar, a parecer pegar só no tranco. Lentamente, caminhamos em direção à ponte, em direção às águas frias e escuras do Rio Amstel.
As primas lembram detalhes de muitos sucessos de bilheteria, mas, muitas vezes, os nomes dos atores fogem da memória como cachorros fogem da carrocinha.
− Você se lembra do nome do ator que se protegeu do frio dentro do corpo de um cavalo? Aquele loiro bonitão...
− Aquele que se casou com aquela atriz morena que operou os lábios e ficou com um beição esquisito?
− É, o mesmo cara que fez o filme do cavalo gigante de madeira, né?
− Não, ele fez aquele filme do navio que afundou. Uuu...
E o nome não vem. Ninguém se lembra sequer dos nomes dos filmes. Então, o sabidão aqui dá um palpite:
– É o Di Capri... O Peppino di Capri – me intrometo.
As primas explodem numa debochada gargalhada e eu, fico ali congelado, com cara de otário, sem saber o porquê daquela gozação. Nunca me arrependi tanto de não ter ficado com a matraca fechada. O que eu tinha dito de tão gozado? O Gordo? Ora o Gordo! Continua a digladiar-se ferozmente com sua refeição e a esvaziar diligentemente sua taça. Mas, apesar do fora, minha dica foi importante: todos se lembraram de DiCaprio, o Leonardo.
E a coisa continua, assim como continuam os vexatórios uuu...
− Adorei o filme daquele negão que cuida dum cara paralítico. O ator que fez o cara paralítico é uuu...
E o nome não vem, foge como um trombadinha após o furto.
É o cara que fez Antes de Partir. Uuu...
− Quem fez Antes de Partir foi uuu... Demora um pouquinho, mas consigo me lembrar do Jack Nicholson.
− Então foi uuu... O cara que fez Taxi Driver.
− Não, foi uuu... Mais uma longa pausa. O De Niro?
− Não, o que fez papel de cego nuuu... Nova pausa longuíssima.
E os três tentam se lembrar dos nomes do filme e do ator.
Eu apelo para o alfabeto. Passo por todas as letras tentando associar rostos de pessoas a nomes e filmes. Inutilmente. Ficamos rodando em círculos como um peru bêbado, sem resultado.
Só à noite, enquanto as primas assistem à televisão e o Gordo dissipa ledamente mais uma taça de um bom vinho do Douro, conseguimos nos lembrar de Perfume de Mulher e de Al Pacino, que não tinham nada a ver com o nome do filme e do ator que passamos a tarde toda tentando lembrar.
O filme a que as primas se referiam é Intocáveis, de Eric Toledano e Olivier Nakache. O ator que faz o paralítico é François Cluzet, que apenas vagamente lembra Robert de Niro. Descobri tudo isso no Google.
Envelhecer é mesmo um caco. A gente vive assustada tentando associar qualquer fato que pareça fugir do normal a algum sintoma daquela doença degenerativa descrita por aquele médico alemão uuu... Uuu... Por sorte, ainda restam as pontes sobre os canais de Amsterdã como último recurso para uma partida com alguma dignidade, isso se não me esquecer de pegar o voo para uuu...
Brr...! A água está tão fria! Mas tranquilizemo-nos! É tarde demais, agora, será sempre tarde demais. Felizmente!"

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Vida Breve

 

É bom deixar-se ir, às vezes,
Sem rédeas, sem senões,
Seguir um impulso,
Rir, ousar, errar, ferir-se... Sangrar.
Homens são meninos, só meninos.

Espero-te no meio desta ponte
Que em cruzar relutas
Incerta, bela,
Pois não sabes do céu de outono que refletem
As claras águas que deslizam sob ela.
 
Esperam-te também doces saudades
Dos beijos teus suaves que não tive,
Dos ternos risos teus, dos teus sussurros,
Dos choros e segredos que não soube.
Esperam-te minhas mãos impacientes por tocar-te. 

Espero-te no meio desta ponte
Para que me deixes cheirar os teus cabelos
E possuir-te, assim, inteira em meus pulmões,
E ter-te diluída no meu sangue
Para que faças de meu corpo tua morada. 

Mulheres são meninas, só meninas,
Não frágil flor cativa em algum vaso
Que aqui se deixa,
Que ali se esquece
E que floresce para um único olhar. 

A noite vem
E ainda te espero nesta ponte,
Em meio a este ocaso carmesim,
Sem saber quantos luares hão de refletir ainda
Na lentidão do rio que se esgota sob mim. 

Mas tu não vens...
E a volição em mim sequer recede.
Do menino que sou, tu nada sabes
E a vida é breve.

terça-feira, 20 de junho de 2017

O Cheiro das Laranjeiras






Como bom paulistano, acho que sempre acalentei certo preconceito em relação à cidade do Rio de Janeiro. Não sei se é puro despeito, talvez apenas inveja descabida (descabida?) do relevo e dos contornos deslumbrantes da cidade dos cariocas, dos morros famosos, das pedras enigmáticas, da calmaria dos lagos, do perfil gracioso das baías, do burburinho festivo das praias, dos belos fortes maciços, do exuberante Jardim Botânico, da fabulosa herança arquitetônica colonial, do prosaico bondinho de Santa Tereza, da harmonia dos Arcos da Lapa...
Acho que esse meu sentimento vai além das diferenças físicas entre as duas cidades. São Paulo tem sua própria beleza, eu a reconheço no quase nada que sobrou de construções coloniais, do pouco que restou da genialidade criativa de Ramos de Azevedo. Na distância, meus olhos procuram, às vezes, o verde remanescente da Mata Atlântica no isolamento do Pico do Jaraguá, nas ondulações da Serra da Cantareira ferida de morte ou na mancha minúscula do Parque do Estado. O resto é tudo gigantismo e funcionalidade: concreto, aço, vidro, asfalto, pressa.
São Paulo é uma cidade sisuda, uma velha senhora, vestida de nuvens de chumbo, que se alastra incontrolavelmente sobre os Campos de Piratininga. Minha cidade tem pressa, se sorrisse certamente nos mostraria um sorriso desenxabido, como a nos pedir desculpas pela sua desproporcionalidade.
Hoje me sinto um pouquinho carioca também e experimento certo orgulho ao dizer que meus netos são cariocas. O Rio me surpreende a cada nova visita. As opções de passeios parecem infinitas, assim como as amenidades do clima. Palácios, museus, teatros, igrejas, fortes, parques, praças, morros, praias, ilhas... Feiras.
Aliás, feira no Rio é algo muito distinto do evento hebdomadário (esta é para cutucar um amigo meu) que recebe o mesmo nome em São Paulo. A coisa se passa no Bairro das Laranjeiras. A feira começa na Rua Ortiz Monteiro, esquina com a General Glicério, nos limites da Praça Jardim Laranjeiras, mas o tumulto se inicia bem antes. Primeiro a dificuldade para se encontrar um lugar para deixar o carro; depois o caminhar no meio da rua, espremidos entre os carros mal estacionados e os imensos ônibus que ameaçam nos amassar a cada instante; além disso, a preocupação com as crianças levadas ao colo ou bem junto ao corpo.
A fila segue como uma enorme, vagarosa e colorida lagarta de inúmeras pernas. Pessoas sem pressa puxam seus carrinhos de arame, conduzem suas sacolas de fibra, conversam animadamente com quem vai a sua frente ou logo atrás. Não há pressa. Faz calor. A praça é ocupada por gente de todas as cores, classes e idades que conversam animada e descontraidamente. As crianças divertem-se assistindo a um ingênuo espetáculo de teatro de fantoches.  A seu modo, o barraqueiro diverte-se vendendo bolinhos de bacalhau regados a azeite de oliva e pimenta Tabasco. Da barraca de pastéis e cana de açúcar parece crescer uma estranha cauda que se alonga pela Belisário Távora: é a fila dos comedores de pastéis.
No andar térreo de um prédio, em uma das esquinas, um bar escancara suas portas para a feira. As mesas na área externa do bar estão todas ocupadas. No chão, entre as mesas, muitas crianças distraem-se com os brinquedos oferecidos graciosamente pelos donos do bar: bolas, quebra-cabeças, carrinhos, bonecas, chapéus, fantasias, máscaras... Minha netinha encontra vários coleguinhas da escola que brincam entre as mesas. Minha nora consegue um lugar em uma das mesas ocupadas por outras mulheres. Parece que todas as pessoas se conhecem e a área do bar assemelha-se a um alegre quintal. Eu me sento no meio-fio, entre duas barracas de peixes. Meu netinho André está comigo. Ele brinca com pedrinhas, folhas secas e alguns galinhos caídos de uma velha tipuana: passeia em um mundo de fantasias que já não posso visitar. Eu, por meu lado, divago entre peixes, moluscos e crustáceos...
Os olhos vidrados de uma infeliz tainha parecem nos observar de cima do balcão forrado de cascalho de gelo. É um olhar triste, vazio. De repente uma gota d’água escorre pelo plástico transparente e cai silenciosamente no chão como uma solitária lágrima. Talvez ainda chore a saudade das águas frescas do mar de onde foi bruscamente arrancada. Nada posso fazer.
Um grande polvo parece sonhar com a possibilidade de escapar da bandeja que o aprisiona; desbordar como uma gelatina parda; escorregar pelo balcão; cair no asfalto quente; enfurnar-se na escuridão dos esgotos e alcançar o mar numa fuga espetacular. Pobre polvo!
 Um belo dourado me emite um olhar constrangido, parece ser inaceitável para ele expor publicamente sua nobreza ao lado da indigência de pobres sardinhas e prosaicas manjubas anãs. Morto, mas orgulhoso.
De repente, uma aparição milagrosa. Um ser de estatura elevada, de cabelos e barba grisalhos e longos, um par de olhos azuis como o céu límpido daquela manhã. Pensei que sonhava ou que estava tendo visões. Era o próprio Cristo redivivo. Levantei-me e olhei ao meu redor para avaliar as reações das pessoas. Todos pareciam ignorá-lo. Olhei para o horizonte procurando localizar o Corcovado. Se eu o pudesse ver dali, certamente não encontraria mais o Redentor em seu topo, pois ele havia se materializado bem à minha frente, à frente de um cara que não tem fé.
Passado o susto, fiquei observando o Cristo mover-se entre as bancas da feira. Ele andava leve e vagarosamente, parecia levitar com suas sandálias brancas e rotas. Meu netinho olhava o Cristo com indiferença. Para ele, suas folhinhas e pedras constituíam um universo muito mais importante. Com certeza ele ainda não estava preparado para aquela inesperada epifania. Aquele Cristo improvável, alto demais, branco demais, envelhecido demais realizava sua liturgia impudentemente. De banca em banca, ele surrupiava uma maçã aqui, uma banana ali, um caqui acolá, um pedaço de melancia alhures, uma azeitona algures. Experimentava de tudo, sem nunca se dispor a comprar nada. Pensei que ele fosse repetir o milagre da multiplicação dos peixes nas bancas que nos rodeavam. Não. O Cristo era especialista em multiplicar o volume dos bolsos de sua túnica. Os feirantes o ignoravam como a um fantasma. Ele era apenas mais um maluco-beleza ou um vulgar espertalhão. Também me desinteressei dele. O Cristo verdadeiro, seguramente, ainda encimava o Corcovado.
O odor forte de fritura misturava-se aos perfumes das frutas, ao cheiro dos pescados, ao aroma dos temperos e ervas, à fumaça intermitente dos ônibus. Numa pequena banca, o vendedor montara, com arte, um colorido mosaico formado por inúmeras espécies de pimentas que também incensavam o ar. Ao lado de uma barraca de peixes, um camelô oferecia sardinhas, que acabara de limpar, empilhadas na forma de um grande peixe. A feira se revelava uma rica e criativa exposição de arte moderna.
Voltei à praça com meus netos e meu filho. Contribuímos alegremente para o crescimento da cauda da barraca de pastéis. Devoramos pastéis gigantes e quibes exagerados regados por dulcíssima garapa.
Ninguém tinha pressa. Da praça fugia a melodia sincopada de um pequeno grupo musical. O som agudo da flauta costurava as notas quentes e roucas da clarineta. O pandeiro, o tamborim e o cavaquinho confabulavam íntima e ritmadamente. A plateia acomodava-se da melhor maneira possível para poder assistir à apresentação de choro, bossa nova e jazz. Os connaisseurs traziam suas próprias sombrinhas, cadeiras e bancos.
Não sei quanto tempo me demorei na feira. Pareceu-me uma doce eternidade, mas eu também não tinha pressa.
De volta a São Paulo, vi mais uma vez ser montada, próxima ao prédio onde moro, no Bairro do Paraíso, a minúscula feira de sábado. Ela ocupa apenas um quarteirão, oferece pequena variedade de produtos, pouca gente se vale dela, mas a insistência dos feirantes a faz renascer a cada sábado. As pessoas apenas passam por ela. Algumas comem rapidamente um pastel ou tapioca e tomam uma garapa num copo mole de plástico. Ao contrário da feira carioca, aqui os feirantes gritam como loucos, tentando atrair os clientes apressados e, talvez inconscientemente, quebrar a monotonia de uma feira sem vida.
Voltei do Rio ainda mais invejoso... Agora, nostálgico, guardo a lentidão contagiante, as cores profusas e o som farto da feira da Rua Professor Ortiz Monteiro que começa e termina na General Glicério desenhando um longo e colorido arco. Agora, tenho a sensação de que, vez ou outra, meus pulmões melancólicos suspiram com saudade do cheiro das Laranjeiras.

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Balaio de Minas


IV Festival de Inverno da Cidade de Gonçalves, julho 2013, embora, diante da monstruosidade dos aglomerados humanos atuais, Gonçalves não possa ser considerada sequer vila ou bairro: é tão-somente um pequeno ajuntamento de pequenas construções incrustadas no colo verde da Mantiqueira.
A festa decorria como planejada. No palco, um grupo de violeiros guardava seus instrumentos após tocar o repertório programado de clássicos do cancioneiro sertanejo. O silêncio voltava a acariciar as cadeiras brancas de plástico alinhadas sob a tenda igualmente branca; a plateia cochichava qualquer coisa enquanto aguardava a próxima atração.
Eu deixava a tenda quando ouvi as batidas distantes de uma zabumba e de um surdo. O ar estava gelado; uma neblina fina envolvia a noite. O som do batuque soava cada vez mais perto, mas ainda não me era possível identificar de onde provinha. Então, na opacidade úmida do ar, como num truque de mágica, alguns vultos começaram a se materializar como que saídos de um alçapão repentinamente aberto na aspereza hexagonal do calçamento da rua. Lentamente, uma imagem tomava forma como uma tessitura intrincada urdida por um velho tear.
Minha curiosidade me fez parar e aguardar o desfecho daquela cena. Logo o ar se encheu de uma cantoria alegre e doce. Fadas, com suas saias longas e coloridas, tomaram corpo diante de mim para deleite de meus olhos. Eram doze moças lindas que, cantando, pediam licença pra sinhá e pro sinhô a fim de poder mostrar sua arte e sua graça e nos contagiar com sua alegria.
Voltei para o interior da tenda seguindo aquela ciranda cativante de belas bailarinas que rodopiavam graciosamente no meio do povo deslumbrado. Reviveram antigas canções folclóricas, de melodias simples, de letras ingênuas ou de pequenas malícias: “O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou...”.
Eu queria que o tempo parasse para que a música e a dança continuassem para sempre. Os versos matreiros, as rimas simples, o palavreado matuto, as meninas lindas...  Sua arte me fez retroceder no tempo; voltar à infância já muito distante, para a companhia de meus irmãos e amigos, para as brincadeiras na rua, para as grandes rodas que formávamos para brincar de ciranda mesmo sob a garoa das noites frias do inverno paulistano. Pareceu-me ouvir a voz de minha mãe a me chamar para que colocasse um agasalho porque fazia frio. Confesso que me emocionei.
Paulistano que sou, comecei a me sentir um pouco das Minas Gerais, possuído pela cultura mineira, pelo modo de falar, pelo jeito de ser, pela maneira que o povo das Gerais tem de encarar a vida.
O som da ciranda ainda repercute em meus ouvidos, as batidas do bumbo, as respostas do surdo, os acordes da viola que se juntou ao grupo, as vozes das meninas-fadas que se materializaram na névoa fria que cobria Gonçalves. Sinto que posso dizer que agora um pouquinho de mim é mineiro, ocupa um pedacinho desse mágico balaio cultural que é Minas.